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NOVA POSTAGEM !

Capítulo Um

L’Air de Santalune

        Calem sentiu o ar diferente antes de a estrada terminar. 

Na borda da floresta, respirou fundo. O ar tinha a densidade de coisa viva, carregado do cheiro de terra apodrecida e secreções ácidas que ele não sabia identificar, mas que faziam os pelos da nuca se eriçarem.

Eles haviam contornado a trilha norte pelo caminho de calcário que os mapas marcavam como "acesso recomendado para treinadores iniciantes". Ele sabia o que isso significava: a outra opção envolvia matilhas territoriais e Pokémon que o grupo não tinha condição de enfrentar. Ele lera o guia de rota três vezes; a conclusão, fria e pragmática, era sempre a mesma: não agora. Pas maintenant

 Étoile, sua Clefairy, estava fora da Pokébola, as orelhas pontiagudas girando freneticamente em direção ao silêncio pesado entre as árvores de tronco negro. Ela não emitia som; apenas mantinha a mão pequena cravada na barra da calça de Calem, puxando-o para longe das sombras.


    Calem viu Santalune ao fundo e sentiu um alívio cinzento — uma massa de pedra e concreto que abafava os ruídos orgânicos da mata com o som metálico da civilização.

Ele teve a sensação de que Santalune não era uma vila de boas-vindas. Era uma cidade de passagem — dava para ver pelas marcas no calcário, milhares de botas a desgastar o mesmo chão.


A arquitetura neoclássica dos edifícios de pedra clara mantinha uma dignidade que o fluxo de treinadores teimava em desgastar. 

Havia manchas de pó de pedra e marcas de fuligem nas paredes baixas, vestígios de ataques Pokémon usados em treinos improvisados nos becos.

Santalune apareceu no final do caminho com a indiferença das cidades que existem há tempo suficiente para não precisarem de impressionar ninguém.

— É maior do que pensei — disse Tierno.

A frase caiu no grupo. Calem percebeu que todos deviam estar a pensar o mesmo — ninguém quisera ser o primeiro a dizer.

— Dezesseis mil habitantes no centro urbano — informou Trevor, consultando o Holo Caster. — O fluxo é constante. A Liga mantém aqui um ginásio de primeira linha, o que garante movimento o ano inteiro.

A arquitetura do ginásio era classica, funcional, uma massa de concreto e vidro que não pedia desculpa por ser o centro do poder local. No exterior, uma placa de metal escovado exibia o símbolo de Inseto da Liga e o nome da Líder — Viola. Abaixo, letras miúdas detalhavam protocolos de segurança e requisitos de admissão.

Havia fila.

Calem posicionou-se atrás de um rapaz que tentava acalmar um Fletchling nervoso. 

O registo para o desafio era um processo administrativo seco, separado do desafio em si. 

A Liga não queria apenas saber se o treinador tinha um Pokémon; queria o ID digital do Holo Caster, o registo de vacinação das criaturas e a prova de que o Treinador não infringia qualquer norma de trânsito entre rotas. Só então, emitiam-se a data e o horário.

O funcionário bateu o carimbo sem tirar os olhos do cronômetro no canto da tela. Ele empurrou o papel de volta antes mesmo de Calem terminar de guardar o ID.

Cinco dias de espera.

O funcionário chamou o próximo antes de Calem sequer organizar os documentos.

Calem fez as contas. Cinco dias de espera. As reservas que tinha chegavam confortavelmente até o terceiro dia. Depois, uma margem. 

A margem era do tamanho exato de uma refeição por dia menos — ou, se quisesse poupar mais, dormir no quarto de oito camas em vez do de quatro. Ele já tinha escolhido o de oito. Restava a comida. Ele sabia gerenciar margem. O que não sabia era que Santalune parecia desenhada para moer treinadores como ele — os albergues caros, os repelentes que não funcionavam, as taxas do Centro Pokémon. 

Ele não se ressentiu. Era lógico. Apenas arquivou a informação e começou a recalcular.

— Tem um Centro Pokémon? — perguntou Shauna. O Litleo estava nos braços dela desde a saída da rota, o pelo quente contra o casaco, os olhos a varrer a cidade nova com a curiosidade cautelosa dos felinos jovens.


— Tem. Rua principal.


— Então é para lá que vamos primeiro. Allez.


i.

O Centro Pokémon de Santalune seguia a arquitetura funcional e austera da instituição: o icónico telhado carmim, a entrada larga de vidro temperado e o emblema da Enfermagem Joy — cores institucionais que serviam de farol em toda a região de Kalos. Por dentro, o espaço era estéril. 

O balcão de atendimento central era ladeado por baías de diagnóstico alinhadas contra a parede; na área de espera, cadeiras de polímero rígido acomodavam corpos exaustos enquanto uma televisão, num canto alto, transmitia os resultados da Liga com um volume invasivo.

Trevor foi obrigado a levar as mãos aos ouvidos por alguns breves segundos para se habituar ao ruído.  

Calem achou o ambiente frio, impessoal. A eficácia tinha um preço, e ali estava ele exposto.

Havia também uma fila de trinta e dois treinadores. Tierno contou-os em voz alta até ao décimo quinto, parando quando a ansiedade começou a transparecer no ritmo da respiração. Trevor contou o resto em silêncio, arquivando o número como um dado hostil.

O Budew de Tierno balançava com o dono, as pétalas fechadas a vibrar num ritmo que Calem associou a nervosismo. Trevor, ao lado, mantinha a Flabébé protegida pela palma da mão; a criatura parecia drenada, as cores de sua flor empalidecidas pela falta de luz direta e pelo excesso de ozônio das máquinas de tratamento.

— Quanto tempo para a triagem? — perguntou Calem à garota à sua frente. Ela vigiava dois Pokémon enclausurados em cápsulas de transporte, com o olhar fixo no teto.

— Depende. Se for apenas estabilização metabólica, vinte minutos. Se houver trauma tecidular ou ferimentos de combate, pode demorar horas. Estou aqui há quarenta minutos e a fila mal se moveu.

Calem trocou um olhar com Trevor. O cálculo era mútuo.

— Duas horas, no mínimo — sentenciou Trevor. — Talvez mais. Há um festival na cidade este fim de semana, além do torneio de abertura. O fluxo é anormal.

— Festival de quê? — perguntou Tierno, com a curiosidade de quem ainda não fora totalmente drenado pelos dias de rota.

— Migração de Vivillon. — Trevor inclinou o ecrã do Holo Caster. — Santalune situa-se num corredor de correntes térmicas que as Vivillon utilizam sazonalmente. A cidade converteu o fenómeno biológico num ativo turístico: mercados, corridas de patins e aquele torneio de praça que vimos anunciado em Aquacorde. 


A Liga aproveita a massa de treinadores para alimentar o ginásio e o comércio local em simultâneo.

Shauna ouvia em silêncio, apertando o Litleo contra o peito. O pequeno felino soltou um ganido baixo, as orelhas murchas pela agitação do local.

— Se há festival — começou ela, com uma lucidez sombria — o alojamento social do Centro está esgotado.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

— Provavelmente — admitiu Trevor.

— Não "provavelmente". — Ela apontou para o balcão. Um cartão plastificado em escarlate exibia um aviso que, embora ilegível àquela distância, possuía a geometria universal da rejeição.

Quando a fila avançou, Calem conseguiu finalmente ler a sentença: ALOJAMENTO ESGOTADO — CAPACIDADE MÁXIMA — CONSULTAR REDE DE HOSPEDARIAS PARCEIRAS.

Ao lado, uma lista plastificada enumerava seis estabelecimentos. Calem percorreu os nomes da esquerda para a direita, do custo mais baixo ao mais proibitivo. Releu-os, esperando ter-se enganado na primeira análise. O valor mais acessível ainda ultrapassava o orçamento que estipulara para a pernoita.

— Podemos dividir a conta — sugeriu Shauna. Ela estava tão próxima que Calem sentia o calor do Litleo; para ela, o espaço pessoal era uma sugestão, para ele, era uma fronteira.

— Eu sei fazer contas, Shauna.

— Eu sei que sabe. Só estou dizendo que não precisa fazê-las sozinho.

Calem não respondeu de imediato.

Não era ingratidão, mas a necessidade de processar o hiato entre o precisar e o aceitar. Para os outros, era uma distinção semântica; para ele, era a diferença entre manter a autonomia ou tornar-se um projeto de caridade.

Tierno, alheio à tensão silenciosa, fotografava o aviso com o Holo Caster.

— Vou mandar isto aos meus pais e dizer que estamos bem instalados.

— Ainda não estamos — corrigiu Trevor, seco.

— Mas vamos estar. — Tierno disparou a mensagem com a confiança cega de quem não contempla a derrota. — O otimismo antecipado não é mentira, Trevor. É escolher a versão das coisas que ainda pode acontecer.

ii.


O quarto tinha oito camas.

Não era uma surpresa — Calem reservara o alojamento mais barato disponível. Em Santalune, isso traduzia-se num espaço com ventilação suficiente para quatro pessoas, uma janela que dava para um corredor interior sombrio e um banheiro partilhado com o quarto adjacente, cujo encanamento comunicava cada utilização com uma transparência acústica indesejada.


Tierno testou o colchão com as palmas das mãos antes de se sentar, como se a densidade da espuma fosse uma informação vital.

— Já dormi em piores — comentou.

— Quando? — Shauna desfez a mochila com o método rigoroso de quem tem um sistema para tudo — Calem já conhecia aquele jeito.

— Aquacorde. O hostel perto da ponte.

— Aquilo era uma pensão ilegal. — Ela retirou um saco de pano com produtos de higiene, posicionando-o na prateleira com a precisão de quem marca território de forma civilizada. — E você dormiu no chão por opção; achou que era mais firme para as costas.

— E era.

— Não era. Estava apenas a racionalizar o fato de ter chegado tarde e já não haver camas.

Tierno ponderou por um segundo. — Ambas as coisas podem ser verdade.

Trevor não acompanhava a conversa. Estava junto à janela, inclinando o Holo Caster para captar o sinal que atravessava o vidro baço com dificuldade. A sua Flabébé  estava próxima à janela procurando pela luz solar. 

— O sinal aqui é fraco — informou Trevor. — Vou precisar de aceder ao router do edifício para carregar as notas da  cidade e da próxima rota.

— Pede na recepção — sugeriu Shauna.

— A garota disse que o Wi-Fi é exclusivo para estadias de longa duração.

— Mas você é hóspede.

— De cinco dias. Aqui, longa duração começa aos quinze.

Shauna fechou o fecho da mochila com um estalido definitivo. — Então usa os dados móveis.

— Os dados custam dinheiro, Shauna.

— Tudo custa dinheiro, Trevor. — disse sem impaciência. Para ela, era óbvio.— É por isso que vamos ao torneio.

Calem sentou-se na cama do canto; as costas contra a parede, os olhos dominando a única entrada. Era um reflexo antigo: o corpo ocupando o espaço mais difícil de ser invadido.

Étoile não relaxava. Ela imitava o ritmo da respiração de Calem, as orelhas movendo-se na direção de cada estalo do encanamento.

O pequeno Pokémon não demonstrava medo, mas sim um instinto de vigia — o mesmo inventário de ameaças que Calem executava. Talvez tivesse aprendido com ele, ou talvez fosse apenas coincidência.

— Cinco dias dão para treinar — disse Calem, sem se virar. — A Academia tem uma área aberta ao público durante as manhãs. O Trevor já verificou os horários.

— Confirmo — disse Trevor. — Das sete às nove. Espécimes juvenis, supervisão mínima e terreno variado. Ideal para habituação.

— Então temos um plano. — Tierno bateu as palmas, satisfeito. — Torneio para o financiamento, Academia de manhã para o treino, ginásio quando a fila avançar. Simples.

Calem não mencionou que o plano dependia inteiramente de vencer o torneio. Não disse que, sem esse prémio, o treino teria um custo proibitivo e a margem de erro seria exatamente uma refeição suprimida por dia. Tierno sabia fazer as contas; simplesmente optava por não as verbalizar, considerando a preocupação um desperdício de energia metabólica.

Não era ingenuidade, era uma filosofia de sobrevivência. Calem não a partilhava, mas respeitava a consistência com que o amigo a aplicava.

— Simples — concordou Calem.

iii.


A cidade a pé era diferente da cidade à chegada.

À chegada havia a lógica da rota — o caminho mais direto, os pontos de referência confirmados contra o mapa, a avaliação de terreno que era hábito de viagem. 

Calem reparou que, a pé e sem destino, via coisas que não vira à chegada. As ruas largas levavam todos os treinadores aos mesmos sítios — lojas, Centro Pokémon. Mas as ruas estreitas, de calcário mais escuro, não tinham placas para forasteiros. Tinham vasos de plantas nas soleiras, como se dissessem "aqui mora alguém". Jamais teria reparado nelas se não estivesse andando devagar.

Tierno parou de repente. Conhecia aquele gesto — ele tinha reparado em alguma coisa.

— Esperem.

Calem conhecia os "esperem" do Tierno. Havia o de "encontrei algo divertido", o de "acho que me lembro do caminho" e — mais raro — o de "isto é útil a sério". Este era o terceiro.

Ele atravessou para a rua paralela com passo decidido, sem verificar se os outros seguiam, porque sabia que seguiam. Parou em frente a uma montra fechada com o horário impresso na porta em letra miúda.

— Padaria. Abre às seis. — Apontou para o preço no cartaz interior. — Metade do que custa na rua principal.

Trevor olhou para o cartaz. Olhou para Tierno. — Como é que sabia que estava aqui?

— Vi o reflexo do sinal na janela do Centro Pokémon quando estava consultando o mapa.

— Você estava olhando para os reflexos das janelas enquanto eu consultava o mapa.

— Estou sempre olhando  para várias coisas em simultâneo. — Tierno encolheu os ombros. — Você trata dos dados. Eu trato do resto.

Shauna olhou para o horário na porta. — É como a barraca do Senhor Arnaud. Tierno apontou para ela. — Exatamente.

Calem não disse nada, mas o canto da boca moveu-se um milímetro.

Trevor olhou para os três, confuso. Calem percebeu que ele não estava a acompanhar. — Quem é o Senhor Arnaud?

— Um senhor de Vaniville — disse Shauna. — Vendia pão de centeio numa Van ao fundo da Rua das Acácias todas as manhãs às seis e meia. Mais barato do que a padaria principal e melhor.


— Muito melhor — confirmou Tierno.

— Ninguém sabia que existia excepto os moradores da rua — continuou Shauna. — Nós descobrimos porque o Tierno viu o reflexo da Van na janela do quarto do Calem quando estava a tentar perceber de onde vinha o cheiro.

Trevor processou isto. — Seguiu o cheiro de pão às seis da manhã?

— Seguimos o cheiro de pão às seis da manhã durante três verões seguidos — disse Tierno, sem qualquer sinal de que isto precisasse de justificação. — O Senhor Arnaud só fechou quando se reformou. Foi uma perda real para a comunidade.

— Uma perda real — repetiu Shauna, com solenidade genuína.

— Amanhã às seis, então— disse Calem 

Não era pergunta.

Continuaram pela rua estreita sem pressa, os Pokémon a acompanhar o ritmo dos donos — o Budew de Tierno oscilando levemente com cada passo, o Litleo de Shauna a farejar as soleiras com a metodologia de quem elabora um mapa próprio da cidade.


A travessa desembocava numa praça menor que a central, sem arena nem vitrina de prémios — apenas um chafariz de pedra com água que saía mais devagar do que devia e um banco de ferro onde dois escaladores descansavam com o equipamento aos pés. 

Calem reconheceu o tipo: botas específicas com sola de borracha especial, sacos de magnésio pendurados no cinto, o tipo de calos nas palmas que vêm de anos de rocha. Os rochedos de arenito da floresta eram famosos entre escaladores — Trevor tinha mencionado isso algures entre Aquacorde e a rota, no tom de quem cita um fato sem prever que vai ser relevante.

Um dos escaladores estava tratando de um corte na mão com a indiferença de quem já tratou muitos cortes em muitas mãos.

O outro olhava para a floresta.

A floresta era visível daqui — não a entrada oficial com a sinalética da Liga, mas a borda norte, onde os edifícios mais baixos deixavam uma linha de visão direta para as primeiras árvores. Era uma floresta de aspecto denso mas não fechado, o tipo de lugar que convida em vez de dissuadir, com luz a entrar entre os troncos em ângulos que a tornavam diferente a cada hora do dia.


Calem seguiu o olhar do escalador e viu.

A linha das árvores era densa. Mas havia um ponto na borda onde a densidade era diferente. Mais espessa. Mais verde — um verde que Calem nunca vira antes, como se tivesse crescido depressa demais.

— O que é aquilo? — disse ele, sem pensar.

Trevor seguiu o olhar. Demorou dois segundos. — Onde exatamente?


— Canto norte. Onde a rua dos escaladores termina no muro.


Trevor ajustou o ecrã. Mais dois segundos. — Difícil de dizer daqui. Pode ser variação de espécies ao longo da borda. Algumas plantas de crescimento rápido colonizam as margens quando há perturbação de solo — construção, pisoteio excessivo.

— Parece novo.

— Pode ser. — Trevor guardou o Holo Caster com o cuidado habitual. — Ou pode ser que não tenhamos reparado antes.

O escalador que olhava para a floresta ficou em silêncio.

Calem ficou mais um momento antes de virar. 

No caminho de volta passou pela base do muro que separava a cidade da borda norte da floresta — calcário velho, com líquen acastanhado nas juntas. Uma fenda rasgava o calcário antigo, expondo o miolo do muro. Entre os blocos esmagados, uma raiz grossa e úmida latejava sob a luz, empurrando a cidade para fora do caminho.

Calem viu a raiz antes de saber que estava olhando para ela. Depois de saber, não conseguiu não olhar outra vez.


— Calem. — Tierno estava à esquina, a gesticular para a praça com o sentido de urgência geral que aplicava a situações que iam de genuinamente importantes a "encontrei uma banca de comida interessante". — O torneio começa daqui a pouco.

iv.

A arena improvisada era um retângulo de terra batida e giz, espremido entre a estátua do fundador e as mesa de calçada dos cafés. 

Os limites eram barris de madeira pesados, cheios de areia para não serem movidos por ataques de vento. Não havia ecrãs gigantes aqui; apenas um quadro de cortiça com os nomes afixados por ordem de chegada.

Calem olhou para o prémio na vitrina de vidro baço: um frasco de Hyper Poção de grau industrial, uma Pedra de Fogo bruta — ainda com vestígios de rocha vulcânica — e o envelope de dinheiro. O valor no papel era a diferença entre continuar a dormir num colchão com molas ou num banco de jardim.

— Vai se inscrever ou está estudando a composição do giz? — Tierno deu-lhe um encontrão lateral.

Ele não parava quieto — o seu peso mudava de um pé para o outro, seguindo uma pulsação que a confusão da praça parecia alimentar. 

Tierno funcionava assim: absorvia a energia do sítio onde estava e devolvia-a amplificada, sem filtro, não percebendo os rostos exaustos ao redor. Ele socava o ar levemente, os pés desenhando passos de dança invisíveis na terra batida, alheio ao silêncio pesado da fila.

Parecia ter sempre um ritmo, um certo gingar que Calem jamais seria capaz de replicar.

— O chão é irregular no canto esquerdo — observou Calem, a voz baixa, focada. — Quem lutar ali vai perder o equilíbrio se o Pokémon for pesado.

— Anotado — disse Tierno, sem anotar nada. — Posso inscrever-me agora?

Trevor, ao lado, consultava o Holo Caster com o brilho do ecrã ajustado para o sol forte. Tinha a concentração de alguém a trabalhar num problema que só ele via, o que era o estado habitual de Trevor e que os outros tinham aprendido a não interromper a não ser com informação nova.

— Vinte e três inscritos. Doze são daqui. Vêem os uniformes cinzentos? Alunos da Academia de Treinadores de Santalune. Eles treinam nesta praça todos os fins-de-semana. Devem conhecer até as correntes de ar entre os prédios.


— O dinheiro paga as contas, mas a vitória paga o respeito — disse Tierno, embora os seus olhos estivessem fixos na Pedra de Fogo.

— O respeito é um bom incentivo — corrigiu Trevor. — Mas o que interessa é o que o dinheiro compra. Dá para ficarmos mais uns dias em Santalune sem apertar o orçamento. Dá para treinar. Dá para-


— Dá para comermos qualquer coisa que não seja pão com manteiga — interrompeu Shauna, chegando com quatro copos de suco de berries equilibrados numa bandeja de papelão. — Inscrevi-vos a todos.

— A mim também? — Trevor arqueou a sobrancelha. — A Flabebé não precisa de um torneio de praça — começou Trevor, olhando para a Flabebé que descansava sobre o seu ombro.

— Ela não, mas você precisa de largar esses gráficos antes que os seus olhos fiquem quadrados — retorquiu Shauna, estendendo um copo a Calem.

Calem aceitou o copo. 

O suco era ácido e deixava a língua seca, um sabor característico de solo calcário. 

A multidão à volta era um murmúrio constante — pais com crianças ao colo, treinadores a aquecer os Pokémon, vendedores ambulantes a apregoar pipocas e algodão-doce. 
 
Uma garota de patins passou a raspar os travões no chão, deixando um rasto de borracha queimada e cheiro de velocidade. Não pediu desculpa ao desviar-se de Tierno, disparatou-o inclusive — aquela era a rua dela, e os treinadores eram obstáculos móveis que apareciam de três em três semanas e não aprendiam a andar na faixa certa.

Tierno olhou para o rasto de borracha com admiração genuína. — Ela fez aquilo de propósito?

— Toda a gente aqui faz as coisas de propósito — disse Calem.

Calem pensou nisso. Santalune tinha algo que Vaniville não tinha: intenção. Vaniville existia porque as pessoas precisavam de morar algures. Santalune tinha decidido o que queria ser. E tratava os que não percebiam isso como ruído de fundo.

O organizador — um homem com o rosto marcado pelo sol e um apito de latão pendurado ao pescoço por um cordão gasto — subiu para um palanque de madeira que rangeu sob o seu peso com o som de coisa que tinha rangido muitas vezes antes e tinha decidido continuar de pé por teimosia. Não precisou de pedir silêncio. A praça reconheceu o movimento e fechou-se sobre si mesma, o murmúrio a baixar de frequência como maré a recuar.

O homem olhou para o quadro, olhou para a arena, olhou para o céu onde os primeiros Vivillon do corredor térmico desapareciam sobre os telhados.

O apito foi curto e militar.

Santalune estava pronta para cobrar seu tributo, e a praça respondeu com o impacto seco das palmas e os primeiros gritos de guerra.


Continua...

 

Sabe aquele gosto de querer mais depois que cada capítulo termina? Os Especiais são exatamente esse "algo a mais" que você nem sabia que precisava. Enquanto a trama principal segue seu curso, é aqui que as engrenagens nos bastidores ganham vida: segredos antigos vêm à tona, personagens que cruzam a história em poucas cenas ganham profundidade e reviravoltas inesperadas mostram que até mesmo um encontro aparentemente comum pode carregar um peso enorme para o que está por vir.

 

Imagine entrar nos bastidores de uma história que você já ama, mas sem compromisso — só pelo prazer de explorar. Aqui você não precisa se preocupar em acompanhar cronologias ou teorias complexas; é lugar de descobrir as trilhas sonoras que embalam cada momento emocionante de Kalos  ou se encantar com as fanarts que os próprios leitores criaram e até mergulhar um pouco no que eu penso sobre os jogos que inspiram tudo isso.

É uma extensão do carinho que tenho por esse universo e um convite para você fazer parte dele para além das palavras. Se você gosta de sentir uma história com todos os sentidos — ouvindo, vendo e trocando ideias —, os Extras vão te fazer sentir em casa.

 

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Para se tornar um parceiro do nosso blog, Neo Pokémon Kalos, é preciso que o seu blog siga uma lista de requisitos super simples. Caso, infelizmente, o seu blog não possua um dos requisitos não hesite em comentar ainda assim, podemos pensar no seu caso a parte e procurar uma maneira que possa favorecer ambos os lados.

A página de Personagens é o seu mapa para conhecer cada alma que dá vida à saga de Neo Kalos — dos heróis que você aprendeu a admirar aos antagonistas que você ama odiar. Aqui, você pode explorar os detalhes que talvez tenham passado despercebido, revisitar a trajetória dos seus favoritos ou simplesmente se aprofundar naquele personagem secundário que roubou seu coração sem permissão. 

Agora que o palco está montado e os nomes de cada ato foram sussurrados — Vie, Mort e Équilibre —, resta apenas um movimento a ser feito: o seu. Desça os olhos por estas linhas como quem atravessa um portal, porque são nos capítulos que a promessa se faz carne, onde a jornada deixa de ser minha para se tornar sua. A primeira página já o aguarda; tudo o que veio antes era apenas a porta. Atreva-se a cruzar.

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SAGA 1 — VIE

Antes do colapso, houve o começo. Calem e seus amigos partem de Vaniville com a leveza de quem ainda não sabe o que a jornada cobra. Há risos, descobertas, os primeiros laços — e, nas bordas da estrada, marcas que ninguém ainda aprendeu a ler. Vie é o livro da vida que ainda se acredita inteira. Uma história amar, sobre aprender antes de entender, sobre a hesitação que protege e isola, e sobre a sombra que cresce enquanto Kalos celebra o que ainda não perdeu.

BOOK 01 — FLORESTA DE SANTALUNE

                Capítulo I — L'Air de Santalune
            
    Capítulo II 
                Capítulo III
                Capítulo IV
                Capítulo V
                Capítulo VI
                Capítulo VII

    

No coração de Kalos, onde as luzes de Lumiose brilham sobre ruínas antigas e as florestas guardam segredos que a Liga prefere ignorar, uma geração de treinadores se prepara para partir. Eles acreditam na jornada que lhes foi prometida — oito insígnias, um campeão a derrotar, o caminho traçado por aqueles que vieram antes. Mas há camadas em Kalos que os manuais não ensinam.

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De onde parou