• Capítulo 6: Os Ares de Uma Nova Amizade

     



    Abriam-se seus olhos, devagar. Mas pouco via, tudo estava muito turvo, embaçado. Sentia estar em algo macio, mas o corpo não respondia o suficiente para lhe permitir entender melhor o por quê. Não conseguia fazer nada além de olhar para o que parecia estar “pra cima”. O que conseguia identificar era um borrão com cores esparramadas. Coisas como um rosa leve, um azul escuro, branco, verde, vermelho e mais algumas outras, todas sem muita identificação. Mas passando segundo a segundo o tempo ajuda àquele que tentava ver, e lhe esclarece a cena.


    O que antes identificara como rosa e azul eram as coisas mais notáveis ali. Eram pele e cabelos, respectivamente. Alguma distância acima de seu rosto estava a face de uma menina, que olhava para longe, pensativa. Do pouco que ele conseguia ver do pescoço para baixo ele sabia de onde saíra o branco e o vermelho; da sua jaqueta e da blusa sobre a qual esta estava. Quaisquer outras cores eram parte do ambiente de fundo. Visto a posição das coisas no seu campo de visão, havia apenas uma conclusão: ele estava deitado no colo da garota.


    Sentiu a face entrar em choque sem que soubesse se enrubescia ou se empalidecia. Neste momento a jovem vira seu rosto para o rapaz, como se sentisse o olhar deste. A garota, que ostentava caudas simétricas nos cabelos saindo de detrás das orelhas, sorri o suficiente para fazer com que todo o brilho do mundo estivesse concentrado na sua dentição, ou melhor, seria assim caso seus azuis olhos no momento semicerrados não retivessem uma cintilância própria.




    Ei! Acordou finalmente? Eu estava ficando preocupada! – disse ela. – Estava com medo de você não voltar a abrir os olhos. Você não parecia ter se machucado demais, então optei por não te levar pra um hospital e te deitar em algum lugar próximo. Fiquei me questionando se foi a melhor decisão, mas parece que funcionou. De algum jeito...


    O rapaz sentiu em sua cabeça um “fusível” queimar. Algo não estava certo ali. O que ela disse que tinha feito? Ou melhor, como ela carregou ele até o banco e o deitou? Alguém poderia explicar pra ele? Porque certamente a confusão estava presente em sua cabeça.


    Me desculpe... Mas quem é você, pra começo de conversa? – perguntou o rapaz. – E o que aconteceu? Se não me engano eu estava perto da fonte...


    A outra ri um pouco, meio fraco, como se tentasse disfarçar algo.


    Bem, meu nome é Clis, Clis Kristallys. – começa. – Acho que a segunda questão será melhor respondida num local mais adequado. Que tal ali? – apontando com a cabeça para um café próximo. – Não deve ser nenhum problema, certo, erh, senhor... ?


    Certamente ser chamado de senhor não foi muito agradável ao outro, que fez uma pequena carranca por um breve segundo antes de responder.


    Pode me chamar de Xavier apenas. – resignado. – E não me importo, inclusive, adoraria tomar um café com leite enquanto ouço seu relato. – completa com um sorriso singelo.


    ...


    Uma charmosa e pequena fachada chamava olhos para o pequeno estabelecimento. Ostentando em suas paredes e afins uma cor verde profunda e reminiscentes dos bons e velhos tempos, o local também trazia consigo uma aparência rústica, com portas e janelas trazendo grandes vidraças. Para fechar o conjunto, uma cobertura de lona ao alto, acima do nível da porta, protegia duas mesas que ficavam em frente a loja, assim como duas plantas numa poda em globo que se encontravam em vasos, um de cada lado da portaria.


    Numa das mesas, Xavier e Clis se encontravam sentados um ao lado do outro, de costas às paredes. Um garçom servia a estes algumas coisas; à Xavier, um caneco com um líquido bege com uma espiral branca no meio; à Clis, uma xícara com um conteúdo âmbar. Ao meio da mesa um prato com alguns biscoitos variados para acompanhar.


    ... E depois de me desacordar você achou mais viável me esperar acordar durante quase uma hora ao invés de chamar uma ambulância? – falava Xavier para a garota enquanto o garçom se retirava.


    Bem, sim. – respondeu ela. – Mas não foi bem porque era a melhor idéia. Eu não sei como funciona o sistema médico daqui. E se eu tivesse que pagar pelos procedimentos? Pensa no quanto eu poderia ter que gastar numa dessas! Eu não tenho muita grana comigo! – se justifica.


    O rapaz meneia a cabeça, e então dá uma balançada leve, dizendo:


    Touché. Você tem um ponto. Por sinal, quantos anos você tem mesmo? – franzi um pouco a expressão.


    Treze anos, quase quatorze.


    Não é meio perigoso você estar em uma jornada sem ninguém te acompanhando? – questiona, encarando-a no olho enquanto leva seu café com leite a boca.


    A garota solta uma gargalhada gostosa.


    E você? Tem quantos mesmo? Dezesseis? Acho que posso te perguntar a mesma coisa. – brincalhona, enquanto bebe seu chá.


    O rapaz pausa um pouco, dá de ombros, e então segue bebendo sua bebida quente, a garota faz o mesmo.


    É engraçado como é diferente a forma como se bebe chá por aqui. Não é como se eu não tivesse tomado chá desse tipo antes, mas tomar num local assim é diferente. – comenta Clis, encarando sua xícara.


    Xavier ri de leve.


    Em Johto o chá é feito de outra forma, né? Pelo que sei a tradição é bem diferente, em alguns casos tem até toda uma ritualística. – comenta. – Por aqui também se tem algo assim mesmo que distinto do que existe lá, embora Kalos não tenha tanta herança nisso quanto Galar, até onde sei. Mas e aí? O que está achando de sua experiência pela região?


    A garota apoiou o rosto sobre uma de suas palmas, e desviou o olhar para cima, pensativa, enquanto com a mão restante seguia segurando sua xícara.


    Não sei te responder, ainda vi pouca coisa, sabe? Não é como se eu estivesse aqui há muito tempo. – respondeu após alguns segundos de contemplação. – Mas não é ruim, ao menos. Ainda não me senti desconfortável andando por aqui. Teve alguma dificuldade com a conversação, até por causa da diferença de línguas, mas eu já tinha me preparado antes de vir por algum tempo, ao menos pra me fazer entender, agora que já estou aqui a uns poucos meses já consegui resolver isso.


    O rapaz enquanto isso pegava um biscoito por vez, ouvindo a menina falar mais sobre si.


    A gente aprende a se preparar depois de ter experimentado certas dificuldades ao menos uma vez, sabe? Após eu ter terminado minha jornada por Johto eu fui rodar as Ilhas Laranja e então o Arquipélago Decolore. Nas Ilhas Laranja eu tive problemas em entender os vários sotaques de cada uma das ilhas que visitei, e em Decolore eu nem ao menos entendia a língua direito quando fui pra lá! Então quando decidi vir pra Kalos passei algum tempo estudando sobre a região e a língua, pra pelo menos não ficar perdida.


    O rapaz então sente como se uma corrente elétrica passasse em sua cabeça, como se estivesse conectando algo que estava desligado.


    Isso que você disse agora me fez lembrar de algo. – ele interrompe-a – Você mencionou que é treinadora quando viemos pro café, não é? Se importaria de treinar comigo? Eu comecei minha jornada recentemente, e não sei de muita coisa. – completou o mais velho.


    Claro! Por que não? – enquanto gargalha sem parar, colocando a xícara num pires que estava na mesa ( viera em conjunto com a outra peça ) para que não acontecesse algo com a primeira.


    Ei, por que está rindo? – pergunta Xavier, segurando um misto de gargalhada e bufo.


    Porque você, que é bem mais velho do que eu, ainda é um iniciante e está me pedindo ajuda com uma coisa dessas. – com um sorriso pequeno.


    Não sou tão mais velho assim. – retrucou, com uma pequena careta. – Só nasci uns três anos antes de você, que agora quase me chamou de tiozão por tabela. Poxa, até onde sei não é tão raro pessoas começarem na minha idade suas jornadas.


    Mas também não é comum, você tem que admitir. – rebate ela.


    O garoto suspira, não podia negar o argumento.


    Mas bem, posso chamar o garçom pra fechar a conta? – ele questiona. – Tenho que encontrar com uma pessoa antes de podermos treinar. Combinei de encontrar ela mais ou menos nesse horário, se bobear deve até estar arrancando os cabelos nesse momento. – ri.


    A garota acena que sim com a cabeça em resposta a questão do rapaz, rindo idem.


    François! – grita Xavier. – Trás a conta!


    ...


    O rapaz e a garota algum tempo depois podiam ser vistos andando rumo a uma enorme construção de mármore branco e travertino já conhecida do primeiro, a prefeitura com dupla aptidão, pois também funcionava como escola. Andando devagar, o mais velho virava sua cabeça devagar de um lado a outra, procurando por algo. Em algum tempo ele fixa sua visão num banco, escondido na parte lateral da construção. Uma mulher de loiros cabelos ali estava, com uma expressão neutra no rosto, embora desse pra notar uma certa ansiedade ou mesmo falta de paciência pelo movimento repetitivo de levantar e abaixar de calcanhar que ela fazia com uma das pernas.


    O rapaz aproxima com certo cuidado, mas sem ser excessivamente cauteloso.


    Ei, Nova! – chama ele ao se aproximar o suficiente para não ter que gritar muito alto.


    Ela então se vira em sua direção, e o fita, para em seguida passar seu olhar para a figura que o acompanhava. Sua face antes cheia de neutralidade apresenta então uma carranca. Nova se vira novamente ao rapaz e diz:


    Eu te dou UM minuto para me explicar o que está acontecendo. – com um sorriso estranho, e com veias imaginárias pulsando em sua testa.


    O rapaz gargalha seco.


    Ocorreram umas coisas, acabei saindo mais cedo e indo perambular, daí encontrei Clis e depois de uma série de coisas viemos te procurar. – tentou sintetizar o máximo possível.


    A moça sorri com certo escárnio ao ouvir a resposta dele.


    O que você andou fazendo pra conseguir que uma garota nova assim te seguisse? Chamando até pelo nome em tão pouco tempo?


    O rapaz se desconcerta.

    É, bem, como explicar... – o rapaz, meio sem jeito, procura um jeito de explicar.


    Eu atropelei ele. – a garota de cabelos azuis que até o momento não se pronunciara diz.


    Silêncio, ou assim deveria ser, caso não estivessem no meio da cidade, com som de outras pessoas ecoando junto ao gorjear de alguns pássaros anormais.


    Você disse... Atropelado? – perguntou a loira, quebrando o impasse estranho da conversa.


    A outra afirma com um gesto de cabeça.


    Como que você conseguiu essa proeza? – pergunta Nova, com uma cara num misto de surpresa e descrença.


    Ele estava andando meio distraído, e eu estava andando de patins no momento, ou tentando, ou só fora de controle mesmo. – tenta explicar mais nova, fazendo estranhas correções no processo. – Meio que eu não estava mais conseguindo parar, ele estava no caminho, eu gritei pedindo pra ele sair da frente e ele não ouviu. O resultado foi ele caindo no chão e ficando uma hora desacordado. Foi difícil levar ele pra um banco. Quando ele finalmente acordou nós ficamos conversando sobre o que ocorreu, e uma coisa leva a outra. Meio que eu sou treinadora, sabe? Ele me pediu pra treinar um pouco com ele, mas antes disse que tinha que procurar alguém e que essa pessoa estaria muito nervosa com o atraso dele.


    Nova cora um pouco com o final da explicação e vira o rosto, embaraçada.


    Então foi isso que aconteceu? – diz. – Mas por quê você não chamou uma ambulânci- ah, esquece, dinheiro, sei como é... – termina antes mesmo de começar, com certo desgosto no rosto transparecendo quanto ao assunto monetário. Parecia ter se lembrado de algo ruim.


    Mas bem, Nova. – diz Xavier, agora menos sufocado graças a ajuda bem vinda de Clis. – Eu vim te avisar quanto a isso do treino e te perguntar se quer vir também. Além disso, sabe algum lugar legal pra isso?


    A referida sorri singelamente, como se fosse outra pessoa neste momento. Saber que o recente amigo pensara nela durante o processo já trazia certo calor no peito. Talvez já fizesse um tempo que ela tivera contato tão intenso com alguém tal qual com ele.


    Acho que sei sim de um lugar que pode ser ideal... E por quê não iria? Pode ser interessante treinar com vocês, já faz algum tempo que não faço algo assim.



    Frente a uma casa de estilo integrado ao da cidade, param três pessoas, um rapaz e duas moças. Uma das garotas, de cabelos azulados, diz:


    Foi legal te ajudar a treinar, Xavier, foi engraçado. Você disse que se tudo der certo tu vai desafiar o ginásio ainda essa semana, né? Se assim você conseguir, passa lá no Centro Pokémon e me chama pra ir assistir!


    Chamo sim. – responde o rapaz do grupo. – Então a gente separa aqui, né? Até mais, Clis.


    Foi bom te conhecer, garota, vamos nos encontrar um dia desses pra eu falar mal dele! – diz a outra moça, ou melhor, mulher, que estava com eles enquanto aponta para o amigo ao lado.


    Clis sorri, dá um tchau sem palavras, apenas com um aceno, e vai embora. Assim, ficam apenas duas pessoas naquele lugar.


    Então, Nova, como foi passar o dia com dois pirralhos? – pergunta o jovem a mulher.


    Até que não foi ruim, sabe. Poderia repetir a experiência mais vezes. – respondeu. – Só não pense que eu vou te deixar escapar... – resmunga baixinho.


    O que disse? – pergunta o rapaz, não tendo compreendido o que fora dito ao fim.


    Nada, nada. Vamos entrando então, já está razoavelmente tarde e eu tô com fome. Você disse ontem a noite que sabia cozinhar né? Faz algo bacana aí pra gente. – dizia a mulher enquanto adentrava pela porta da frente.


    Xavier então a segue, respondendo-a e gesticulando para tentar explicar alguma coisa vez ou outra. A porta se fecha, mas o silêncio não chega as ruas, afinal, ambos ainda eram bastante audíveis mesmo estando no interior da construção. Nada além de mais um dia terminando na jornada conhecida como vida...






  • Capítulo 5: O Lento Rolar De Um Dia

     


           Um chiado suave indicava que a ducha estava ligada e que, por consequência, alguém se banhava. Em contrapartida havia o som leve de manteiga derretendo e pães tostando, tal como um cheirinho de café da manhã se impunham pela cozinha, e penetravam o resto da casa pequena. Aquela singela movimentação mostrava que, naquele momento, o local borbulhava com vida simples e cotidiana.


           — Ei! Vai demorar muito no banho? O café está pronto! – uma voz feminina e melodiosa grita da cozinha.


           — Já terminei! – agora uma masculina, mas jovem, replica no mesmo tom. – Só falta vestir minhas roupas!


           Na cozinha um barulho metálico leve é audível, logo seguido de uma fala inesperada.


           — Você não sentiu falta delas ontem a noite. – da cozinha.


           A porta do banheiro se abre e um rapaz esguio de porte médio sai de dentro dele com seu corpo quase desnudo, salvo pela toalha que lhe cobria da cintura para baixo. O olhar no rosto do jovem indicava um pouco de desconforto em face da frase que lhe foi dita.


           — Não fale isso alto desse jeito. Se alguém da rua ouvir nem quero pensar no que interpretarão… – diz para a outra. – Mas bem, as roupas estão no quarto?


           Vinda da cozinha para o corredor que ligava aos outros cômodos da casa ( incluindo o banheiro ) uma figura glamorosa e loiríssima aparece com uma frigideira em mãos. A figura, que pertencia a uma mulher, para e fita o rapaz que estava parado frente a porta do banheiro. De baixo a cima, em rápidos movimentos de olhos.


           — Não sei se devo tomar cuidado, porque se ficar dando sopa assim… – ela fala num tom baixinho, quase murmurante.


           — O que disse? – pergunta o rapaz incrédulo com o que supunha ter ouvido.


           A mulher balança a cabeça de leve.


           — Nada, nada… – replica para ele. – As roupas estão na cama do quarto no qual você dormiu esta noite. Não se esqueça de colocar aquele conjunto de pijamas que te emprestei na máquina, por favor. – termina.


           O rapaz acena com a cabeça.


           — Obrigado Nova. – ele agradece, com um olhar sincero.


           A mulher para no caminho por um segundo, como se não esperasse aquilo vindo dele. Ela se vira.


           — Não há de quê, Xavier. – ela sorri singelamente e segue então com jubilo para a cozinha.


           O jovem então vai para o cômodo indicado se trocar.


           


           Xavier e Nova tomavam café à mesa de cozinha. O cardápio era um clássico da região de Unova; torradas, ovos e bacon acompanhados por um copo de suco. Não havia pressa ali, ambos comiam devagar, sem falar nada um ao outro, cada qual no seu próprio mundo.


           Após algum tempo ambos terminam de se alimentar. Nova se prepara para levantar-se da cadeira, mas é impedida pelo rapaz que se ergue primeiro e recolhe os talheres e pratos, tal qual os copos utilizados na ocasião e segue rumo a cozinha para lavá-los.


           Nova prossegue sentada, pensando em algo, e não percebe quando o jovem volta para lá.


           — Tem algum plano pra hoje? – ele pergunta.


           A mulher, retirada de seus devaneios, replica:


           — Não, nenhum planejamento. Por que?


           O rapaz dá uma risada meio seca, sem graça, daquelas que servem pra disfarçar algum desconforto.


           — Gostaria que você me acompanhasse até o órgão local para me registrar como treinador. Meio que eu não sou muito seguro com essas coisas. – fala numa voz tímida, baixa.


           A outra dá uma gargalhada gostosa ao ouvir isso.


           — Eu vou contigo! Mas quem diria que era isso! É uma surpresa, de fato… – se põe a falar. – Não vou questionar sua insegurança, porque todos temos alguma em relação a algo, mas é gratificante a confiança que você deposita em mim, que te conhece há tão pouco tempo.


           O rapaz suaviza o semblante e dá um sorriso pequeno.


           — Eu não sei explicar o motivo de confiar em você, eu só sinto que devo, sabe? Algo em ti me passa essa sensação de segurança… – ele diz entre pequenas pausas. – Eu me considero uma pessoa com certa racionalidade, mas algumas coisas não são para serem compreendidas com o racional, e acho que esse é o caso aqui, mesmo que a forma que nos conhecemos não tenha sido lá muito amigável.


           Nova se sentiu bastante leve ao ouvir aquilo, embora não soubesse o porquê. Ela sorria de orelha a orelha, de forma que seu charme se acentuou de forma notável. Existia certa graça meiga ali, que contrapunha a Nova mais agitada que Xavier conhecera no dia anterior. Aquele momento parecia para ambos os presentes algo desgarrado do presente, uma pequena eternidade que não entendiam.


           — E então? Vamos? – perguntou a mais velha, reintegrando o instante ao seu devido lugar.


           — Claro!


           E ambos se retiram do cômodo, e, em sequência, da casa.


           


           Uma construção de estilo neoclássico se impunha frente a pequena praça central da cidade. Suas gloriosas paredes de travertino, formas simétricas e linhas sóbrias. Os detalhes em mármore contrastavam com o “bege” do travertino e davam um toque a mais para o prédio. Grandes janelas com frontão e o portal central composto por duas colunas paralelas uma a outra, conectadas no alto por uma arquitrave que, sobre si, tinha duas esculturas de pokébolas, uma em cada ponta, davam luminosidade e personalidade ao edifício. Ao fundo do portal um par de grandes portas em verde, fechando o pacote.


           Xavier e Nova logo se veem entrando no local, ignorando a placa humilde e quase invisível na qual estava escrita “ Escola de Treinadores / Prefeitura Municipal ”. Então eles se veem num mui bonito salão de entrada ao estilo “ Luís XVI ”, com suas paredes brancas detalhadas em dourado reminiscente de um estilo anterior. Móveis de linhas perpendiculares, ângulos retos, e superfícies planas trabalhados em mogno com detalhes cinzelados em bronze eram parte do que enquadrava o local nesse estilo único. Tais objetos, constituídos em específico neste cenário por poltronas, namoradeiras, balcões e mesas bem distribuídos pelo ambiente. Algumas poucas pessoas estavam espalhadas pelo local de forma esparsa.


           O jovem e a mulher caminham a um dos balcões no qual um computador está situado, sendo operado por uma funcionária do local que mantinha uma expressão séria na sua face.


           — Com licença, poderia me ajudar? – fala o rapaz para a atendente.


           — Pois não. O que precisa? – diz ela continuando a mexer na máquina, apenas movendo os olhos para fitar o rapaz por um curto tempo.


           Ambos os visitantes à frente do balcão franzem o cenho para a atitude da atendente, mas logo suavizam a expressão. Xavier prossegue.


           — Gostaria de me registrar como treinador. Também gostaria de um registro de participante da liga caso possível.


           — Pois bem, senhor, é só preencher estes dois formulários, me entregar e aguardar ser chamado. Dentro de trinta minutos começa a sessão vespertina de testes do dia de hoje. – diz enquanto enquanto coloca na mesa uns papéis que tirou de uma gaveta do balcão. Ela confirma rapidamente do que se trata e se volta para o computador. – Teve sorte de chegar quase no limite de tempo… Para meu azar… – resmunga as últimas palavras.


           Xavier se põe a preencher as folhas ali mesmo, enquanto Nova passava o tempo admirando ( ou apenas boiando fingindo admirar ) o salão peculiar. Não tarda e os papéis já estão terminados. O aspirante a treinador os entrega a atendente, que resmungando registra no sistema o sujeito e então entrega um papel com um número “1” para o rapaz.


           O mais novo e sua acompanhante se retiram então para uma das poltronas, para aguardar o tempo dos exames. Não tarda e uma mulher com calças e botas em estilo militar e um tank top preto adentra o local e fala com a recepcionista, que entrega umas folhas a esta. A recém-chegada se dirige a uma porta marcada com um número “6” e adentra por ela em outro espaço.


           — Aspirantes a treinadores, por favor sigam para a sala 6. Não esqueçam de levar os seus números de chegada...– fala a atendente dez minutos depois num microfone. A mensagem é amplificada por caixas de som espalhadas estrategicamente pelo local. – Ou melhor, seu número né, só tem um… – sussurra, mas isso saí como um chiado distorcido que ninguém compreende.


           O rapaz com o papel número “1” vai rumo a sala 6, deixando pra trás Nova que avisou que iria sair e só voltaria em umas quatro horas. Ao passar pela porta, vê algumas mesas dispostas em cinco fileiras de seis cadeiras cada. Frente a esses móveis está a moça de estilo militar.


           — Você é o número “1” né? Seu lugar é esse junto a porta. – diz ela, indicando o assento do rapaz. – Só tem você aqui hoje. Sorte sua. Normalmente não há treinadores se registrando no final de temporada, sabe? É um período interessante pra fazer um registro tranquilo. No começo da temporada tem que pedir com antecedência de até uma semana dependendo do ano. Seu teste escrito está em cima da mesa, tem duas horas pra você terminar ele e trinta minutos pra preencher o gabarito. – explica. – Normalmente eu não posso fazer isso, mas assim que você terminar já pode pedir o gabarito e ir preenchendo. Vamos fazer isso ser mais simples pra mim e pra você e terminar isso rápido. – na maior cara de pau.


           O jovem acena com a cabeça em confirmação, senta-se em seu lugar e se põe a fazer a prova. Era o começo de um longo dia…


           


           Não tardou muito mais do que uma hora para Xavier terminar o teste escrito e preencher o gabarito. Pouco após entregá-lo a avaliadora, esta guardou o teste em um envólucro de plástico e o guardou em uma bolsa, para que fosse enviado para a filial mais próxima da liga o mais rápido possível. 


           Ambos agora estavam seguindo para os fundos do prédio, onde havia um espaço aberto razoavelmente grande, com demarcações no chão que formavam um enorme retângulo de cinquenta metros quadrados.


           — Bem, agora teremos um teste prático. O teste prático é composto de uma batalha com duração de dez minutos, na qual eu estou encarregada de dar notas ao seu trabalho junto a seu pokémon. No formulário você registrou três pokémons, use de preferência aquele com o qual você tem mais costume. Trocas são permitidas. A medida que a batalha for seguindo, eu irei, ao meu julgo, trocar o pokémon em campo para um de um “nível” que eu considere mais adequado para lutar contra você.


           E então ela vai até o outro lado do campo e se posiciona. Xavier faz semelhante, e se posiciona na ponta oposta a da moça, de modo que a visse frente a frente mesmo com tantos metros os separando. O rapaz retira então uma esfera do bolso, esta preta, branca e amarela, pronto para botar em campo um pokémon a qualquer momento.


           — Preparado? – fala a mulher com uma voz alta, mas apenas o suficiente para ser audível pro rapaz. Ele confirma com um polegar positivo. – Então começaremos a partir de … Agora! – e aponta uma esfera rumo ao campo, e aperta um botão no meio dela, e uma luz vai ao chão, condensando uma criatura ali. Em seguida aperta um botão num relógio que usava em seu pulso.


           O rapaz não se faz de rogado e libera seu companheiro laranja Iri em campo, enquanto observava rapidamente o seu oponente. A criatura do outro lado tinha de pé sessenta centímetros. Possuia um corpo cinzento com protusões cor de rosa nas juntas entre seus membros e seu tronco, tal qual uma similar a veias de mesma cor na cabeça. A criatura mantinha uma expressão quase de escárnio em sua face, e carregava uma espessa viga de madeira com um de seus curtos braços. Xavier franzi o cenho ao ver a criatura.


           O que era aquele ser? Ele conhecia, mas não tinha uma memória muito clara…


           — Não vai ser o primeiro a se movimentar? Muito bem. Timburr, use Pound! – a mulher ordena a criatura, que corre com suas pernas curtas rumo ao oponente.


           Timburr! Um pokémon do tipo lutador! O rapaz lembrava de vagamente ter ouvido um colega falar sobre eles. Criaturas estranhas que gostam de ajudar em projetos de construção, ou assim o colega descrevia.


           — Desvie Iri! – o rapaz clama enquanto pensava sobre o oponente.


           O lagarto se desvia do adversário pouco antes deste conseguir lhe atacar, tendo a viga do oponente passando a poucos centímetros de sua cabeça. Certamente não seria fácil uma luta contra o pokémon cinzento. O lagarto recua após o desvio e olha para seu treinador, em busca de instruções.


           — Iri, use Scratch! – o rapaz ordena.


           E o ser segue rumo ao oponente com suas patas levantadas, prontas pra arranhar o outro. O Timburr nem espera a ordem de sua treinadora, e por conta própria, num jogo de pés, desvia do golpe da criatura laranja sem dificuldades. A avaliadora sorri de canto, e não deixa as coisas pararem por aí.


           — Timburr, Work Up! – ela manda.


           O pequeno cinzento contrai os músculos de seu pequeno corpo, enrijecendo-o, e então sua figura parece brilhar brevemente, como se alguma mudança importante tivesse ocorrido ali. Xavier não sabia o que havia ocorrido ali, mas sentia que certamente aquela situação não era boa para ele. O rapaz mostra alguma preocupação em sua face, mas decide seguir com o ato anterior.


           — Scratch de novo, Iri! Dessa vez acertaremos!


           E novamente o lagarto vai contra o adversário. Dessa vez, no entanto, o bípede cinza não conseguiu desviar, Iri havia aprendido com a vez anterior, e conseguiu aplicar o golpe. No entanto, para surpresa do réptil e de seu dono, o Timburr parecia não ter sentido o ataque. Seguia rindo, debochado.


           — Pound. – foi a única coisa que a mulher falou.


           Seguindo a ordem, o ser cinza balançou sua viga e acertou o lagarto com força o suficiente para que este fosse jogado uns dois ou três metros para o lado, dando de cara no chão. O Charmander sentiu o golpe. Ao se levantar, ele apresentou sinais de estar tonto, mas pouco depois já estava pronto para seguir o embate.


           Xavier não gostava de como as coisas estavam até ali. Tinha de fazer algo, e continuar usando Scratch não adiantaria, afinal, ele havia visto como o golpe tinha efeito mínimo ou nulo sobre seu oponente.


           — Low Kick, Timburr. – a avaliadora segue a luta, interrompendo o raciocínio do mais jovem.


           — Escape Iri! Pule daí! – Xavier ordena em reflexo, julgando o modo como o golpe funciona pelo nome.


           A decisão de mandar o Charmander pular havia sido correta. Um chute vindo por baixo, rasteiro, era o que fora ordenado ao oponente. Iri pula para trás enquanto o golpe era aplicado, e assim desvia deste, saindo de seu alcance. Xavier enquanto isso segue pensando em sua cabeça meios de conseguir vencer o adversário junto de Iri. Se arranhar não estava dando resultados, que tal tentar usar de fogo? Mas um Flare Blitz não deveria ser usado sem cautela… Teria Iri algum outro golpe que usasse de fogo? Xavier então se lembra que na floresta o seu lagarto laranja havia usado de algo similar a brasas para queimar um pokémon. O jovem sabia que golpe era esse, ele sabia que seu nome era…


           — Ember, Iri! – exclama o rapaz.


           — Se movimente, Timburr!


           E o pequeno companheiro de Xavier abre sua boca em direção ao oponente, liberando coisas que pareciam fagulhas ou brasas alaranjadas que voam em direção ao outro em velocidade considerável. O cinzento tenta escapar do local em que estava, mas ainda é pego pelas brasas, e sofre com isso. O local em que fora atingido logo apresenta diversas pequenas queimaduras, num tom meio roxo.


           Xavier gostara disso. Viu algo fazer efeito, e isso lhe trouxe um pequeno sorriso.


           — Iri, repita isso! – não tardou e ordenou ao seu pokémon.


           A mulher, no entanto, não deu ordem alguma ao bípede cinza. Ela pegou a esfera da criatura e apontou para este, e por fim apertou o botão central para chamá-lo de volta. Logo em seguida ela retira outra esfera, esta metade branca e metade azul, com duas protuberâncias vermelhas. Tal qual ela fez com a outra pokébola no começo da luta a mulher faz com essa, liberando então outro Pokémon em campo.


           Uma criatura com um corpo esguio, de felino, com pelos lilás e cauda bifurcada. Grandes orelhas, olhos num estranho tom púrpura, uma joia vermelha em sua testa e dois tufos grandes de pelos paralelos um ao outro nas bochechas do animal completam suas características físicas.


           Mas que criatura é essa?!


           É o que pensa o rapaz ao ver o ser que aparecia em campo. Ele não sabia o que esperar do novo oponente. O que fazer?


           — Esse é um pokémon que me acompanha desde um tempo atrás. Fofo não? É uma Espeon, Katharina. – diz a mulher num ritmo rápido e ininterrupto, cortando os pensamentos do rapaz. Era fácil perceber que ela vira o desconhecimento do rapaz. – Katharina, use Confusion!


           E então a criatura, um Espeon, olha rumo ao Charmander e com seus olhos emitindo um um brilho leve porém nítido faz com que um fenômeno estranho ocorra. Sem que nada nem ninguém chegue a tocar em Iri o mesmo é jogado para longe, para a borda dos limites demarcados, parando exatamente ao lado de seu treinador. Xavier enquanto isso não teve nem como reagir, tudo fora rápido demais para ele. 


           O rapaz olha para o companheiro que estava no chão, sem se mover, apenas tremulando por vezes. Xavier simplesmente retorna Iri para sua bola, não havia mais o que ser feito. Do outro lado da arena um pequeno som começa a soar. A avaliadora levanta um pouco o braço e olha para o relógio em seu pulso. Já era dado o tempo. Ela aperta um botão para fazer o alarme parar.


           — Seu teste está terminado. – a mulher, que agora se aproximava do rapaz, diz. – Normalmente eu diria que dentro de uma semana os resultados estariam emitidos, mas já venha verificar a partir de amanhã ou depois de amanhã, não deve demorar muito considerando que apenas você fez o teste hoje, e que nas últimas semanas quase não se vê gente nesse lugar. – por algum motivo ela gostava de enfatizar a falta de pessoas.


           Xavier faz que sim com a cabeça, em entendimento, troca cordialidades, e então se retira do campo, e, seguinte a isso, do prédio.


           


           Todas as ruas da cidade em algum momento uniam seus ladrilhos à praça central, onde a partir de certo ponto eles mudavam de cor para formar um grande padrão, algo como um sol dentro de um círculo. No exato centro do padrão, uma fonte, cujo chafariz era uma estátua com formato de Rosélia, um pokémon de grama, com formato humanoide, com rosas no lugar do que seriam suas mãos. Por causa dessas características interessantes, o local se tornou um ponto de encontro comum entre as pessoas que passavam pelo município. Com isso, a praça sempre é encontrada com muitos visitantes, estejam eles parados, andando, ou mesmo patinando ali perto.


           Um rapaz vestido em azul e branco, mas que usava um boné vermelho contrastante mas estranhamente adequado, andava rumo ao marco meio distraído, sem motivos.


           Xavier terminara os testes com uma ou duas horas de antecedência, e com isso agora estava nas ruas esperando o tempo passar. Não estava com vontade de voltar pra casa de Nova, afinal, a mesma também não estaria lá, ela já havia avisado que sairia para fazer umas coisas, então era sem sentido para o rapaz retornar a casa. Além disso ele combinara de a encontrar na frente da “ Escola/Prefeitura ” , e não gostaria que quaisquer imprevistos ocorressem por alguma questão de comunicação.


           A passos médios e meio frouxos, segue rumo a fonte. Talvez ali naquele lugar relativamente bonito ( embora cheio de gente ) ele conseguisse ter alguma ideia brilhante para gastar seu tempo.


           — EI MENINO! SAI DA FRENTE! – uma voz ressoa num grito mui alto e estridente.


           Xavier não teve tempo de reagir. Ele logo sentiu algo lhe atingindo fortemente na lateral esquerda de seu corpo, ainda mais forte do que a cabeçada que recebera de seu Zigzagoon no dia anterior. O rapaz então se viu indo em direção ao chão, e impactou com sua cabeça nos ladrilhos da bonita praça. Tudo escureceu para o jovem.

     


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