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Saturday, May 02, 2026

Capítulo Três

Confusão em Batalha!

O apito soou.


Os três da Academia ocupavam o centro e o norte. Tierno e Shauna estavam no sul, com ele. O Dunsparce estava no terço leste, imóvel. 


O prémio era suficiente para chegar a Lumiose. Comida, estadia, itens de treino. Dois meses, se fossem cuidadosos. Não podia perder.


Os primeiros trinta segundos foram caos puro — oito organismos com instintos diferentes a ocupar o mesmo espaço sem hierarquia estabelecida. Não havia frente. Não havia eixo. Havia apenas pressão multidirecional que se reorganizava a cada segundo.


A poeira da terra batida levantou nos primeiros dez segundos.


O primeiro impacto veio do centro — o Diggersby do treinador mais experiente a emergir sem aviso. Um gesto quase imperceptível do indicador esquerdo. Depois do segundo impacto, já não havia forma de distinguir o chão da névoa cinzenta que cobria o terço médio até ao joelho.


O Diggersby emergiu como se a terra fosse água. Não houve fenda, não houve tremor. Um segundo estava debaixo do Dunsparce; no seguinte, o Dunsparce estava no ar. O som do impacto foi seco — o tipo que se sente no peito antes de se ouvir.


Calem sentiu a vibração nos joelhos. Étoile recuou meio passo — não medo, avaliação. Os olhos não estavam no Diggersby. Estavam no chão.


Veterano no centro, Diggersby desaparecido na areia. Garota com o Fletchling posicionado na corrente de ar diagonal — anos naquela praça. Mais jovem com o Panchamparado: informação antes de ação. Tierno no centro-esquerdo, o Budew em movimento. Shauna a dois metros, o Litleo baixo. Os dois tinham-no seguido para o terço sul. Não combinado. Simplesmente feito.


Ninguém estava a olhar para o terço norte.


O Fletchling mergulhou para o centro. Não para um alvo específico — uma linha de pressão descendente que forçou o Panchama reposicionar e empurrou o Budew dois metros para a esquerda. O impacto levantou a segunda nuvem de poeira, suficientemente densa para cegar o terço central durante quatro segundos.


Calem percebeu: a garota não estava a atacar. Estava a criar cobertura para o Diggersby.


Naqueles quatro segundos, o Diggersby emergiu sob o Dunsparce. Ataque de baixo — a única direção que as patas fixas não cobriam. Quando a poeira assentou, o Dunsparce estava no chão. O treinador olhou para o sítio onde a criatura tinha estado com a expressão de quem vai pensar nisso durante semanas.


O organizador soprou uma vez. Eliminação confirmada. Sete na arena.


Na mesma nuvem, houve um som no terço norte. Um impacto leve, o tipo que uma criatura pequena faz quando reposiciona com rapidez suficiente para o movimento ser quase silêncio. Calem ouviu. Não reagiu. Guardou a informação.


O treinador mais jovem da Academia olhou para o flanco direito do seu Pancham e encontrou uma marca de corrosão ácida que não tinha estado ali antes. Olhou para o norte. A névoa ainda não tinha assentado. Não havia ninguém visível.


O veterano olhou para Calem. Depois para Tierno. Depois para Calem outra vez.


Era um teste. Se Calem movesse Étoile para proteger Tierno, o Diggersby atacava o flanco aberto de Shauna. Se não movesse, o Budew levava o impacto sozinho. Calem não moveu. Étoile olhou para ele. As orelhas baixaram um milímetro. Ela não concordava. Mas ficou.


O Budew absorveu o primeiro golpe. O segundo foi mais forte. Tierno não gritou. Não reclamou. Apenas ajustou a posição do Budew com um movimento de mão — o mesmo gesto que fazia quando um passo de dança não saía como queria e ele repetia até sair.


A garota da Academia percebeu. Tarde. Calem não disse nada. Étoile avançou.


O golpe acertou no Fletchling durante a subida, no momento de menor mobilidade. O Fletchling oscilou, perdeu altitude, recuperou — dano real, mas não eliminação.


O Pancham avançou para o espaço que o Litleo tinha deixado. Dois movimentos, preparados antes do Battle Royale. Étoile já estava no caminho. Não por acidente. Calem tinha-a posicionado ali quarenta segundos antes, sem saber exatamente porquê — só que ali era onde a pressão ia convergir. O Pancham travou. O treinador mais novo hesitou — primeiro segundo de hesitação real.


O veterano viu a hesitação do colega, viu Étoile na posição de bloqueio, e olhou para Calem, em tom de reconhecimento.


O chão vibrou no terço leste.


O Diggersby emergiu sob o Budew — o timing calculado para o momento de menor capacidade de desvio. O impacto levantou poeira suficiente para cobrir o terço central e metade do sul.


O Budew absorveu o primeiro golpe. O segundo acertou no flanco já marcado. O veterano não estava a tentar eliminar Tierno. Estava a testar a aliança.


Calem não moveu Étoile.


O Budew ficou mais lento. Funcional, mas comprometido. Tierno não olhou para Calem. Não precisava.


Na mesma nuvem, o Fletchling mergulhou para o Litleo — terceiro ataque, mais velocidade, altitude recuperada. O Litleo desviou-se para a direita. Recebeu o golpe no flanco. A perna traseira direita ficou comprometida. Shauna mandou o Litleo baixar, redistribuir o peso. Não reclamou. Não pediu ajuda. Apenas ajustou.


Quando a nuvem assentou, o treinador mais jovem da Academia tinha recolhido o Panchame saído. O organizador soprou — eliminação confirmada com atraso.


A garota da Academia olhou para o norte. A névoa ainda não tinha assentado. Não havia ninguém visível.


— Esquerda — disse Shauna, sem olhar para Calem.


Não era comando para o Litleo. Era informação. Vibração no terço oeste que ela estava a sentir antes de Calem.


Calem ajustou Étoile dois passos para a direita.


O veterano viu o ajustamento. 


Mandou o Diggersby para fechar o ângulo de recuo. O Diggersby emergiu a norte — bloqueio, não ataque. Étoile estava rodeada em três quartos do perímetro. A garota da Academia mandou o Fletchling mergulhar para o sul — pressão adicional no momento de menor cobertura.


O terço norte produziu som pela primeira vez.


O Acid Spray não foi uma linha — foi uma nuvem densa que saiu do terço norte e envolveu o Litleo antes que alguém processasse de onde vinha. O Litleo recebeu o impacto completo no flanco esquerdo — o único segundo em que a perna traseira comprometida deixara o lado aberto.


O Litleo ficou de pé durante dois segundos. Depois os joelhos cederam.


O organizador soprou, todos ficaram em choque, procurando a origem do ataque. 


Não foi preciso, houve um estalo de língua — o som de alguém que está entediado antes de a luta a sério começar.


— Isto é o melhor que vocês conseguem?


Calem reconheceu a voz antes de ver o rosto. Do dia anterior, a mesma voz tinha passado por Tierno como um borrão vermelho, insultos soltos no ar, rasto de borracha queimada no calcário. Não vira o rosto então. Viu agora.


Viu primeiro a saia – vermelha, tecido grosso, algodão ou linho, as bainhas limpas, sem pó. Não era roupa de caminhada. Era roupa de quem sabia que ia ser vista.


Depois viu as pernas. Longas. Torneadas. A sola dos sapatos (rasa, borracha preta, desgaste uniforme no calcanhar) com a linha de rodas novas retraíveis tocava o chão num intervalo regular. Económico. Nenhum passo mais longo do que o necessário.


O olhar subiu para a cintura que a saia marcava, para o colete preto, para os ombros – não largos, ombros que sabiam o peso que carregavam e achavam pouco.


O cabelo loiro longo em uma assimetria que não pedia permissão. As pontas com leve ondulação – não de mar, de vento de corrida. Quando ela inclinou a cabeça, o cabelo não acompanhou o movimento todo de uma vez. As pontas mais curtas atrás mantiveram a forma. Despreocupado. Calculado.


O rosto. As maçãs altas, definidas, quase cortantes à luz da tarde. O queixo ligeiramente levantado – não por pose, por hábito. Os olhos azuis-claros, cor de gelo antes de derreter, percorriam a arena com uma lentidão estudada. Nada ali era digno de pressa. Nem sequer a raiva dele.


Ela não olhou para Shauna a sair. Não olhou para o Litleo recolhido. Os olhos dela encontraram os de Calem como quem encontra uma mosca na parede – e decidiram que nem valia a pena afastá-la.


Os lábios entreabertos, como se o ar ali soubesse que não podia entrar sem convite. O orgulho estava em cada poro – na forma como os ombros não se curvaram quando a Skrelp flutuou para a frente, na maneira como as mãos ficaram nos bolsos do colete, enfiadas, relaxadas. Como se a arena inteira fosse um degrau que ela já tinha subido.


Ela era bonita. Doía admitir.


A Skrelp flutuava à sua frente, o corpo translúcido a pulsar com um púrpura doentio. As glândulas laterais estavam inchadas, carregadas. Não tinha atacado até ali. Não porque não pudesse. Porque ninguém merecera o esforço.


— O sulista ali acha que ler areia é treinar. — Apontou com o queixo a Calem. — A jovem com o Litleo move os lábios como se ninguém visse. E o outro com o Budew — há dois turnos que é boneco de teste.


Os olhos dela pararam em Calem.


— Três amadores a fingir que  não são uma equipa. É quase fofo.


O veterano não se mexeu. Mas o dedo indicador da mão livre tapou o centro da palma — uma vez, duas.


A jovem inclinou a cabeça.


— Uma aliança de três. Ninguém reparou? Ou vocês da Academia são todos cegos?


Shauna recolheu o Litleo. Saiu sem olhar para nenhuma direção específica, antes de se virar, os olhos dela encontraram os de Calem por um décimo de segundo. Não disse nada. O que ele leu ali.


A jovem loira apontou o dedo enluvado a Calem.


— Você. Você é o pior tipo.


Calem não respondeu.


— Acha que ler padrões de areia é coragem, que sobreviver é vencer.


Deu um passo em frente. Os patins rangeram no pó.


— Não sabe a diferença entre medo e cautela, né?


Tierno não disse nada, o pé parou de bater. Quando Tierno parava de se mexer, era porque estava a ver algo que os outros ainda não viam.


Calem sentiu Étoile querer encostar-se à sua perna.


O veterano viu a abertura. Para ele, o cálculo era pessoal: Calem era o centro daquela aliança. Se Calem caísse, o orgulho da Academia estaria restaurado. Levantou a mão. O Diggersby moveu-se para o flanco direito de Étoile.


Mas a garota de patins levantou a mão primeiro.


— Não.


O veterano parou.


— Este aqui é meu.


A Skrelp flutuou para a frente. O corpo translúcido brilhava agora com um tom mais escuro, as glândulas a contrair-se e expandir-se num ritmo que parecia respiração.


A loira sorriu. 


Sorriso de quem vai partir um brinquedo para ver como funciona por dentro.


— Mostra lá, amador. O que é que você tem?


Calem olhou para Étoile. As orelhas não estavam baixas. Não estavam a girar em todas as direções. Estavam quietas, apontadas para a Skrelp.


— Étoile — disse ele. A voz saiu rouca. — Não tire os olhos dela.


Ela já estava virada para o norte. Não precisava de ouvir o nome.


A luz rosa de Étoile brilhou. Não fogo. Não veneno. Luz — uma onda que saiu do corpo pequeno da Clefairy e se espalhou em círculo, varrendo a poeira da arena, forçando o Diggersby a emergir do chão com um guincho, empurrando o Fletchling para fora da corrente de ar.


— Que merda é essa?


Calem não respondeu. Olhos fixos em Étoile. Ela tremia. A auréola rosa pulsava — forte, fraca, forte.


A Skrelp flutuou para trás, glândulas encolhidas. A loira olhou de Calem para a Clefairy e de volta.


— Essa coisa não é normal. Onde arranjou isso?


— Chama-se Étoile.


Ela bufou. A Skrelp flutuou para a frente, glândulas a inchar vermelho.


— Bonito. Agora mostra o que faz.


A Skrelp atacou — jato de veneno em linha reta. Étoile rodou, auréola projetada como escudo. O veneno escorreu pela luz. A loira assobiou. A Skrelp disparou esferas rápidas, dispersão para cansar. Étoile desviou da primeira, rolou por baixo da segunda, bloqueou a terceira com a cauda. Fluidez que Calem nunca vira. Instinto.


— Não lhe ensinou isso — disse a loira.


— Não.


Ela apertou os lábios. A Skrelp recuou, gasta.


— Chega.


A mão dela subiu. A Skrelp brilhou azul.


— Também não quero saber o que tem aí.


O azul cresceu. O impacto acertou Étoile no peito. A Clefairy voou dois metros, rolou, ficou imóvel. Ataque super efetivo.


— Étoile...


Nada. A garota inclinou a cabeça.


— Pois. Não se levanta.


Nenhum dos dois viu o chão a tremer.


O Diggersby emergiu entre eles — não por baixo de um, por baixo dos dois. O corpo massivo rompeu a terra no centro do espaço que os separava, levantando uma onda de areia e calcário que os atirou em direções opostas.


Calem rolou. O ombro ardeu. A mochila escapuliu, bateu nalgum lado.


Étoile levantou a cabeça. A auréola rosa brilhava fraca, intermitente.


O veterano estava parado no limite da arena, a mão estendida. Não sorria. Observava.


— Os dois — disse ele, voz calma. — Ao mesmo tempo.


O Diggersby moveu-se. Calem viu o ataque a chegar. Não havia tempo para desviar. Nem para comandar.


Étoile levantou-se. Não para fugir. Para ficar entre ele e o Diggersby.


— Não — disse Calem.


Ela não ouviu.


O impacto foi surdo. Étoile rodou no ar, a auréola rosa a apagar-se como vela ao vento. Caiu. Não se levantou.


O organizador soprou.


— Calem Deschamps. Eliminado.


Calem não ouviu. Já corria para Étoile. Joelhos na areia. Mãos a tocar o corpo pequeno. Quente. Ainda quente, mas imóvel.


Do outro lado da arena, a loira de patins tinha sido atingida pelo mesmo ataque. A Skrelp flutuava, tonta, uma glândula a pingar líquido claro que não devia pingar. A garota ajoelhou-se. 


Passou o polegar pela lateral da glândula lesada — um gesto que não se ensina, apenas se acumula, com familiaridade que vem de anos a fazer a mesma verificação. 


A Skrelp pulsou. Não respondeu.


Ficou assim um momento, os olhos na Skrelp, a expressão mais velha e mais quieta do que fora no confronto. Depois levantou-se. E só então olhou para o combate que continuava sem ela.


O Budew estava no centro.


Tierno não disse nada. Não assobiou. Não comandou. O pé parara de bater. Havia apenas o corpo dele e o corpo da planta.


O Fletchling mergulhou. O Budew não desviou. Inclinou-se — o caule a vergar no ângulo exato, a altura calculada pela sombra do pássaro no chão. O Fletchling passou por cima. O pó de sono subiu na esteira do vento das asas. O pássaro oscilou. Caiu dois metros. Recuperou. A asa direita batia mais devagar.


A garota da Academia mordeu o lábio.


O Diggersby emergiu à esquerda — o padrão esperado. O Budew já não estava lá. Tierno moveu-o durante a subida, a planta a deslizar na areia como folha levada pelo vento.


O veterano franziu o cenho. Fez um gesto curto com a mão esquerda — dois dedos a apontar para baixo. 


O Diggersby desapareceu.


O Fletchling mergulhou outra vez. Mais alto, mais rápido — a garota forçava, gastava o que restava do pássaro.


O Budew não desviou. Recebeu o impacto de frente. As folhas tremeram. O caule vergou quase ao ponto de partir. Mas no momento do impacto — quando o bico do Fletchling tocou a folha superior — o Budew largou uma nuvem de pó de paralisia diretamente no rosto do pássaro.


O Fletchling caiu. Asas abertas, a tremer. 


Assutou-se quando viu o corpo gigantesco do Diggersby consumi-lo por completo, por erro. 


A garota recolheu-o antes do apito. Saiu sem olhar para trás.


Restavam dois.


O veterano olhou para Tierno. Tierno olhou para o veterano.


Nenhum dos dois disse nada.


O Diggersby emergiu — não à esquerda, não à direita. Debaixo.


O Budew não teve tempo de desviar. Patas fecharam-se à volta do caule. O Budew lutou — folhas a bater no chão, pó a sair em espasmos fracos. O Diggersby apertou.


O caule partiu.


Não com um estalo. Com um som seco, húmido, que não devia sair de uma planta.


Calem concentrava-se na luta pelo amigo, mas algo estranho chamou a sua atenção.. Étoile ainda estava nos seus braços. Imóvel, mas quente — mais quente do que devia estar. O calor atravessava a camisola, quase a queimar. Depois viu.


A luz rosa não tinha apagado quando ela caiu. Tinha-se recolhido para dentro dela. E agora crescia outra vez — não no peito, em todo o lado. As mãos pequenas começaram a brilhar. As orelhas. A ponta da cauda. Os olhos fechados brilhavam por dentro, como lanternas atrás de pálpebras finas.


O chão tremeu. Não foi o Diggersby.


A primeira raiz rompeu a terra a três metros de Calem. Grossa como um braço. Não parecia madeira. Parecia osso.


A segunda veio do outro lado. A terceira, quarta, quinta — um círculo a crescer à volta da arena, a romper o perímetro como dedos a sair do chão. Mais raízes. Mais grossas. Mais negras. Das paredes, das fendas entre pedras, de mais fundo, de onde nenhum Pokémon devia chegar.


O público gritou. 


Susto.


E Pânico — som que uma multidão faz quando percebe que o chão debaixo dos pés não é seguro. Bancas do festival caíram. Uma barraca de asas pintadas tombou, pó colorido a espalhar-se na poeira. Um homem tropeçou numa raiz que não estava ali há dois segundos. Uma criança chorou. Alguém gritou o nome de alguém.


O organizador soprou o apito uma, duas, três vezes sem parar. 


O veterano recolheu o Diggersby num movimento rápido. Não esperou para ver o que vinha a seguir. A garota da Academia já não estava lá — saíra, o Fletchling nos braços, o rosto branco como pó.


Uma raiz atravessou o palanque. A madeira partiu-se com um estalo seco. O organizador saltou para o lado, o apito ainda na boca, o som a sair em espasmos desafinados.


Depois vieram as plantas. 


Não arbustos normais. Não cresciam devagar, com tempo, com luz. Explodiam do chão — tufos de erva alta que subiam ao joelho num segundo, flores brancas que abriam e fechavam como bocas a respirar, trepadeiras que subiam pelas pernas das pessoas antes de elas conseguirem correr.


Uma mulher gritou quando uma trepadeira lhe enrolou o tornozelo. Caiu. Alguém ajudou-a. A trepadeira soltou. Não estava a atacar. Apenas a crescer. Sem direção. Sem intenção. A ocupar o espaço porque o espaço estava vazio.


No céu, as Vivillon acordaram. 


A primeira levantou voo. Depois uma segunda. Depois dez. Depois cem. Estes Vivillon não estavam calmas da migração, as que desviavam da fita amarela com precisão automática. Estavam em completo pânico, asas a bater sem ritmo, corpos a chocar uns contra os outros, escamas a cair como neve suja. O corredor de migração deixou de existir. As Vivillon voavam para todos os lados. O som das asas — antes uníssono, quase música — era agora cacofonia de pânico.


Uma Vivillon colidiu com a raiz mais alta, a que se erguia a três metros do chão como um braço esquelético. Caiu no musgo. Não se levantou.


As raízes pararam de crescer. Não de uma vez. Foram abrandando — primeiro as mais grossas; depois as médias, que hesitaram antes de parar; por fim as mais finas, que cresceram mais um palmo, dois, três, como se não quisessem desistir, e depois congelaram.


O silêncio instalou-se. O ar ficou denso, húmido, cheirando a terra molhada e seiva. A poeira da arena desaparecera, substituída pelo cheiro verde das plantas que não existiam há dez minutos.


Ninguém se mexeu.


Os poucos espectadores que não tinham fugido completamente estavam parados nas bordas da praça, agarrados a postes, a paredes, uns aos outros. Uma mulher chorava baixo, o rosto enterrado nas mãos. Um velho olhava para as raízes com a expressão vazia de quem não tem mais contas a fazer.


O organizador estava de joelhos, o apito pendurado no pescoço, a respiração ofegante. Não tentou soprar outra vez.


O público dispersou-se devagar. As pessoas soltavam-se das paredes e começavam a andar para casa. Uma família de três — pai, mãe, filha pequena — saiu pela Rua do Comércio sem olhar para trás. O pai tinha o braço à volta dos ombros da mulher. A filha olhava para as raízes enquanto andava, a boca aberta.


Um homem de bata branca aproximou-se do organizador. Ajudou-o a levantar. Apoiou-o pelo braço e levou-o para fora da arena, passo a passo. O organizador não disse nada. Não olhou para as raízes. Olhou para o chão enquanto andava.


Calem não se tinha mexido.


Étoile respirava nos seus braços. A luz rosa recolhera-se completamente. Não havia brilho, não havia auréola. Apenas o corpo pequeno a subir e descer, devagar, quente.


Tierno estava à entrada da tenda médica. O Budew nos braços, o caule partido imóvel. Shauna aproximou-se dele. Não disse nada. Apenas se sentou ao lado.


O velho da boina, o que contava as Vivillon, estava encostado às tábuas partidas da banca que já não existia. Não saíra. Olhava para a floresta. Os lábios continuavam a mover-se em silêncio.


Trevor estava na borda da praça. A Flabébé no ombro. O Holo Caster na mão, o ecrã ligado, a luz azul a iluminar-lhe o rosto. Olhou para as raízes. Para o musgo. Para as flores que não existiam há dez minutos.


O Holo Caster não registava nada. Nenhuma entrada na Pokédex correspondia ao que estava a ver. Trevor percorreu as categorias com o polegar — Planta, Inseto, Desconhecido — e em cada uma encontrou o mesmo: ausência. O mundo tinha produzido algo que o sistema não tinha palavra para nomear.


Havia uma expressão no rosto dele que Calem não lhe conhecia. A expressão de alguém que construiu a vida inteira sobre a certeza de que tudo o que existe pode ser registado, e que acaba de perceber que essa certeza era uma forma de fé, não de facto.


Guardou o Holo Caster no bolso. Lentamente. Sem o gesto brusco de antes. Como se guardar o aparelho fosse uma rendição. Ficou onde estava.


A loira de patins estava do outro lado da praça. A Skrelp flutuava ao seu lado, as glândulas vazias, o corpo a pulsar num púrpura fraco. Não saíra. Não cuidava da Skrelp. Apenas olhava para a floresta como se a estivesse a ver pela primeira vez.


Os olhos dela encontraram os de Calem do outro lado da praça, por um segundo. Depois foram para a floresta.


A praça de Santalune tinha mudado.


A fita amarela no chão — a que os moradores respeitavam desde sempre — fora arrancada em três sítios diferentes. Pedaços pendiam de arbustos, amarelo desbotado contra verde escuro.


Uma banca de chá de pétalas tombara de lado, o líquido escuro a escorrer para uma poça que as raízes rodeavam como se fosse sagrada.


A noite começou a cair sobre Santalune.


A floresta estava mais perto do que de manhã.



{ 2 Comentários... leia-os abaixo ou comente }

  1. OLHA O PAU QUEBRANDOO

    Oi, Welfie!
    Esse pessoal comando pokémon sem nem falar, outro nível.
    E nossa Serena realmente acabou com o plano do pessoal, e Calem, pare de babar um pouco aí, irmão.
    Gosto que o carinha do Diggersby realmente não escutou a Serena e foi pra cima dos 2, mas eu tava confiando no goat Tierno para ganhar no x1 final.
    Primeiro que eu não faço ideia do que era esse brilho na Clefairy, segundo, essas raízes no final também não faço ideia.
    Aqui você pegou desprevinido mesmo, não tenho nem teorias.
    Foi um ótimo final para esse torneio e espero pra ver o que você está cozinhando pra gente.
    É isso, valeu, meu nobra!

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    1. A CADEIRA! JOGA A CADEIRA!

      O pau teve que torrar nesse capítulo, confesso que não fiquei tão satisfeito, queria adicionar mais ação e mostrar o quão caotico um battle royale pode ser, infelizmente acho que não atingi esse nivel ainda, quem sabe na próxima. Teve comandos, mas não achei importante menciona-los para além do da Shauna.

      Amo a Serena e irei defender qualquer coisa que ela fizer.

      E os vencedores do torneio foram as raízes, a festa acabou, todos para casa. Sei que você um leitor inteligente, teve algumas pistas ao longo dos capítulos que algo de errado ia acontecer e agora, daqui, só para trás. Boa sorte pro grupo que ficou sem prémio agora e não vai ter onde dormir.

      Que comam brioche.

      Obrigado novamente pelo comentário, irmão. Até a próxima.

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