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Capítulo 08

 


Capítulo 08

A Peça Que Faltava



A terra fugia debaixo dos pés de Calem.


Não parava de tropeçar, deixando completamente de ser uma corrida limpa. O corpo queixava-se de cada ramo que o açoitava no rosto e em cada raiz que tentava agarrar-lhe os tornozelos. 

Capítulo 07

Capítulo 07

Círculo 


— Onde? — A voz saiu plana. — E como?


— Porta lateral do ginásio — Trevor voltou a repetir. — De noite, antes das sete. A senhora estava com o prefeito.


Trevor conhecia aquele intervalo. 


A Viola não desviou os olhos nem encheu o silêncio. 


Recalculou. 


Quando falou, devolveu a pergunta no lugar de qualquer resposta.

— O teu ângulo é melhor do que o meu. Isso é raro — deixou escapar uma risinho curto, sem alegria nenhuma dentro. — E o que você acha que viu?


— Uma Líder a ser pressionada. A concordar com uma coisa que não queria.


— Você tirou isso de uma porta e de duas silhuetas às sete da noite?


— Tiro da distância entre a senhora e ele. Meio passo além do normal. E da ordem de saída: você saiu primeiro, sem despedida — Trevor falava no tom de sempre, o de inventário. — Reunião boa não termina assim.


A Viola olhou para ele um tempo comprido. 


Pegou a prancheta de mola, leu o que ela própria tinha escrito ali de manhã e largou-a de novo. Um gesto sem função. Trevor registou-o justamente por isso e viu Calem registá-lo também: era a primeira coisa que ela fazia desde que eles tinham chegado que não servia para nada.


Foi Trevor quem olhou para o quadro de cortiça na parede da tenda. 


Calem seguiu-lhe o olhar e demorou a achar, porque não havia nada para achar e o nada para Trevor era o assunto. Entre duas fotografias presas com percevejo, um retângulo mais claro que o resto da cortiça. Quatro furos limpos nos cantos.


— O que ficava ali? — perguntou Trevor.


A Viola não precisou de olhar.


— Uma fotografia.


— A senhora tirou-a.


— No dia da irrupção à noite. Antes das oito.


A conta fez-se sozinha na cabeça do Trevor, e o frio dela chegou com atraso, do jeito das contas grandes: às sete, a mulher está numa porta lateral com o prefeito; às oito, a fotografia já não está mais na parede.


A Viola hesitou e olhou para o retângulo vazio. Os dedos tamborilaram na correia da máquina.


— Devia ter destruído há vinte e cinco anos e nunca tive coragem — A voz saiu mais devagar do que o resto. — Tirei-a com a máquina do meu pai. Tinha sete anos. A floresta andava esquisita nessa altura também — foi o ano em que uma mulher chamada Juliette desapareceu.


Os olhos de ambos se abriram, reconhecendo o nome.


— Anos depois, já adolescente, a minha irmã e eu tentamos perceber o que lhe tinha acontecido. Fomos travadas. Confiscaram quase tudo o que eu tinha fotografado nessa altura. — Uma pausa. — Mas ninguém foi à procura de uma foto de menina de sete anos, tirada muito antes de eu sequer saber o que estava a fotografar. Nunca souberam que ela existia. Guardei-a. Pendurei-a na minha própria parede, no meio de mil fotos de batalha, porque ninguém procura o que está à vista.


— E o Marchais sabia que faltava uma — disse Trevor, juntando as peças em voz alta antes de as ter todas.


— Descobriu no dia em que veio cá pela primeira vez, com o dossiê das fotos que tinham confiscado. — Os dedos apertaram a correia. — Fechámos um acordo nesse dia: eu ficava no meu canto e ninguém fazia perguntas sobre as brocas na floresta funda. Em troca, a prefeitura financiava as defesas da cidade. E o ginásio. — Encolheu os ombros, um gesto que não combinava com o resto da voz. — Pareceu-me razoável. Achei que ele estava a ser corrupto e incompetente, a tentar tapar um problema ecológico com força bruta antes que espantasse o turismo e os fundos da Liga. Os meus números batiam certo dentro dessa mentira. Não perguntei mais.


— E no dia da irrupção? — perguntou Trevor.


— Ele veio ter comigo outra vez, foi aí que você nos apanhou. Mais nervoso do que da primeira vez — a floresta está acelerando, e ele sabe. Queria a peça que faltava. — A Viola olhou para o retângulo vazio. — Cheguei aqui depois de falar com ele e tirei a fotografia da parede antes de tirar o casaco. Vinte e cinco anos escondida à vista de toda a gente, e eu entrei em pânico numa noite.


Foi à mesa, abriu a gaveta de baixo — não a do mapa — e tirou um envelope pequeno, os cantos moles de anos a ser aberto e fechado. Tirou a fotografia com dois dedos, segurando-a pela borda, como quem segura algo que ainda pode morder.


— O fato de ele estar com pressa outra vez é o que me assusta.  


Estendeu-a. Não ao Calem — ao Trevor.


Era escura, o grão grosso das máquinas antigas, tirada com pouca luz e provavelmente com pressa. Entre os troncos, ao fundo, um vulto alto e estreito, vertical, sem ramos que se distinguissem do resto — podia ser um tronco morto. Podia ser outra coisa. O desfoque não deixava saber onde acabava a floresta e onde começava a forma.


— Isto é uma árvore — disse Calem, olhando por cima do ombro do Trevor.


— Também achei isso, aos sete anos. — A Viola não pediu a foto de volta. — Passei doze anos a decidir que sim, era uma árvore. E outros treze a não conseguir voltar a decidir isso com a mesma certeza.


Trevor virou a fotografia contra a luz, os olhos a percorrer os troncos ao fundo, tentando procurar por alguma coisa, uma curva de tronco, uma clareira, qualquer coisa que se pudesse comparar depois a um lugar real.


— Sabe onde foi tirada? — perguntou Calem.


— Não sei dizer em metros.


Foi à mesa, abriu uma gaveta, tirou uma folha A4 dobrada em quatro, um mapa, desenhado à mão com caneta preta, os postes de vigilância marcados a vermelho, a orla noroeste assinalada a azul. Usou o dedo para marcar um ponto antes de o dobrar outra vez e o estender.  


Usou o dedo para marcar um ponto. 


— Mas sei dizer em direção. Ali. — O dedo não saiu do mapa enquanto falava. Só depois dobrou-o outra vez e o estendeu.


A Viola tocou a borda da fotografia com dois dedos, detendo por um instante — e a voz baixou.


— Se ele descobrir que eu andei a guardar isto por tanto tempo e nunca disse nada a ninguém não sobra ginásio nenhum para eu defender. — A voz dela endureceu, não de raiva; de alguém a dizer em voz alta uma conta que já tinha feito sozinha várias vezes. — Não é só o emprego. É a Juliette outra vez. Vinte e cinco anos depois, e ainda seria eu quem escondeu.


Ninguém disse nada durante um momento comprido o suficiente para deixar de ser silêncio confortável.


— Vocês vão. Eu fico — Antecipou a pergunta antes que alguém a fizesse. — Se eu desaparecer da cidade na mesma noite em que vocês entram na floresta, é a primeira coisa que ele vai somar. Uma Líder de Ginásio fora do lugar dela é notícia. Dois garotos perdidos na mata é acidente.


 Nós vamos — disse Calem. — mas não precisamos das suas anotações, já temos o mapa.


— Os guardas passam na orla às dez e meia da noite. Entrem depois das onze; a ronda seguinte é só à uma e meia, e até lá a linha fica vazia. — Fez uma pausa curta. — E desliguem os Holo Casters antes de cruzarem o perímetro.


Trevor franziu a testa.


— Eles conseguem rastrear?


— Não sei até onde conseguem. Também não quero descobrir. Se algum dispositivo continuar a emitir sinal quando vocês estiverem lá dentro, assumam que alguém pode estar vendo exatamente onde estão.


Os dois amigos se entreolharam. 


— Não estou pedindo que sejam heróis — disse Viola, e a voz não mudou de temperatura. — Estou limpando a minha tenda. O que fizerem com o lixo que vos dou é convosco.


Calem consentiu com um sorriso.


— Nós vamos.


Viola assentiu, uma vez, e não disse mais nada, mas quando eles se viraram para sair, ela ainda estava olhando para o quadro de cortiça, para o retângulo mais claro onde a fotografia devia estar.


E Trevor ouviu-a murmurar, para ninguém:


— Se eu estiver errada, nunca me perdoo.


***


 

Saíram depois das dez, um de cada vez, com trinta segundos de intervalo que ninguém cronometrou a não ser o Trevor. 


A Shauna e o Tierno tinham ouvido o plano à tarde, no quarto, com o mapa da Viola aberto em cima da cama — o Shauna a fazer perguntas a mais, a Tierno nenhuma. 


Fez uma piada sobre o mapa parecer desenhado por uma criança, e riu-se dele sozinho, um segundo depois de ninguém mais rir. 


Trevor registou o atraso sem comentar.


O terceiro degrau ficou por pisar quatro vezes. Na cozinha havia luz, uma tira amarela por baixo da porta, e a luz não se mexeu quando passaram. Se a Madame Élise os ouviu, deixou-os ir.


— Holos desligados — disse Shauna, a voz mal acima de um sussurro. 


Já tinha guardado o aparelho no bolso interior do casaco, a mão a apertar o tecido por cima dele, como se o pudesse sentir a emitir sinal.


Entraram.


A floresta engoliu-os em três passos. 


A luz da lua desapareceu como se cortada por uma lâmina. O que restou foi uma penumbra densa, composta por sombras sobrepostas, que os olhos demoravam a decifrar. As árvores erguiam-se de ambos os lados, os troncos tão próximos que, em certos trechos, era preciso desviar-se para passar. Ramos baixos roçavam-lhes os ombros, as folhas húmidas a deixarem rastos de água nos casacos.


Trevor não se lembrava de a floresta estar assim tão densa comparada da última vez que vieram dela.


O chão era uma camada espessa de folhas vivas e musgo, que afundava sob os pés como uma esponja que guardava cada passo.


 Calem ia na frente, Trevor logo atrás contando absolutamente tudo, passos, marcas, o intervalo entre uma árvore e a seguinte, o método de sempre, o único em que confiava. A floresta desfez-lhe a métrica em menos de um minuto: o musgo engolia os calcanhares antes de o pé assentar, cada avanço custava um esforço diferente do anterior, e a conta partia-se sempre nos mesmos vinte e poucos, como se o chão se recusasse a ficar quieto tempo suficiente para ser medido.


Tentou outra vez. 


Partiu-se outra vez, no mesmo sítio.


Cada árvore tinha uma temperatura diferente, uma textura diferente. Umas eram rugosas, secas, com a casca a descamar sob a pressão. Outras, lisas, cobertas por uma camada de musgo que escorregava como pele molhada e as que pareciam ser mais velhas, as maiores estavam mornas.


— A temperatura está subindo — murmurou, parando por um instante. Os dedos ainda pousados no tronco de uma árvore de casca escura, as rugas da madeira a formarem padrões que pareciam desenhados. — Não é o ar. É o chão. A terra está ficando mais quente.


Shauna arqueou a sobrancelha e agachou-se, enfiando a mão na camada de folhas mortas, até tocar o solo. Os dedos afundaram-se na terra fofa, húmida.


— Está morna. — A voz saiu-lhe mais baixa. — Como a raiz da loja.


Calem não respondeu. 


 Étoile, no seu ombro, acabara de acender.


Novamente, uma luz intensa, mais viva, que se derramou do corpo da Clefairy como água a transbordar de um copo cheio. O rosado tornou-se mais quente, mais profundo, e projetou-se para a frente, numa direção precisa, teimosa, de corpo inteiro.


O rosto de Calem, iluminado por ela, ficou pálido.


— Ela nunca brilhou assim — disse ele, e a voz desceu meio tom. — Nem no torneio, nem na batalha contra Viola.


A luz da Étoile varreu o chão à frente deles, e Trevor viu o que o escuro escondia: as marcas de pneus sulcando o barro, as pegadas, os rastos de máquinas pesadas que se arrastavam para o interior da floresta. 


Cada marca mais do que nítida, como se tivesse sido deixada naquele mesmo instante.


A Flabébé, no ombro de Trevor, abriu as pétalas novamente. 


Foi uma abertura brusca, quase violenta, com um estalido mínimo de seiva no caule — um som de coisa verde a partir-se sem chegar a partir. As pétalas abriram-se em toda a extensão, o centro pálido exposto, e inclinaram-se para o mesmo lado que a luz da Étoile.


— Ela também está apontando — disse Trevor nervoso, os dedos a tocarem a pétala mais próxima. Queimava de leve, e no ponto onde a pétala nascia do caule formava-se uma gota de néctar, densa, que lhe escorreu quente pela pele. — As duas estão apontando para o mesmo sítio.


Shauna levantou-se, a mão ainda suja da terra morna. O Litleo, no colo, tinha as orelhas erguidas, o focinho virado para a frente.


— Não é só a terra — disse ela, e limpou a mão à calça duas vezes, a segunda mais devagar. — Está tudo assim.

A luz da Étoile criava um túnel de claridade rosada que cortava o escuro. 


A Flabébé mantinha as pétalas abertas, viradas para o mesmo lado. 


Cada passo que davam, se afundavam no musgo. 


Trevor tinha desistido de contar.


— Não há insetos — murmurou Tierno, a voz abafada. — Nem grilos. Nem nada.


Ninguém respondeu, mas todos repararam no que ele dissera.


Seguiram.


Foi a mão que o avisou primeiro. Um tronco com uma curvatura que a palma jurava já ter tocado. O mesmo musgo pendurado à mesma altura. Ignorou. Passos depois, outra árvore que os dedos reconheceram antes dos olhos — e as seguintes, todas ao mesmo intervalo umas das outras, plantadas como fileiras.


— Isto é estranho — disse ele, parando. — As árvores estão alinhadas. Como se tivessem sido plantadas.


Calem parou também.


— Talvez tenham sido. — A voz dele era seca, prática. 


— Mas isto não é cidade — insistiu Trevor. — Isto é fundo. Muito fundo. Ninguém planta árvores aqui.


Shauna agachou-se. Os dedos tocaram o solo, e ela sentiu a mesma terra morna que antes, porém a terra estava compacta, como se tivesse sido pisada muitas vezes. Não por máquinas — por pés.


— Há pegadas — disse ela, a voz mais baixa. — Muitas. Não são nossas.


Calem baixou-se para olhar. As pegadas eram antigas, as bordas desgastadas pelo musgo que voltara a crescer por cima. Mas o padrão era o mesmo: fileiras, alinhadas, em direção à frente.


— Isto é um caminho — disse Calem. — Foi feito de propósito. Há muito tempo.


Trevor sentiu a ansiedade a apertar-lhe o peito. O caminho levava para a frente. A Flabébé apontava para a frente. A Étoile apontava para a frente. 


Tudo parecia certo, mas o desconforto continuava.

Continuaram.

Trevor voltou a tentar contar porque precisava de um número, de qualquer coisa que fosse dele. A conta morreu outra vez no terreno. E foi o corpo, não o número, que o avisou: o joelho dobrou-se sozinho para um desnível que já conhecia, a mão estendeu-se para um apoio que já lá tinha estado.


O tronco caído.

 O mesmo. 

A barba de musgo pendurada da casca rachada, o cheiro adocicado da madeira aberta.


— Esta árvore — disse ele, parando. — Já lhe toquei. Há bocado.


Calem aproximou-se. 

Olhou para a curvatura, para a posição, para a barba de musgo.


— Você está certo — disse, a voz controlada, mas os olhos dele, Trevor viu, estavam tão indignados quanto os dele.


— Então andamos em círculo? — disse Tierno, a voz subindo um tom. — A luz da Étoile levou-nos de volta ao mesmo sítio?


Todos desceram novamente para tocar o chão. As pegadas antigas continuavam, mas as pegadas recentes, as deles, estavam lá também. 


Um círculo perfeito.


— A Étoile não está guiando-nos — disse Calem, levantando-se. — Ela está apontando para o mesmo ponto. E o ponto... parece estar se movendo. 

— Ou nós é que não estamos a andar em linha reta — disse Trevor, e deixou a frase por acabar, porque acabá-la era admitir o resto.


Tierno, que estivera em silêncio, falou:


— E o som? — A voz dele, invulgarmente séria. — A respiração. Ouvimo-la desde que entramos, mas não muda de volume. Não se aproxima. Não se afasta. Está sempre à mesma distância.


O silêncio que se seguiu foi cortado por um rangido — um galho a partir-se, vindo de trás, ninguém se virou. Já não era preciso. O som vinha sempre de trás, sempre à mesma distância.


— Estamos a ser seguidos? — disse Shauna. A voz dela, agora, tinha uma aresta que antes não tinha. — Há quanto tempo?


— Desde que entramos — respondeu Calem. — O volume não mudou desde o primeiro passo. Talvez algo na floresta não queria que todos nós entramos juntos, por isso...


O coração de Trevor bateu mais forte, e as mãos, ao contrário, aquietaram-se

Suor fino esfriou-lhe a nuca. 


A peça que faltava. 


O padrão que não encaixava, e isso lhe irritava.


— Então para onde é que ela quer que a gente vá? — perguntou Calem.


Trevor olhou para a Flabébé. Para o centro pálido, que brilhava com uma luz própria, mais intensa do que a da Étoile e para o desvio que a luz de ambas apontava, para um ponto fora dele.


— Estávamos a seguir o caminho errado — disse Trevor, devagar, como quem só ouve a própria conclusão ao dizê-la em voz alta. — As pegadas, as árvores alinhadas... isso é um circuito. Fecha sobre si mesmo. Alguém o construiu para isso. A Flabébé nunca seguiu essa trilha. Estava a apontar por cima dela o tempo todo, e eu só olhava para o chão.


Os três se entreolharam com dúvida.


—  Para o sítio que aparece em todos os registos, sempre no mesmo lugar, cada vez que a floresta faz isto — disse Trevor, a voz firme agora. —  Nunca é uma zona nova. É sempre a mesma coordenada.


Não precisou de dizer os números. Calem e Shauna já os tinham ouvido de manhã, na pensão, e o silêncio dos dois dizia que também os tinham guardado.


—  E estão a fechar — disse ele, só isso. A voz baixou. —A Flabébé sabia disso antes de eu escrever. É por isso que ela nunca parou de apontar para o mesmo sítio: não é o lugar de uma vez. É o lugar de sempre, e desta vez está a chegar mais cedo do que da última.


Calem olhou para os amigos sem perceber metade cmas percebeu o suficiente.


— Então vamos.


***


A passagem era mais estreita do que parecia. 


As árvores fechavam-se de ambos os lados, quase a tocarem os ombros de Trevor. A luz da Étoile, que antes iluminava um túnel claro, começava a ser absorvida pelas paredes de vegetação, como se as folhas bebericassem a claridade e a devolvessem em tom mais baço.


O mundo à volta deles encolhia. 


O céu, se é que ainda existia, era uma nesga pálida e distante por cima das copas que se fechavam.


O silêncio regressou, mais denso do que à entrada — cheio de uma presença que não se via, não se ouvia, mas se sentia no ar mais denso.


Tierno, atrás, falou em voz baixa.


— O som mudou. A respiração. Está mais perto.


Calem não respondeu. Os olhos fixos no caminho, a Étoile no ombro, a luz a tremer ligeiramente como uma chama ao vento.


Avançaram mais.


Trevor começou a reparar em pormenores que antes não vira. As paredes da passagem não eram uniformes, em certos pontos, a terra e as raízes davam lugar a pedra. 


Calcário, como o da cidade. 


E na pedra, marcas. Riscos. Padrões. Linhas curvas e retas que se cruzavam, desenhando formas que os olhos demoravam a decifrar. Um círculo. Uma espiral. E no centro de uma delas, uma marca que parecia uma flor.


— Há inscrições na pedra — disse Shauna, parando. A mão tocou uma das superfícies de calcário, os dedos a seguirem os sulcos desgastados pelo tempo. — Isto não é natural. Alguém fez isto.


Calem aproximou-se, a luz da Étoile a banhar a pedra. As marcas eram antigas, as bordas arredondadas pela erosão de décadas ou séculos, mas o padrão era reconhecível: círculos concêntricos, semelhantes aos que Trevor vira nos relatórios. 


Os mesmos. 


Sempre os mesmos.


— Os selamentos — disse Calem, a voz seca. — São os mesmos símbolos. Os dos arquivos.

— Mas aqui estão na pedra — respondeu Trevor. — Não em papel. Isto é mais antigo. Muito mais antigo.


Avançaram. 


As inscrições tornavam-se mais frequentes, mais densas. Em alguns pontos, a pedra estava coberta delas, um mosaico de símbolos que se sobrepunham uns aos outros, como se diferentes gerações tivessem deixado a sua marca sobre a dos anteriores. O mais recente, Trevor reparou, tinha um estilo diferente — mais limpo, mais angular. Letras. Palavras. Em Kalosiano.


— Não selar — leu ele, a voz a tremer ligeiramente. — Observar — O resto da linha estava gasto, a pedra comida por baixo das duas primeiras palavras, e nem a luz da Étoile chegava para separar o que sobrava de sulco do que já era só erosão. — Depois disto não dá para ler. Falta o resto.


— Quem escreveu isso? — perguntou Shauna.


Trevor demorou a responder. 


A data, esculpida no canto inferior da inscrição, era 1638.


O mesmo ano que as margens apontavam. O mesmo ano que o primeiro relatório registava.


E os municipais que ele lera na véspera diziam o contrário desde sempre: selar, tapar, conter. Séculos disso. Duas mãos, outra vez — uma a mandar fechar, outra a mandar deixar aberto e olhar. E as duas mais velhas do que toda a gente viva.


— Foram eles — disse Trevor, a voz quase inaudível. — Os que marcaram o caminho. Eles sabiam o que estava aqui e disseram para não tocar.


Shauna semicerrou os olhos para as letras mais antigas, o hábito de quem decorou alfabetos à força para não ficar para trás na escola. — Estas letras eu conheço.


Agachada junto à base da pedra, tinha os dedos numa linha mais funda, quase apagada, separada do resto.


— Há mais uma palavra aqui em baixo — disse ela, e a testa franziu-se, o jeito de quem lê uma coisa e não confia no que está lendo. — Custos.


Trevor virou-se depressa de mais.


— Você tem certeza que é essa a palavra?


— Tenho a certeza. — Shauna não desviou os dedos da pedra. — É latim


Ele puxou o Holo Caster do bolso, o polegar já no atalho para as fotos do arquivo, à procura da margem onde jurava tê-la visto antes, Tierno deu um tapa na mão dele, lhe lembrando. 


Não podiam usar Holo Casters ali. 


— Não consigo confirmar — disse, e a frase custou-lhe a sair. — Não tenho a fotografia aqui. Só tenho o que você leu.


— Então confia no que eu li. — Shauna levantou-se. — Por uma vez.


— Custos — disse Calem, provando a palavra. — O quê, em latim?

— Guardião — disse Shauna, devagar, como se a tradução lhe chegasse de um sítio que ela própria não sabia nomear. — Aprendi na escola, achei que seria inútil, mas quem diria que iria precisar disso agora.


— Que escola é essa que ensina  latim? — falou Tierno.


— Uma claramente melhor que a nossa. — comentou Calem e logo voltou ao assunto. — Alguém tocou — disse Calem. — A Empresa. Eles estão perfurando. Marcando. Desenterrando.


O silêncio que se seguiu foi cortado por um som novo — não a respiração da floresta, não os passos atrás deles. Um som líquido, como água a escorrer sobre pedra, vindo de mais à frente. 


Contínuo. Rítmico.


A passagem alargou-se sem aviso, rompendo a garganta de vegetação. 


O espaço que se abriu era uma clareira antiga, onde o chão de calcário partido gesticulava sob o musgo denso, e os líquenes pendiam das árvores como cortinas de renda. No centro, onde os troncos velhos recuavam por mútuo acordo, erguia-se o poço. Tinha as bordas talhadas à mão, polidas pelo tempo, uma pedra mais escura que o verniz administrativo da prefeitura.


Shauna parou, os olhos curtos na escuridão vazia.


Calem aproximou-se da borda. A Étoile, no ombro dele, não acendeu como um farol doméstico; o corpo da Clefairy pulsou um rosado cru, bilioso, que vertia para dentro da goela de pedra e morria antes de achar o fundo. 


Um compasso lento, pesado, regular como a viscosidade de um fluido grosso a ser movido nas entranhas da terra. Aquela respiração que julgavam seguir desde a orla não vinha de trás. Estavam caminhando sobre ela o tempo todo.


— Não vejo o fundo — disse Calem. A voz era controlada, mas Trevor ouviu o que estava por baixo. — A luz não chega.


Trevor ajoelhou-se.


 Enfiou os dedos na fenda entre o anel de pedra e o barro morno. A pele encontrou uma membrana húmida, algo que cedeu com a elasticidade da carne viva e regressou à forma original. 


Ao puxar a mão, os dedos vinham sujos de um líquido escuro e denso, de reflexos oleosos, que retinha a escassa luz rosada na pele.


Trevor não tinha nome para aquilo. 


Alguém, há muito tempo, descobrira o que estava no fundo do poço. E dissera, pelo menos, para não selar.


A Flabébé, no ombro, vibrava — uma vibração contínua, de bicho a tremer de febre. Uma gota desprendeu-se do centro pálido e caiu-lhe na mão: mais densa do que orvalho, quase leitosa, quente na pele. Ao lado, a Étoile não se mexia. Os olhos dela, dois brilhos escuros no rosto rosado, estavam fixos na escuridão que a luz não alcançava — fixos de mais, e a boca pequena entreaberta, sem som.


— Não vamos descer — disse Shauna. — Não esta noite. Não sem saber o que está lá em baixo.


— Mas a gente está tão perto... — falou Trevor.

— Trevor. — Tierno colocou a mão no ombro do amigo. 


Ninguém discutiu. A Flabébé fechou as pétalas de repente — e o pulsar do poço, por um momento, pareceu acelerar.


***


O poço ficou para trás.


A passagem que os trouxera ainda estava lá, uma garganta escura na parede de vegetação, mas ao terceiro passo o chão desmentiu-a: mais macio do que à vinda, o calcário rendido a terra solta, o som dos passos a mudar de seco para abafado. Trevor procurava com a mão os troncos da ida e encontrava outros — ou os mesmos, mudados.


— Estamos no caminho certo? — perguntou Shauna.


— Sim — respondeu Calem, mas não parou e não confirmou.


Foi a Flabébé que desmentiu também.


O caule dobrou-se. Não as pétalas — o caule inteiro, vergado para a esquerda como um pulso torcido, e o peso dela no ombro de Trevor mudou: mais denso, febril. Uma segunda gota de néctar rebentou-lhe junto ao pescoço, e o cheiro era doce de mais, fruta aberta em plena noite. Do ombro do Calem, a Étoile virou a cara para o mesmo lado, e a brasa rosada do corpo dela inclinou-se, teimosa.


Havia ali uma abertura. Estreita, entre dois troncos, escura de nunca ter sido usada.


Ninguém disse vamos. Ninguém propôs nada. O Calem olhou para a Étoile, a Étoile olhou para o escuro, e o grupo dobrou-se para a abertura como a flor se tinha dobrado — de corpo inteiro, sem votação. 


Trevor entrou em último, e foi o primeiro a perceber que já não saberia voltar.


O desvio apertava mais do que a passagem das inscrições: ramos à altura da cara, o chão a subir devagar. A luz da Flabébé e a brasa da Étoile eram tudo o que iluminava o caminho. O cheiro era diferente, mais doce, mais adocicado e mesmo assim Trevor sentiu a ansiedade a crescer-lhe no peito, mas não parou.


Shauna colada a Trevor, o Litleo ao peito; atrás, o Calem, e o Tierno a fechar, sem dança nenhuma nos passos agora.


— Você está ouvindo? — perguntou ela, a voz baixa.


O som era o mesmo que ouvira antes — o farfalhar nos ramos, seco e deliberado, mas agora estava mais perto e não vinha de cima. Vinha do caminho à frente.


— É o mesmo som — disse Tierno. — Está seguindo-nos.

— Ou está à nossa espera.


Avançaram. 


O desvio curvava-se para a direita, depois para a esquerda, uma serpentina que parecia desenhar um padrão no chão. Trevor reparou que as marcas de pés, as pegadas antigas , desapareciam. 


O chão estava limpo. Nunca pisado.


— Ninguém veio aqui — disse Trevor. 


À frente, o chão não tinha uma única pegada.


O desvio abria em dois braços, e ali a Flabébé e a Étoile discordavam: o caule dela vergava para a esquerda, a brasa dela inclinava-se para a direita. Nenhuma das duas cedia.


— Então por que é que a Flabébé aponta para um lado e a Étoile para o outro? — perguntou Shauna.


Trevor não soube dizer. 


A  esquerda tinha pegadas antigas por baixo do musgo, a fileira que vinham seguindo desde a entrada. A direita não tinha nenhuma. Uma das duas luzes estava apontando para o mesmo caminho de sempre. A outra para um sítio a que ninguém, em quatrocentos anos, tinha achado motivo para ir.


— A esquerda é o caminho que já sabíamos — disse ele. — A direita é o que ainda não sabemos. Vamos pela direita.


— Há qualquer coisa ali — confirmou, apontando para a frente.


Foi o Houndour que respondeu primeiro.


 O ladrido veio de perto e atrás dele uma luz branca riscou as copas por cima do desvio. Depois estática de rádio, e uma voz de homem, curta.


— Luzes — disse Calem, num sopro. A Étoile escureceu-lhe no ombro até restar uma brasa. — Atrás de nós.


Desceram o desvio em fila, Calem primeiro, o Tierno colado a ele, depois Shauna, Trevor a fechar.


O Calem e o Tierno saíram do desvio meio passo à frente deles — e a luz apanhou-os em cheio.


Um Holo aceso, um guarda de colete, um Houndour a puxar a trela com os dentes à mostra. Trevor agarrou o ombro de Shauna e puxou-a para trás, para a boca escura do desvio, para trás de um tronco. A mão dela encontrou a dele e apertou.


O Tierno não recuou. Avançou meio passo, os braços abertos, já dentro do papel antes de o escolher.


— Desculpe, senhor! Perdemo-nos! Estávamos a tentar encontrar o caminho de volta para a cidade! — A voz subiu ainda mais, quase a gritar, e Trevor percebeu o que ele estava fazendo. Não estava falando com o guarda. Estava falando para o escuro, para quem o escuro escondesse. Fiquem onde estão.



O guarda não era estúpido. Estreitou os olhos, e a mão foi à rádio.


— Estão avisando alguém. — Uma pausa de estática. — Reforços. Agora.


O Houndour soltou-se da trela.


O que aconteceu a seguir aconteceu tudo ao mesmo tempo. A luz da Étoile explodiu num clarão rosado que cegou o guarda; a voz do Calem cortou o clarão e atrás do primeiro guarda apareceram mais três, e um deles apontou a lanterna exatamente para o tronco onde eles estavam.


— Ali! Na lateral!


Dois guardas viraram para o desvio. Os outros ficaram com o Calem e o Tierno.


E a floresta reagiu.


As raízes que antes estavam imóveis, enterradas no musgo e na terra, agitaram-se como cordas puxadas de baixo. 


Uma raiz grossa ergueu-se do chão, enroscou-se na perna do guarda mais próximo e puxou. O guarda caiu de costas, o Holo a voar, a luz a apagar-se. O Houndour rosnou, saltou por cima da raiz, e outra, mais fina, prendeu-lhe a pata traseira.


A raiz seguinte apanhou o tornozelo de Shauna. 


Ela caiu com o peso todo, o Litleo a rebolar-lhe do colo, e Trevor puxou-a pelos braços e a raiz puxou de volta, e durante um segundo inteiro nenhum dos lados cedeu. 


Foi o Litleo que a soltou: uma rajada de fogo curta, rente ao chão, e a raiz abriu-se a fumegar e recolheu à terra.


Shauna pôs-se de pé a coxear, o Litleo outra vez ao peito, e o que lhe saiu da boca não foram palavras.


Trevor pensou no tubo contra o peito, na coisa que raspara da fenda do poço, e não teve tempo de acabar o pensamento.


— Corre!


As raízes moviam-se em todas as direções, o musgo escorregadio debaixo dos pés, os ramos a baterem-lhes na cara. E no meio do escuro, atrás, Trevor ouviu a voz do Tierno, longe de mais, na direção errada, gritando qualquer coisa que já não se percebia,  e o clarão rosado da Étoile bateu uma última vez nas copas até desaparecer. 



Voltar atrás era entregar os dois pares em vez de um e começaram a correr o mais rápido que podiam.



Shauna parou de correr um instante, os olhos a varrerem o padrão das raízes que se erguiam à frente, não atrás. Reparou no que Trevor, olhando só para os pés, não tinha tempo de ver: as raízes atacavam sempre um passo depois de o pé pisar, nunca antes. O caminho que parecia mais limpo era o que ainda não tinha sido pisado por ninguém,  logo, o que a floresta ainda não sabia que precisava de defender.



— Por aí não — disse ela, e puxou Trevor pelo braço na direção oposta à que ele ia tomar, para uma brecha entre troncos que parecia pior, mais fechada. — Por aqui ninguém pisou ainda. Ela ainda não armou nada.


Trevor não teve tempo de discutir a lógica, só de confiar nela. 


O Litleo soltou uma rajada  para iluminar e a luz dançou nas paredes de vegetação e mostrou, por um instante, o que estava à frente: uma clareira. Não a do poço. Outra.


— Ali! — gritou Shauna, apontando para a brecha que tinha escolhido.

Avançaram, e as raízes avançaram com eles, mas mais devagar do lado que Shauna tinha escolhido, um passo sempre atrás do que deviam estar.


 Uma rasgou a manga da T-shirt de Trevor; outra falhou-lhe o pé por um palmo. Atrás, os dois guardas já não gritavam com eles, gritavam com o chão, com o que lhes subia pelas pernas.


A clareira estava à frente e nunca chegaram a entrar nela.


Qualquer coisa atingiu os guardas e logo em seguida Trevor à altura do ombro, arrancando o ar dos pulmões numa rotação cega contra a casca de um ulmeiro. Antes que conseguisse recompor a guarda, uma mão firme fechou-lhe na gola da T-shirt, puxando-o para a lama, atrás do escudo de uma laje de raízes reviradas.


— Abaixa a cabeça. — o sussurro de garota veio sem volume, colado ao ouvido dele, cortado por uma respiração curta que tentava, à força, domar o próprio ritmo.


Era Serena. 


O cabelo assimétrico estava colado à testa pelo suor, os dedos cravados no flanco de um Eevee que tremia com o pelo eriçado e os dentes descobertos. Não vinha em socorro; estava fugindo há mais tempo do que eles. Shauna prendeu o focinho do Litleo contra o peito enquanto a luz branca das lanternas dos guardas varria as copas por cima das suas cabeças, ruidosa de estática e ordens curtas de rádio.


Sem olhar para ele, os olhos fixos na patrulha que passava a correr pelo flanco esquerdo, Serena enfiou a mão livre por dentro do bolso da calça de Trevor,  rápida, áspera —empurrando um maço de papéis dobrados.


— Da biblioteca — disse ela, a voz fria de cansaço. — Se me apanharem, não apanham isto.


— O que é? — E, porque a pergunta certa importava mais: — Por que nos entrega isto a nós?


— Porque vi os vossos bichos, do outro lado do clarão. — Nem olhou para conferir; já tinha visto de longe, antes de decidir vir. — Uma Clefairy e uma Flabébé não brilham assim por acaso, nem apontam para o mesmo sítio ao mesmo tempo. Ando há dias à procura de gente que veja o que eu vejo. — Uma pausa, quase contra vontade. — Não vou parar para interrogar os primeiros que aparecem.


Três volumes cegos, quentes do corpo alheio, a baterem contra o esterno ao mesmo ritmo do sangue. Trevor correu atrás dela.


Correram os dois, ela à frente, lendo o chão no escuro — e as raízes, que não paravam de mexer, chegavam sempre um sopro atrasadas ao sítio onde os pés dela tinham estado. Atrás, algures, um homem gritou. Não a eles: ao chão.


Ninguém perguntou para onde iam. A Flabébé, no ombro de Trevor, tinha voltado a abrir as pétalas.


— Foi você... — ele disse enquanto corriam, ninguém o ouviu. — Foi você que invadiu a biblioteca primeiro!


A Flabébé já não apontava: puxava. O caule vergava-se todo para o mesmo lado, as pétalas rígidas de tensão, e o peso dela no ombro tinha mudado ainda mais denso. Trevor deixou de escolher o caminho e passou a segui-la pelo corpo, os pés a afundarem-se no musgo.


A Flabébé mantinha as pétalas abertas, o caule esticado. Trevor seguia-a.


Foi então que ouviu o som.


Por baixo do zumbido da terra, outro som. Mecânico. Metálico.


Trevor parou. Shauna parou atrás dele e Serena logo em seguida ao vê-los parar de correr.


A luz rosada à frente a que a Flabébé seguia, estava sendo engolida por outra. Mais forte. Mais fria. Branca.


Holofotes.


— Máquinas — disse Serena e depois, mais baixo, quase para si própria: — De noite, nunca. Nunca tinham vindo de noite.


O estômago fechou-se, um punho a apertar por dentro.


— Ela estava levando-nos para ali — disse ele, a voz num fio. — A Flabébé. Estava levando-nos para a luz.


— E os extratores estão no caminho — disse Serena. 


O som dos motores crescia. A luz branca intensificava-se. As árvores à frente tremiam com a vibração das máquinas.


A Flabébé fechou as pétalas de repente.


A luz apagou-se. 


Trevor ficou imóvel, o coração batendo-lhe nos ouvidos, a mão fechada no tubo. Algures atrás daquela parede de luz branca estavam o Calem e o Tierno,  se ainda corriam. 


Obrigou-se a acabar a conta de outra maneira: estavam correndo. O Tierno sabia fazer barulho na direção errada melhor do que ninguém, e o Calem sabia contar. Era com isso que ele tinha de viver até ao fim da noite.


Shauna tocou-lhe no ombro.


— Trevor?

— As máquinas — disse ele, a voz quase inaudível. — Estão exatamente no caminho dela.


O desvio levava para longe dos holofotes.


— Por aqui — disse Trevor, apontando para o desvio. — Ela está desviando-nos.


Serena olhou para o desvio, depois para a luz branca ao fundo.


— As máquinas estão chegando. Se elas vos encontrarem, não há conversa. São contratados da Dumont. Sabem o que têm de fazer.


— Então não nos encontram — disse Shauna logo em seguida e entrou no desvio.


O desvio era mais estreito do que os outros, mais escuro, e o cheiro a terra e metal era mais forte. Mas o caule dela não desfazia a curva: sabia para onde ia.


Mais à frente, Trevor parou.


A luz rosada estava mais perto agora — não à frente, mas por cima. Como se estivesse a sair do próprio chão. A Flabébé, no ombro, abriu as pétalas mais do que nunca. O centro pálido brilhou intensamente, e a luz projetou-se para cima, para a claridade que vinha da terra.


O peito apertou-lhe, curto, e a respiração saiu em duas metades em vez de uma.


Trevor não conseguiu falar. A Flabébé tremia-lhe no ombro. As pétalas vibravam, e o centro pálido brilhava com uma intensidade que ele nunca vira.


Ele tocou as pétalas. Queimavam. Calor de pedra ao meio-dia, em plena noite.


A luz rosada intensificou-se.


Tentou fazer a conta — o quê, quanto, desde quando — e não veio nenhuma. Não havia números para isto, tal como não tinha havido para a floresta inteira, e desta vez não lutou contra a falta deles. As mãos frias, o fio de voz que lhe restava: deu um passo à frente.


Trevor, pela primeira vez, perguntou em voz alta:


— Qual é o teu nome?


A luz rosada brilhou mais forte.


E o som das máquinas, atrás deles, aproximou-se.


Capítulo 06

 

Capítulo Seis

Na teia bamba


As mãos do Calem ardiam. 


Duas bolhas na palma direita, uma rebentada e a outra mão com breve queimadura resultado do treino no quintal da pensão, madrugada adentro, repetindo as mesmas palavras e os mesmos gestos para um bicho que obtera em menos de um dia.


O nome, para a atenção. Vai, com a mão aberta. Para o fogo, o punho fechado — e o Torchic olhava para o punho, às vezes para a cara dele, e nas vezes em que olhava para a cara não saía nada. 


Lá pelas quatro da manhã acertava duas em cada três. Calem foi dormir a saber que não chegava e que já não havia tempo para fazer chegar.


— Você não dormiu — disse o Trevor, na subida da rua.


— Você também não.


O Trevor vinha com os olhos fundos, repleto de olheiras, porém nenhum dos dois falou mais nisso.


O ginásio ficava no topo da rua, e Calem tinha-o imaginado aberto tal como na primeira vez que fora: gente à porta, um campo lindo lá dentro, porém As luzes da fachada estavam apagadas. A porta da frente não abriu, por mais que ele batesse, e atrás do vidro havia um papel escrito à mão — FECHADO ATÉ ORDEM EM CONTRÁRIO — e, do lado de dentro, um silêncio que parecia tê-lo mandado calar.


Foi o Trevor que deu a ideia de entrar pela porta lateral, encostada, sem tranca. 


Empurrou-a sem perguntar a ninguém, e entraram.


Calem esperava um átrio, bancadas, o caminho para um campo. 


Em vez disso, uma sala grande e escura, de teto alto, iluminada só por focos presos lá em cima, cada um apontado ao seu ponto da parede. O resto ficava na penumbra. O chão, de um material escuro e polido, quase um espelho baço, devolvia a luz em manchas compridas; andava-se sobre o reflexo das fotografias das paredes.


 Grandes, de moldura funda, penduradas longe umas das outras, cada uma no seu foco de luz, para serem olhadas uma de cada vez. Ninguém pendura retratos assim por hábito. A sala existia para as imagens.


No chão, ao centro, dois emblemas embutidos no próprio material: o símbolo do ginásio, a forma de um inseto, um de cada lado, em metal mais claro, à maneira dos brasões que os tribunais metem à entrada. A marca da Liga gravada no soalho, para se pisar. Calem contornou-a, e só a meio do desvio é que deu conta de que a estava contornando.


Foi à primeira fotografia iluminada porque a luz o levou lá.


Era um rapaz mais novo do que ele, olhando para uma Pokébola na palma da mão com uma cara aberta, sem defesa, a cara que uma pessoa faz quando julga que ninguém a vê. No foco seguinte, uma garota apertava uma insígnia contra o peito com as duas mãos e ria com a cabeça atirada para trás — uma alegria tão sem cálculo que custava olhar, um bocado como assistir a uma coisa privada. 


Calem foi andando de foco em foco. 


A sala obrigava: a escuridão entre as molduras não deixava ver duas ao mesmo tempo. Uma criança adormecida contra o flanco de um Pokémon grande, os dois com a mesma cara de sono. Gente a ganhar e a perder. Um homem à espera de qualquer coisa num corredor, o boné torcido nas mãos. 


Ninguém olhava para a máquina. 


Tinham sido apanhados todos no segundo em que se esqueciam de si.


Alguém tinha esperado por esse segundo. Centenas de vezes, com uma paciência que dava para sentir dali. Fotografias do instante em que as pessoas baixam a guarda. 


A meio da sala, as paredes mudavam de assunto, focando agora em Pokémon.


Não os grandes, não os de cartaz: mas simples insetos. Uma parede inteira deles, e Calem parou, porque não estava à espera de os achar bonitos.


Uma Vivillon de asas abertas, tão de perto que se via o pó fino que as cobria, cada escama distinta, o padrão aberto como o vitral de uma igreja. Uma fila de casulos numa haste, a luz a atravessá-los por trás, a seda acesa. 


Um bicho minúsculo sozinho numa folha molhada, tão pequeno na fotografia grande que era preciso chegar-se para o encontrar  e depois já não se olhava para mais nada.


Ao fundo, onde as fotografias acabavam, o barulho de fora ouvia-se de outra maneira. Vinha de baixo. O chão abria-se num quadrado escuro, com um varão de segurança de um lado, e do buraco subia ar morno, cheiro de estufa. Um cabo de ferro descia para o escuro.


File:Santalune Gym XY.png


Calem desceu primeiro, os pés à procura dos nós, e a meio deixou de haver a luz da sala de cima e de baixo; desceu três braçadas às cegas, depois a luz de baixo apanhou-o, e ele viu onde ia aterrar, e ficou um segundo parado no cabo com os pés num nó que já tinha encontrado.


O piso de baixo era o ginásio.


Um espaço amplo, ao comprido, de pé-direito alto, numa penumbra escolhida: focos baixos e quentes, apontados a sítios exatos, o resto deixado ao escuro de propósito. No chão, de parede a parede, corria uma estrutura de cabos de aço tensos e travessas de madeira clara, esticada em raios e em círculos, com plataformas penduradas nos cruzamentos.


Calem demorou a ver o desenho porque estava dentro dele: uma teia. Uma teia gigantesca que parecia quase ser feita à mão, cabo a cabo. Ninguém monta aquilo por acaso. Alguém a desenhara para ser atravessada devagar.


Por entre os cabos, plantas de folha larga, os vasos escondidos no escuro, as folhas húmidas. Tudo ali era húmido; o ar pesava, colava-se à pele, Calem por um momento foi obrigado a tirar o chapéu e abanar em seu rosto. 


A madeira das plataformas tinha o inchado baço da madeira de estufa. E o barulho de fora ouvia-se melhor do que lá em cima. Estava-se mais perto do chão da cidade, mais perto do sítio de onde aquilo vinha.


Largou o cabo e pousou os pés numa plataforma. A madeira cedeu meio dedo e devolveu, como um barco.

File:Santalune Gym B1F XY.png

O Trevor desceu atrás, mais devagar, praguejou baixinho a meio, e aterrou ao lado com menos jeito do que queria, ficou dobrado um momento, abrindo e fechando os dedos.



— Isto tudo é dela?— disse, ainda para as mãos. Depois levantou a cabeça. — O desenho. Os caminhos. Não há aqui caminho que ela não tenha posto.


Calem já tinha olhado para as três saídas da plataforma e escolhido a que se via melhor do fim. Foram por essa, um atrás do outro, as mãos nos cabos de guia. Os cabos estavam tensos como coisa afinada.


— Está fechado!


A voz veio da direita. Numa plataforma meio fora do foco estava um rapaz de vinte e poucos anos, de colete do ginásio, sentado com as pernas penduradas e uma sanduíche a meio na mão. Tinha mais ar de empregado apanhado a comer em serviço do que de guarda.


— O ginásio está fechado — repetiu, mastigando para o lado. — Não leram o papel lá em cima?


— A Viola me chamou — disse Calem. — Pessoalmente.

O rapaz parou de mastigar. 


Olhou para Calem, para o Trevor, outra vez para Calem, e embrulhou o resto da sanduíche num movimento que já era de quem se levanta.


— Então lute — Sem discussão nenhuma, quase com alívio, como se o protocolo fosse a única coisa ali em baixo que ainda funcionava como devia. — Regra da casa: quem vai até ela, vai jogando. Um contra um. — Soltou a Pokébola, e o que saiu foi um Kakuna.


E o Kakuna estava errado.


Calem nunca tinha prestado atenção a um Kakuna na vida, era um casulo, um bicho que existe à espera, mas até ele viu que aquilo não se devia mexer daquela maneira. O casco dourado balançava sem vento, pêndulos curtos, arrítmicos, e de dentro vinha um som contínuo de coisa acordada a gastar a própria casca.


— Ele está assim faz dias — disse o treinador, sem ninguém perguntar. — Vai logo.


O Torchic estreou torto: as garras patinaram na madeira húmida ao primeiro avanço, e Calem trouxe-o de volta com o nome e mandou-o de novo pelo ângulo seco. À terceira ordem o fogo saiu inteiro, e o casulo devia ter tombado ali, mas balançou, recompôs-se, e o zumbido de dentro subiu de tom em vez de parar. 


O treinador não disse nada, mas deixou de mastigar de vez.


Calem sentiu o Torchic hesitar antes da ordem seguinte, o peso a mudar de pata para pata, o bico entreaberto a puxar ar mais depressa do que devia. 


Cansaço, aquele treino da madrugada não fora leve, mas ele precisava dele naquele momento, seria praticamente impossível vencer o ginásio apenas com Étoile no seu arsenal. 


Ajoelhou, tirou a poção do bolso da mochila e borrifou-a rápido nas penas do peito, sem tirar os olhos do casulo. O Torchic sacudiu-se, e a respiração assentou meio tom abaixo do pânico. Foi o suficiente. A quarta ordem acertou no ângulo certo, e desta vez o casulo tombou a fumegar e ficou quieto.


O treinador recolheu o bicho depressa demais.

— Passou. — E depois, já de costas, mais baixo: — Fala uma coisa pra ela. Os bichos daqui não dormem mais. Nenhum. Desde a semana passada. — Olhou para a parede do fundo. — Ela anota tudo. Então de certeza vai anotar isso também. 


Já a sentar-se outra vez, apontou o queixo para o corredor: — O resto do caminho ela marcou com água nos cabos. Segue o brilho e não se perca nos outros. Ela está na tenda. Não faça barulho ao chegar. Se ela estiver com um rolo na mão, espera que acabe. Ela não gosta que a interrompam a meio de um rolo.


Seguiram. 


O espaço foi mudando dali para a frente. As plantas adensavam, os focos baixavam. 


Começaram a aparecer, pousados nas plataformas, objetos que não eram cenário: um refletor redondo, dobrado, e um tripé fechado, deitado ao comprido. Mais adiante, sozinha numa plataforma, uma caixa de alumínio com fechos, do género que se carrega com as duas mãos. Material de estúdio, arrumado ao longo do caminho onde alguém ia voltar a precisar dele.


E ao fundo, onde a teia inteira convergia, havia uma plataforma maior, larga, firme, e por cima dela uma tenda.


Lona cor de laranja, aberta de frente, iluminada por dentro com uma luz mais branca do que a do resto. Mesas, malas de material empilhadas, o brilho fosco de equipamento, e focos montados em pés, virados para fora, para a plataforma. Um estúdio. O fundo do ginásio estava montado como um estúdio de fotografia, e a plataforma larga diante da tenda, varrida pela luz branca, era o palco: o centro exato da teia, o ponto onde qualquer coisa que ali chegasse ficava iluminada de frente, contra o escuro, sem sombra onde se pôr.


Calem parou no último troço de cabo. 


Dentro da tenda, de costas para eles, uma mulher mudava o rolo de uma máquina fotográfica.


Lembraram-se os dois ao mesmo tempo do que o homem tinha dito.


Ficaram no fim do cabo, à beira da plataforma larga, sem pisar a luz branca. A mulher não se voltou. Estava de pé junto a uma mesa, a cabeça baixa sobre a máquina, e trabalhava com as duas mãos sem olhar para elas.


Não era possível que não os tivesse ouvido: a madeira rangera, o Torchic vinha a piar baixinho desde a última plataforma, o Trevor respirava alto quando nervoso. 


Ela não se voltou.


Acabou o que estava fazendo, ao ritmo exato do que estava fazendo, e o silêncio dela trazia uma instrução lá dentro.


 Esperem. 


E eles esperaram, dois garotos parados no escuro à beira de um palco iluminado. Só mais tarde é que Calem pôs nome àquilo: já lhe estavam obedecendo antes de lhe terem visto a cara.


A tampa fechou com um estalo seco. Ela avançou a película, uma, duas vezes, o som áspero do rodete a encher a tenda.


Voltou-se quando decidiu voltar-se. 


O corpo primeiro, a máquina a assentar contra o peito, presa pela correia de couro gasta, as mãos a caírem ao longo dela sem a largar. Trinta e poucos anos. Alta sem ser muito, direita sem esforço, o cabelo claro apanhado de qualquer maneira. Roupa prática, de bolsos, com manchas antigas de revelador nas coxas, onde limpava os dedos. Nada nela pedia atenção.



Calem já tinha estado em salas com gente importante: organizadores de torneio, um campeão regional de passagem. Conhecia presença fabricada, a que se põe e se tira. 


Aquilo era outra coisa. A mulher olhou para eles e o espaço confirmou-se lhe à volta, a teia e os focos de repente dela, à maneira de um quadro que faz sentido quando finalmente se descobre para onde é suposto olhar.


Os olhos dela foram primeiro ao Torchic, dois segundos, e qualquer coisa neles registou e arquivou. Depois ao Trevor, e Calem viu o amigo, desviar o olhar e voltar a pô-lo à força. Depois a ele. E ali ficaram.


— Calem Deschamp, certo? Chegou cedo — disse ela. — Melhor assim.


Pousou a máquina na mesa e veio até à boca da tenda. De perto era mais nova do que a autoridade fazia parecer, e o olhar que lhes deitou tinha uma atenção a que ninguém está habituado: media-os para uma coisa que não dizia.


Os olhos correram os dois e pararam no Trevor.


— E este vem porquê?


— Documentar — disse o Trevor, e corrigiu-se a meio: — Assistir. Vim assistir.


— Assistir. — Repetiu a palavra sem hostilidade, quase com curiosidade. — Você veio ver uma batalha de insígnia às nove da manhã, num ginásio fechado. — Abanou a cabeça devagar, e o que lhe passou pela cara podia ser o princípio de um sorriso. — Já vi de tudo. Público a esta hora é novo.


— Ele é meu amigo — disse Calem. — Viaja comigo.


— Então que assista. — O assunto morreu ali, por decisão dela. Pegou numa prancheta de mola que estava ao lado da máquina. — Registo do desafiante. Tem o cartão da Liga?


Calem tirou-o do casaco. Ela recebeu-o com as duas mãos, virou-o, e começou a copiar para o papel, à mão, letras pequenas e direitas.


— Vaniville. Corredor de Aquacorde. — Levantou os olhos um instante. — Primeiro desafio, presumo.


Já escrevia a resposta antes de ele a dar.


— Sim.

— Primeira insígnia. — O tom dela assentou ali, em terreno que conhecia de cor. — Então ouve rápido, porque este é o único ginásio onde alguém te explica em vez de assumir que sabes: dois contra dois, escolha fechada, equipa declarada antes, sem trocas. Taxa tabelada, no verso do cartão — se cobrarem mais nalgum ginásio, denuncia. Perdeste, repetes ao fim de sete dias, não antes; ninguém se arruína a tentar todos os dias. — Virou a folha. — Perguntas?


Calem trazia uma desde a rua, afiada. Saiu-lhe menos dura do que a trazia.


— A sua mensagem. Havia uma lista de espera, eu estava no fim. O ginásio está fechado, a cidade está como está,  e a senhora antecipou a minha batalha com um recado pessoal. Porquê?


— Porque te quero fora da minha cidade.


Deixou a frase acabar sozinha. Durante um momento ninguém a apanhou; o Torchic piou uma vez, baixinho, e calou-se também.


— Você e os outros quarenta e dois da lista — continuou ela, sem maldade nenhuma. — A cidade levou uma pancada que ainda ninguém mediu, e eu tenho quarenta e três treinadores de fora à espera, com o dinheiro contado e as pensões pagas à noite, numa cidade meio escavada. Cada um que despacho é um que segue para Lumiose no dia seguinte, com a insígnia e sem razão para ficar. É o melhor que posso fazer por eles e pela cidade ao mesmo tempo. — Encolheu um ombro. — Estou a ir pela lista, por ordem prática. 


Batia certo. 


O Trevor, atrás, não disse nada. Calem conhecia-lhe os silêncios; aquele tinha uma pergunta guardada lá dentro.


— Seu time  — disse a Viola. — Dois. Declara.


— A Clefairy. — Ao falar, Étoile saiu diretamente da pokébola surgindo em seu ombro. E um Torchic.


— O Torchic que vem a piar desde a terceira plataforma. — Escreveu, e o canto da boca mexeu-lhe. — Nível de registo?


— Não está registado. Apanhei-o ontem. Na limpeza.

A caneta parou.


— Nas ruas? — Pela primeira vez, uma pergunta cuja resposta parecia interessar-lhe por si. — Debaixo de quê?


— De uma pilha de galhos. Na zona das fendas.


Ela escreveu qualquer coisa, mais devagar, num canto da folha que não parecia campo nenhum do formulário. Depois fechou a mola e pousou a prancheta.


— Fica em ata como captura pós-irrupção. Podes jogá-lo; a Liga aceita “capturas de emergência”, depois registra-o no centro pokémon. — Olhou para o Torchic, meio escondido atrás da perna do Calem, e a voz mudou meio tom. — Estreia-o.


Já andava para a beira da plataforma, para a luz branca.


— Do meu lado: Surskit e Vivillon, por esta ordem. Você tem direito a saber, primeira insígnia; nos próximos ginásios ninguém te diz nada. — Tirou as duas Pokébolas do cinto de trabalho e ficou de costas para a tenda, no centro exato da luz. Nem precisou de escolher o sítio. — Você. — Ao Trevor, com a cabeça a apontar uma plataforma à direita, fora da luz, dois bancos e um extintor. — Zona de assistência. Se pisar o campo com a batalha a decorrer, é falta do desafiante, e eu marco-a. Não é pessoal; é a regra.


E ao Calem, enquanto o Trevor atravessava:


— Regras ditas, papel assinado, time declarado. A partir do momento em que eu soltar, é oficial. Pronto? 


A Étoile desceu do ombro dele sozinha, sem ordem, e pôs-se-lhe à frente na madeira. A Viola olhou para isso — para a Clefairy a tomar posição antes de qualquer comando — e a mão dela subiu dois dedos na direção da máquina pousada na mesa. Parou a meio. Voltou à Pokébola.


Calem abanou a cabeça. 


— Surskit — disse, e soltou.


O Surskit saiu da luz vermelha já em movimento, e o movimento estava errado de uma maneira que levou um segundo a decifrar: as quatro patas finas não tocavam a madeira. Assentavam num colchão de ar preso em cerdas finas demais para o olho, e a película de água condensada nas tábuas — a mesma que fizera o Torchic patinar a travessia inteira — virava pista debaixo dele. 


O bicho patinava na água do próprio ginásio, sem atrito, sem custo, e cada volta deixava no chão molhado um arco limpo.


O ginásio inteiro era húmido. Ou seja: o ginásio inteiro era pista dele.


— Abertura — disse a Viola.


O Surskit parou, firmou, e das antenas soltou-se um cheiro adocicado que atravessou o campo em dois segundos, pesado, de fruta passada ao sol. Calem sentiu-o entrar pelo nariz e sentiu o próprio pensamento ficar meio passo mais lento, uma sala a abafar. 


Ao lado dele a Étoile sacudiu a cabeça com força, uma, duas vezes.


Química. 


Ela abria com química, saturando o ar antes do primeiro golpe. 


A Clefairy entrou no campo no passo dela, e o contraste com o patinar nervoso do Surskit dividiu a plataforma em dois tempos diferentes.


A lama veio de baixo, num giro — compacta, rápida demais para o corpo pequeno que a cuspiu e apanhou a Étoile. Ela rodou meia volta com o impacto e ficou. Doeu; o braço encolhido dizia-, mas era só dor, sem multiplicador escondido, e Calem riscou a primeira linha da lista. 


O polegar dele tinha começado a bater na perna, marcando as trocas. Ele não deu por nada.


— Exposição longa.


As bolhas eram densas, com peso de água dentro, e rebentavam em cima da Étoile como socos molhados. Quando ela avançou de novo, vinha revestida de uma película que não saía — e mais lenta, os movimentos com um atraso pequeno que antes não estava lá. 


Água agarrada ao corpo. 


Peso morto em cada gesto.



Camada sobre camada: cheiro para embotar, água para pesar. Ela estava a compor. A certa altura a fotografia estaria pronta e o disparo final seria só consequência. Compor leva tempo — e tempo era a única coisa que dava para roubar.


— Étoile. — Calem baixou a voz e fez o gesto pequeno, o de casa e então assobiu. Pedia que cantasse. 


A Clefairy sentou-se no meio do campo molhado, fechou os olhos e cantou. 


Três notas finas, desafinadas, tristes de uma maneira que não combinava com nada ali. 


Durante cinco segundos não aconteceu coisa nenhuma. 


Depois os arcos do Surskit alargaram. As antenas desceram. Uma pata falhou o apoio, corrigiu, falhou de novo — e o bicho dobrou-se todo ao mesmo tempo, devagar, uma barraca a fechar, e ficou dormindo no meio do campo com o próprio perfume ainda no ar por cima.


— Contraluz — disse a Viola, seca, e nada respondeu.


— Voz.


O grito afiado atravessou o campo — de som não se desvia — e o Surskit acordou já a cair, escorregou nas próprias bolhas, bateu de lado, não levantou.


A Viola recolheu-o com um movimento que já vinha a meio antes de o bicho acabar de cair. Não disse nada sobre a derrota. 

— Você conta.


E soltou a segunda bola antes de ele perceber o que aquilo queria dizer.


A Vivillon subiu para cima dos focos e ficou lá, e o ginásio pareceu montado para aquele momento — talvez estivesse; tudo ali era dela —, a criatura enorme aberta contra o escuro, o pó das asas a arder na luz branca, poeira de gesso num raio de sol. 


Bonita à maneira das coisas que estão muito acima e não têm pressa.



— Vai — disse Calem, com a mão aberta e as bolhas da palma a arder, e o Torchic foi. Pequeno e terrestre, ainda torto da madeira molhada,  para debaixo de um predador com asas.


— Revelação.


A Vivillon bateu as asas uma vez, com força, e o que desceu não era poeira: escamas, cada uma menor que um grão de farinha, milhares, soltas num véu amarelo que ficou suspenso na luz e depois assentou, devagar, ocupando o ar à volta do Torchic como um clima.


 O bicho saltou de lado. 


Não se salta para fora do ar.


 Respirou aquilo.


O efeito não foi teatral, e por isso foi pior. 


O Torchic deu dois passos e o terceiro saiu emperrado. Deu mais um e a pata respondeu tarde. E Calem viu, com uma nitidez que preferia não ter, o que se passava dentro do bicho: as ordens continuavam chegando.


— É no pulmão! — A voz do Trevor veio alta da zona de assistência; estava de pé, as mãos no cabo de guia. — Não deixes... o pó, ele não pode respirar mais daquilo! Tira-o da nuvem!


O corpo tentava, os músculos tremiam de tentar, mas qualquer coisa entre o nervo e a carne fora cortada, e o Torchic ficou no meio do campo disparando comandos para um corpo que deixara de atender.


Calem chamou pelo nome. O Torchic arrastou-se dois passos para fora do véu amarelo, e respirou, e o peito assobiava.


E a Viola parou de falar.


Calem levou três trocas a perceber que aquilo era o contra-ataque. Até ali ela anunciara cada lance — abertura, exposição, revelação — e ele contara em cima da voz: a cadência, o intervalo entre o comando e o golpe.


Era o método dele, ler o ritmo do adversário e chegar meio passo antes. 


Agora não havia voz. 


A Vivillon caçava sozinha, num silêncio treinado, e o silêncio não tem cadência. O polegar do Calem bateu na perna à procura de um tempo que já não existia.


Olhou para a Viola. Estava parada na beira do campo, os braços cruzados por cima da máquina, olhando para ele. Vi como jogas. Agora joga sem isso.


A borboleta desceu.


Não atacou de frente. Passou rente, o zumbido áspero das asas a bater em cima do Torchic como uma lixa de ar, e subiu, e desceu do outro lado. E o vento das passagens, rajadas curtas, dirigidas, tinha um destino: cada rajada arrastava o Torchic meio palmo na direção das tábuas molhadas, onde as garras dele não pegavam. 


Calem viu o desenho da coisa e sentiu frio.


 Ela estava pastoreando-lhe o bicho. 


Encurralando uma presa terrestre, travada, no único canto do campo onde a presa não conseguiria sequer ficar de pé. Sem pressa nenhuma. Caça de quem tem asas contra quem não tem nada.

O Torchic escorregou. 


Firmou. 


O peito assobiava, a terceira pálpebra descia num dos olhos, e ele continuava tentando obedecer ao último nome, virado para o Calem, à espera da ordem seguinte com o corpo a desligar por partes.


Trocar já não dava. E mesmo que desse: recuar agora era pagar o preço e recusar a mercadoria.


— Fogo — disse Calem, com o punho fechado, e a voz saiu mais alta do que ele queria.


O corpo tentou. O peito encheu, o pescoço esticou — a paralisia mordeu no meio, e o que saiu foi uma faísca cuspida que morreu a dois palmos. A Vivillon passou por cima de novo. O Torchic caiu de lado, levantou-se com as pernas em direções diferentes, ficou.


— Fogo.


E dessa vez o corpo obedeceu.


O Torchic firmou as pernas emperradas, encheu o peito até parecer que rachava, e soltou — não uma faísca: uma golfada, uma língua de fogo alaranjado que subiu em diagonal e apanhou a Vivillon de baixo para cima, em cheio na asa esquerda.


O grito da borboleta não parecia de inseto. 


As asas bateram sem compasso, despejando pó em nuvens, e ela despencou dois metros antes de se segurar no ar. 


O cheiro chegou à plataforma um segundo depois, e Calem conhecia-o sem nunca o ter sentido: cabelo queimado. A asa esquerda tinha um continente escuro comido no desenho, as bordas ainda a fumegar, e onde a escama ardera ficara uma membrana nua, cinzenta, que deixava passar a luz dos focos.


O ginásio ficou em silêncio um instante. O Trevor estava de pé.

E a Viola falou pela primeira vez em minutos, uma palavra só, a voz vinda de um sítio mais fundo:


— Infestação.


O que desceu da Vivillon não foi pó. Foi vida. Um enxame — coisas mínimas, aos milhares, um granulado escuro que caiu sobre o Torchic e não se dissipou: agarrou, entrou pelas penas, à procura da base delas, onde o sangue corre mais perto da pele, e ali ficou. 


O Torchic arrancou penas do próprio peito a tentar chegar àquilo, que não se bica nem se sacode. O assobio da respiração dele ouvia-se da beira do campo.


Ela já não podia ganhar depressa; ia ganhar devagar. 

Prendê-lo ali, deixá-lo ser drenado grama a grama, e que o fogo dele caísse junto.

E Calem fez a conta que não queria fazer, com o coração a bater-lhe nos ouvidos e o bicho a olhar para ele por entre o enxame: a Vivillon estava por um fio.


O fio era o Ember que já estava pago. 


Tirar o Torchic, era rasgar o recibo.


— Fogo — disse ele, e odiou o próprio tom, porque saiu firme.


O Torchic virou-se para a borboleta. As pernas falharam. Firmou. O peito encheu, esvaziou em nada, encheu de novo — e a paralisia venceu. 


O bicho ficou rígido meio segundo, tremendo, ardendo por dentro de uma coisa que não saía, e a Vivillon passou rente com a lixa de ar, e o enxame apertou, e o pequeno 


Torchic caiu.


Tentou levantar-se. Levantou meio corpo. Deitou e Calem soube que ali não houve decisão nenhuma, só o fim da corda.


Deu por si já no meio do campo. Ajoelhou na madeira molhada, recolheu o bicho com as duas mãos, e ficou um instante com a bola fechada na palma, quente, as bolhas da pele a arder contra o metal.

— Custou-te um — disse a Viola, do lado dela, num tom de contagem. — E você sabia disso quando o deixou em campo.


Calem levantou-se. Não respondeu, porque a única resposta honesta era sim, fiz a conta com o bicho dentro dela, e ele não queria ouvir-se a dizê-lo.


— Étoile.


A Clefairy entrou pela segunda vez.


 A Vivillon, livre do vínculo, subiu de novo para a luz,  mas subiu mal, aos arrancos, a asa queimada a falhar o compasso, a membrana nua a deixar passar claridade a cada batida. Lá de cima desceu vento, rajadas batidas que fizeram a Étoile cravar os pés e inclinar-se e aguentar. 


Vento; era o que restava à borboleta. A mulher e a criatura pareciam sabê-lo ao mesmo tempo.


A Viola não deu comando nenhum.


Levantou a máquina.


E a Étoile começou a acender.


Não foi de repente. Nasceu do peito como nascem as brasas quando alguém sopra: um calor primeiro, uma claridade rosada depois, subindo pela garganta e pelas orelhas até ao ar em volta, e o campo mudou de cor, o branco duro dos focos a amornar onde a luz dela tocava. Calem já a vira brilhar — no torneio. Nunca assim. Nunca com esta fome.


Viu a luz chegar à máquina.


Viu porque estava olhando para a Viola no momento errado: a claridade rosada entrou pela objetiva e abriu dentro do vidro, desdobrada nas lentes em anéis, um dentro do outro, halos cor-de-rosa empilhados no fundo escuro do tubo, e por um instante a máquina dela pareceu acesa por dentro, um olho com fogo atrás. 


A Viola não a baixou. 


O dedo disparou. O estalo seco, uma vez, outra, cada disparo com aquele incêndio pequeno dentro do vidro.


— Étoile — disse Calem. — Voz.


A Clefairy abriu os braços, encheu o peito, e o som e a luz saíram juntos. O grito atravessou o campo, apanhou a Vivillon em cheio no voo trocado, e a borboleta dobrou no ar — as asas a fechar como um livro que cai — e desceu, e bateu na madeira, e não se mexeu mais.


E a luz não apagou.


Foi isso que Calem viu, no silêncio depois da queda: a Étoile ainda acesa no meio do campo, o golpe dado, a adversária no chão.


A claridade rosada dela inteira puxada para um lado, como uma agulha de bússola presa a um norte que não era nenhum dos que estavam ali, só parou quando ela deu uma investida final na borboleta que a fez cair para próxima de Viola. 


A Viola baixou a máquina muito devagar. Estava branca.


— Ganhou — disse. A palavra saiu administrativa e a cara não. — A insígnia é sua.


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***

Ficou parada mais um momento. 


Depois qualquer coisa nela arrumou-se, e foi à tenda buscar uma caixa pequena de madeira.


Calem atravessou o campo. 


Ela abriu a caixa: lá dentro, sobre feltro, uma fila de insígnias iguais, o escaravelho pequeno de metal esverdeado. Tirou uma e não lhe deu logo. Ficou olhando para ele, outra vez com o olhar do princípio, o que trabalhava.


— Sabe o que eu fotografo numa batalha? Não é o golpe. O golpe, qualquer ecrã apanha. — Rodou a insígnia nos dedos, devagar. — Eu fotografo o treinador no meio da troca, quando o bicho dele está no ar e já não há nada a fazer senão esperar. É aí que as caras dizem a verdade. Uns rezam. Uns fecham os olhos. — Olhou-lhe a cara, a medi-la para um retrato que não anunciou. — Você conta. Vi você batendo o tempo com o polegar, contra a perna, as trocas todas. 


Calem não tinha dado.


 Fechou a mão sem querer.


— O teu jogo inteiro está construído para não precisar de confiar em nada. Nem na sorte, nem no bicho. Em ti ainda menos. Só na conta. — O tom não acusava; arquivava. — E a conta chegou-te hoje, contra mim, num campo pequeno, com regras, mas eu digo-te o que vi da minha ponta: houve um momento, quando a ave caiu, em que paraste de contar. Três segundos, talvez. Atravessaste o campo sem calcular o campo. 


Posou-lhe a insígnia na palma e fechou-lhe os dedos por cima, num gesto rápido, quase administrativo. 


— Lá mais para a frente, nesta Liga ou fora dela, vai dar com uma coisa que não cabe em conta nenhuma. Nesse dia, os três segundos valem-te mais do que isto. — Soltou-lhe a mão. — É um conselho. 



Fechou a caixa das insígnias. 


E ficou com as duas Pokébolas na mão, sem as prender ao cinto, olhando de um para o outro — do Calem ao Trevor, do Trevor ao Calem — por um tempo que passou do confortável, pesando uma coisa cara antes de a gastar.


— Conheci uma pessoa que olhava para as coisas como vocês os dois olham — disse, por fim. — Que não conseguia parar de olhar. Passei quinze anos a evitar gente com esse olhar, porque sei como acaba. — A mão apertou as duas pokébolas. — E vou fazer agora a coisa mais burra que fiz nestes vinte anos.


Soltou as duas ali mesmo, no meio do campo.


O Surskit e a Vivillon saíram da luz novamente.


E a Viola virou as costas. 


Foi até à mesa da tenda, abriu a máquina, começou a trocar o rolo — os mesmos gestos do início, por tato, sem pressa — enquanto no campo dela, a meia dúzia de passos, a borboleta que vinte minutos antes caíra com a asa comida pelo fogo subia agora direita na luz, o compasso limpo, o desenho sem uma falha. O Surskit fazia círculos frescos, firme, um bicho saído de uma boa noite de sono. Ela não olhou uma única vez.


Calem olhou para a asa. Olhou para a mulher de costas. E disse:


— Eu queimei essa asa.


— Queimou — disse a Viola, sem se virar.


— Faz quase meia hora.


— Vinte e cinco minutos e dez segundos. — Fechou a tampa da máquina. O estalo seco. — Eu cronometrei. Faço isto há duas semanas.


— Então não é teste. — Trevor deu um passo para dentro do campo. — A senhora quer que a gente veja. Podia ter guardado os dois na bola e a gente ia embora daqui sem saber de nada. Soltou porque quer alguma coisa. — Não levantou a voz; era o tom de quem confere um preço. — Diga o que é, e a gente decide se paga.


A Viola virou-se. Olhou para ele um momento comprido, e o que lhe passou pela cara foi recálculo, não irritação. Calem conhecia aquilo de mesa de batalha: a cara de alguém que preparou uma abertura e viu o adversário não entrar nela.


— O teu amigo teria dado três voltas antes de chegar aí — disse ela.

— Por isso ele repara em coisas que eu não reparo. — Calem sustentou o olhar. — E por isso eu pergunto o que é que ele ainda está a mon—


— Os dois métodos funcionam  — disse Trevor. —  mas antes de negociar seja o que for, eu digo o que já sei. Para ninguém nos vender o que a gente já tem. — Levantou um dedo, e era para a Viola, não para o Calem. — Não há aqui máquina de tratamento. A tenda é equipamento de revelação; eu olhei. Poção não refaz asa queimada. Encosta ferida, e a senhora não lhes tocou depois da batalha. Ninguém tratou. Eles trataram-se sozinhos. Em meia hora.


— Vinte e cinco minutos e dez segundos. — disse a Viola. — E estão os dois enganados numa coisa: isso não é o estranho. Bicho sara; sarar é o que a vida faz. O estranho é o gradiente. — Veio andando até à beira do campo, e o Surskit acompanhou-a, deslizando. — Um Weedle da equipa de limpeza magoou-se na rua central a semana passada. Três dias para fechar a ferida. O mesmo corte, num bicho daqui de dentro: um dia. Encostado à parede do fundo — apontou com o queixo a parede atrás da tenda —, uma tarde. Este ginásio é um dos  últimos prédios da cidade. Atrás daquela parede não há rua. Há mato. 


 Cruzou os braços por cima da máquina. 


— E há uma conta que não fecha, e é a única que me interessa. — O queixo apontou a Vivillon. — Refazer uma asa daquelas são milhões de células novas. Divisão celular, proteína nova. Isso custa energia, e custa muita — mais do que esse bicho come numa semana. Ele refez em vinte e cinco minutos. Diga você, que conta: de onde veio a energia? Da comida não veio. De mim também não. — Parou ali, como quem chega ao fim do que sabe dizer em voz alta sobre uma coisa que ainda não fechou. — É a única conta desta cidade que ainda não consegui acertar.


— A senhora mandou-me chamar por causa disso — disse Calem. — Não foi lista nenhuma.


— Foi lista também. — Ela não pestanejou. — Mentira boa dispensa mentir: os quarenta e três nomes existem, a cidade está rebentando pelas costuras, e eu quero toda a gente fora, mas admito, eu vi a tua Clefairy no ecrã do torneio, do outro lado da cidade, numa imagem má — e aquilo não era brilho de golpe. Golpes, conheço-os todos. Aquilo acendeu de dentro. — Os olhos dela foram à Étoile, no ombro dele, e ficaram. — Precisava de ver de perto. Estranhei que chegasse apagada. Depois acendeu na hora que importava, e apontou para a parede errada. Para o meu mato. — Voltou ao Calem. — Ganhaste a insígnia limpa, mas eu tinha-te dado a batalha de qualquer maneira, só para ver isso. Pronto. Está pago o que eu devia.



— Então agora somos nós que devemos — disse o Trevor.

— Nesta cidade a tarifa é recíproca. — Ela esperou.


Calem olhou para o Trevor. O Trevor fazia contas e Calem viu o momento em que decidiu, e viu que ia pagar com a peça cara.


— A minha Flabébé anda meio estranha também.— disse o Trevor. — As pétalas dela... não é um padrão comum


— Desde a irrupção?


— Desde que chegamos a Santalune.


A Viola não se mexeu. 


Qualquer coisa na cara dela mudou de sítio, e Calem, que passara a manhã a ser lido por aquela mulher, viu pela primeira vez a leitura correr ao contrário. 


— Isso vale mais do que você pensa — disse ela, devagar.


— Eu sei quanto vale. Por isso paguei com isso.


— E eu completo — disse Calem. — A Étoile não brilha desde sempre. Foi só no torneio, agora que você citou o mato, isso dá em direção da floresta. Se o seu gradiente estiver certo, o brilho dela é um mapa. Quanto mais perto, mais acende.


A Viola olhou para ele, e desta vez demorou.


— Eu levava uma semana a montar isso com fotografias — disse. — Vocês os dois juntos são um problema para alguém. Espero que escolham bem para quem.


Foi à tenda e voltou com um envelope pardo, gasto nas dobras, e tirou uma fotografia e estendeu-a — ao Calem.


Era a floresta. A orla, ao fim da tarde, as copas escuras contra um resto de céu. E entre os troncos, no fundo, onde devia ser só escuro, havia claridade. Nem fogo nem lâmpada: uma luz estranha, difusa, subindo do chão por entre as árvores, sem fonte nenhuma.


— Há cinco dias. Tenho vinte iguais. — A Viola recolheu a foto antes que o Trevor lhe pegasse, e guardou o envelope debaixo do braço. O gesto era claro: viram; não ficam com ela. — E agora vou contar uma coisa uma vez só, do tamanho que eu escolher, e não respondo a perguntas sobre ela. — Esperou até os dois perceberem os termos. — Quando eu era menina, uma mulher andou fazendo perguntas sobre essa floresta. Juliette. Desapareceu, e nunca ninguém soube. Anos depois, eu e a minha irmã cismamos de refazer o caminho dela. Novas e burras, convencidas de que éramos as primeiras a reparar em alguma coisa. Desistimos. As duas. — O envelope apertou-se-lhe debaixo do braço. — É todo o tamanho que essa história tem hoje.


— A senhora mediu duas semanas — disse Calem. — Tem opinião. Diga.


— Tenho. — Olhou para os dois, um de cada vez, demorando em cada um o tempo de um enquadramento. — Gente não desaparece por causa de árvores. Desaparece por causa de homens. Se vão puxar esse fio, puxem pelo lado dos homens


O silêncio a seguir tinha o barulho de fora dentro dele, fundo, contínuo, vindo do lado que a luz da Étoile tinha apontado.


Foi o Trevor que o quebrou.


 E a voz dele veio sem peso nenhum, que era sempre o pior sinal.


— A senhora cobra tarifa recíproca. Então eu pago mais uma. De graça. — Deu um passo. — No dia da irupção antes das sete, com a cidade já às escuras, eu vi a senhora na porta lateral do ginásio. Com o prefeito.


O Surskit parou de deslizar.


A mão da Viola subiu até à máquina no peito e fechou-se na correia.

Trevor não desviou o olhar.


— Então me diga uma coisa. Quem puxou quem?



Capítulo 05

 


Capítulo Cinco

Padrão ou Coincidência

Trevor acordou antes do despertador com o pescoço torto. 


Tinha dormido com o braço debaixo da cabeça e a mão formigava-lhe agora, e ficou a abri-la e a fechá-la à espera do sangue, sem pensar em mais nada durante um bocado.


Do canto vinha a respiração de Calem, funda. A cama do canto era sempre a dele, a única que apanhava a porta toda sem ele ter de virar a cabeça. Da de Shauna não vinha som, tinha-a ouvido sair antes de o céu clarear — o terceiro degrau a ranger, como rangia desde a irrupção — e voltara a adormecer.

Pokédex de Kalos

 


Abaixo você irá encontrar uma Pokédex completa da região de Kalos, incluindo também as Mega Evoluções atualmente conhecidas. No futuro, pretende-se melhorar esta organização através da divisão dos Pokémon pelas diferentes áreas de Kalos — Central, Coastal e Mountain — bem como pela inclusão de pokémon de outras regiões presentes nos jogos XY e futuramente Legends Z-A, então tenha um pouco de paciência por favor!!. Esta estrutura permitirá uma navegação mais intuitiva, contextualizada e fiel à experiência da região de Kalos. Espero que goste!

Capítulo 04

Capítulo Quatro

Victory Royale

O Centro Pokémon de Santalune não fechou. Não podia fechar — era infraestrutura da Liga, tinha obrigação de serviço contínuo, e havia treinadores com Pokémon na sala de urgência que precisavam de estabilização antes de qualquer coisa.

Capítulo 03

Capítulo Três

Confusão em Batalha!

O apito soou.


Os três da Academia ocupavam o centro e o norte. Tierno e Shauna estavam no sul, com ele. O Dunsparce estava no terço leste, imóvel. 

Especiais

 

Sabe aquele gosto de querer mais depois que cada capítulo termina? Os Especiais são exatamente esse "algo a mais" que você nem sabia que precisava. Enquanto a trama principal segue seu curso, é aqui que as engrenagens nos bastidores ganham vida: segredos antigos vêm à tona, personagens que cruzam a história em poucas cenas ganham profundidade e reviravoltas inesperadas mostram que até mesmo um encontro aparentemente comum pode carregar um peso enorme para o que está por vir.
Extras

 

Imagine entrar nos bastidores de uma história que você já ama, mas sem compromisso — só pelo prazer de explorar. Aqui você não precisa se preocupar em acompanhar cronologias ou teorias complexas; é lugar de descobrir as trilhas sonoras que embalam cada momento emocionante de Kalos  ou se encantar com as fanarts que os próprios leitores criaram e até mergulhar um pouco no que eu penso sobre os jogos que inspiram tudo isso.

É uma extensão do carinho que tenho por esse universo e um convite para você fazer parte dele para além das palavras. Se você gosta de sentir uma história com todos os sentidos — ouvindo, vendo e trocando ideias —, os Extras vão te fazer sentir em casa.

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De onde parou