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Saturday, May 02, 2026

Capítulo Quatro

Victory Royale

O Centro Pokémon de Santalune não fechou. Não podia fechar — era infraestrutura da Liga, tinha obrigação de serviço contínuo, e havia treinadores com Pokémon na sala de urgência que precisavam de estabilização antes de qualquer coisa.


Mas estava no limite.


A fila estendia-se pela calçada, uma acumulação de pessoas que tinham aparecido nas horas seguintes ao colapso da arena, cada uma com a sua história, cada uma com a sua urgência. Um rapaz com um Litleo no colo, as patas dianteiras enfaixadas com gaze improvisada. Uma rapariga mais velha, vinte e poucos anos, com um Furret enrolado ao pescoço como uma echarpe viva, o focinho do Pokémon a tremer. Um homem de uniforme de carpinteiro com uma caixa de ferramentas numa mão e um Ralts na outra.


Não eram só treinadores. Havia moradores de Santalune com Pokémon domésticos feridos pelos crescimentos súbitos — animais presos em raízes que não estavam ali de manhã, apanhados por galhos que desabaram sem vento. Um casal de idosos na fila tinha um Meowstic nos braços. A mulher explicou a quem quis ouvir que o Pokémon levou um galho na cabeça quando a árvore da rua deles cresceu cinco metros em vinte minutos.


— Não caiu — disse ela, a voz trémula. — Cresceu. A minha árvore cresceu cinco metros enquanto eu olhava para ela.


O marido tocou-lhe no braço. Ela calou-se.


Nenhum dos dois disse mais nada. A fila avançou um passo.

Calem estava sentado no muro em frente ao Centro.

Não dentro — não havia espaço, e Étoile já tinha sido tratada. A Clefairy estava dentro da Pokébola, a descansar. Os outros estavam ao lado dele: Shauna com o Litleo tratado e enfaixado, Tierno com o Budew estabilizado mas ainda com o caule partido, Trevor a rever dados.

O muro era baixo, de pedra calcária, desgastado pelo tempo e pelos corpos de quem se sentava ali a esperar. Calem apoiou os cotovelos nos joelhos e deixou a cabeça cair. O cansaço não era só físico — era o tipo de cansaço que vem depois de a adrenalina descer, quando o corpo percebe que pode parar mas ainda não sabe como. 

O que diabos tinha acontecido com Étoile?

Shauna estava ao lado dele. O Litleo no colo, as patas dianteiras enfaixadas. Não tinha adormecido — os olhos estavam abertos, a observar quem passava.

— Quantas pessoas achas que ainda estão na fila? — perguntou ela.

— Umas trinta — disse Tierno, batendo os pés, sem olhar para o ecrã. Estava a contar de cabeça. — Mais os que já foram atendidos e estão lá dentro à espera de alta.

Ninguém disse nada.

A fila movia-se devagar. Uma enfermeira de bata azul-claro saiu da porta automática com uma prancheta e percorreu a fila de olhos, a caneta a tocar em cada nome, cada caso, cada prioridade. O Chansey da receção trabalhava sem parar, a eficiência de quem desligou a parte que sente e ligou a parte que faz.


Os bombeiros chegaram primeiro. Depois a polícia.


Os bombeiros eram de fora — Santalune não tinha brigada própria, só um destacamento regional que cobria três cidades. Vieram de Lumiose, de camião, com equipamento de corte que não estava desenhado para raízes.


— Isto não é uma árvore caída — disse o comandante, um homem de cabeça rapada e semblante permanente de cansaço. Falava ao Holo Caster, não às pessoas à volta. — As raízes continuam a crescer. Cortamos um segmento, duas horas depois está mais comprido. Não é regeneração. É...


A ligação caiu ou ele se afastou.


Os polícias eram locais. Uma agente de cabelo encaracolado, trinta e poucos anos, a farda bem passada apesar da hora. Percorria o perímetro da praça com uma lanterna, não à procura de nada em particular — apenas a garantir que a escuridão não escondia algo que devia estar à luz.


— Têm instruções para não entrar na floresta — disse ela, quando passou perto do muro onde Calem estava. Não estava a falar com eles especificamente. Estava apenas a pensar em voz alta. — Vieram de fora e trouxeram as instruções com eles.


— E os locais? — perguntou Shauna.


A agente fitou-a. Depois a floresta.


— Os locais não precisaram de instrução.


Continuou a andar.

***


O padeiro da rua lateral apareceu com pão e água.


Não foi anunciado. Uma hora, não havia nada. Na hora seguinte, havia uma banca improvisada em cima de dois barris vazios, com fatias de pão cortadas e garrafas de água empilhadas. Um homem de avental branco manchado de farinha servia sem perguntar quem precisava, porque toda a gente precisava.


— Não aceito dinheiro — disse ele, quando um treinador mais velho tentou pagar. — Pagam-me amanhã. Hoje ninguém paga.


Tierno pegou numa fatia de pão. Não comeu. Ficou a olhá-la durante uns segundos, depois guardou no bolso.


O Budew no ombro dele abriu as folhas um pouco. Apenas um pouco. O suficiente para a luz entrar.


Calem viu uma garotinha de dez anos segurando uma lanterna para um senhor mais velho.

O senhor era veterinário — reformado, a bata pendurada no cabide de casa há cinco anos. Mas quando ouviu o que estava a acontecer, apanhou a mala e veio. Agora estava de joelhos no chão, a tratar do tornozelo torcido de uma mulher que tropeçou numa raiz ao fugir da arena.


A garota segurava a lanterna com as duas mãos, os braços esticados, a luz a tremer ligeiramente. Não lhe perguntaram se queria ajudar. Ela simplesmente apareceu e começou a segurar a lanterna.

— Assim está bom? — perguntou.

— Assim está perfeito — disse o veterinário.

A mulher com o tornozelo torcido não chorava. Tinha os dentes cerrados, as mãos agarradas ao joelho da perna boa. Quando o veterinário lhe tocou no tornozelo, ela fez um som que não foi grito nem suspiro.

— Vai sarar — disse a garota, sem ninguém lhe perguntar. — As coisas saram. O meu joelho sarou.

A mulher fitou-a. Depois acenou com um breve sorriso.


O veterinário continuou a trabalhar e a garotinha continuou a segurar a lanterna.


***


Estava sentada no mesmo muro, a dois metros do grupo.

Calem não a tinha visto chegar. Ela simplesmente estava ali de repente, como se tivesse saído da sombra em vez de ter caminhado pela rua. O uniforme de uma escola secundária de Santalune — blazer cinza, saia cinzenta, ambos cobertos de terra vegetal. A mochila de tecido, os joelhos com terra seca. Uma boina pendurada na alça da mochila.

Era treinadora do fletchling.

O grupo não falava. O silêncio era do tipo que convida — não o silêncio que separa, o silêncio que acolhe quem quiser juntar-se.

Ela juntou-se.

— Em Março — disse ela, sem olhar para ninguém, os olhos fixos na floresta, — a borda norte cresceu três metros numa semana. Puseram na conta do degelo precoce.

Shauna virou-se para ela. A garota não olhou de volta.

— Em Junho, um grupo de Pokémon Tipo Planta apareceu fora do território habitual. Mais perto das casas do que alguma vez tinham estado. Puseram na conta de perturbação de habitat. Demasiados treinadores.
Trevor já tinha o Holo Caster na mão. Não precisava de registar — estava a ouvir.

— Em Agosto, o ribeiro que atravessa a floresta a oeste mudou de curso dois metros para a esquerda. Sem cheia. Sem tremor de terra.

A garota fez uma pausa. Os olhos continuavam fixos na linha escura das copas.

— Puseram na conta de... não sei. Não puseram em conta nenhuma. Não houve explicação.

— Como sabe disso tudo? — perguntou Trevor.

A garota virou a cabeça. Fitou-o com um ar que não era desafio, apenas cansaço.

— Vivo aqui.

Ficou em silêncio durante uns segundos.

— O meu avô diz que a floresta está a falar. Diz que nós deixámos de saber ouvir.

Tierno não respondeu. O Budew no ombro dele tentou abrir as folhas.

A garota pegou na mochila. A boina vermelha balançou.

— Boa sorte — disse ela.

Foi. Não perguntou os nomes deles. Não deu o dela.

Calem ficou a vê-la afastar-se. O uniforme cinza desapareceu na penumbra entre a luz da lanterna e a sombra das raízes. A boina pendurada na alça da mochila balançou até ela virar a esquina.

— O avô dela... é o velho da boina. O que contava as Vivillon — disse Trevor, baixo.


Ninguém disse mais nada.

***

Shauna encontrou a garota de patins por lógica de Shauna. 

Já estava escuro, a maior parte das pessoas já tinha saído da praça, e Shauna estava a verificar se havia mais alguém que precisasse de ajuda nas ruas laterais. Não porque lhe pediram. Porque era o que se fazia.


A travessa dava para a borda norte. Não era uma rua — era um beco entre dois edifícios comerciais, fechado por um portão de ferro enferrujado, dobrado pelas raízes. O chão era calcário desgastado, com manchas de musgo seco.

A garota estava sentada no chão, as costas contra a parede, a Skrelp flutuando à sua frente a uma altura baixa. As glândulas estavam parcialmente vazias — a direita ainda inchada, a esquerda quase normal. O corpo translúcido pulsava com um púrpura fraco, irregular, como um coração que ainda não encontrou o ritmo.


Os dedos dela percorriam a lateral da Skrelp com um gesto lento, metódico. Polegar na base da glândula direita, deslizar até à ponta, repetir, quase como carícia.


Shauna reconheceu o gesto. Tinha feito versões dele centenas de vezes.


Não anunciou a chegada. Não disse nada. Apenas se sentou ao lado — não ao lado mesmo, a distância de um braço — e ficou em silêncio.


A Skrelp fitou Shauna. A garota de patins não.

Ficaram assim. Não muito tempo. Mas tempo suficiente para ser um momento em vez de um instante.

— A glândula direita está melhor — disse Shauna, baixo. — Ainda inchada, mas a cor voltou.

— Sei.

— A esquerda já drena normalmente.

— Também sei disso.

Shauna não disse mais nada. Ficou a olhar para a Skrelp. A Skrelp fechou os olhos.

Foi então que Calem apareceu. Tinha ido buscar a amiga — ou talvez apenas seguiu na direção em que ela foi. A travessa era estreita, mal iluminada, e ele viu a garota de patins antes de ela o ver.


O rosto dela, quando ela não sabia que alguém estava a olhar, não era o rosto da arena. Não era o sorriso de quem vai partir um brinquedo. Era mais velho. Mais quieto. A concentração de quem está a fazer um trabalho pequeno e importante, o tipo de trabalho que ninguém aplaude mas que precisa de ser feito.


Os dedos dela na Skrelp. A curva das costas. O cabelo colado à testa.


Calem ficou parado na entrada da travessa. Não sabia se devia avançar. Não sabia se devia recuar.


A loira encarou-o.

A fachada não voltou devagar. Voltou de uma vez. Os ombros endireitaram-se. A mão descolou da Skrelp como se tivesse sido queimada. Os olhos apertaram-se.

— Perdeu por causa do terreno irregular no canto esquerdo — disse ela. A voz era seca, rápida, o tom de quem está a dar uma informação que não pediram. — Devia ter visto isso antes.

Calem não respondeu de imediato.

Porque ela tinha razão. Ele tinha visto o terreno irregular, e depois, quando estava a lutar, esqueceu. Ou não esqueceu — não teve tempo de lembrar.

Ela levantou-se. A Skrelp subiu com ela, o corpo a ajustar-se automaticamente à altura do ombro. O tipo de sincronismo que não se treina — que se acumula.

— Não penses que somos amigos — disse ela.

E foi.

O som dos passos dela no calcário foi rápido, decidido – o som de alguém que não vai olhar para trás. Calem reparou no acessório preso à mochila rosa. Ao lado, conseguiu ler a tag: Serena Moreau.


Shauna ainda estava sentada. Não comentou. Apenas se levantou, estendeu a mão e tocou-lhe no braço uma vez — o toque breve de quem diz “já vi, já sei, vamos”.

Calem deixou-se levar.

***


O muro em frente ao Centro Pokémon estava mais vazio agora. A fila tinha diminuído. As pessoas que restavam eram as que não tinham para onde ir — treinadores de passagem que perderam os alojamentos na confusão, moradores cujas casas ficavam demasiado perto da borda da floresta e não queriam voltar sozinhos.

O grupo estava sentado na mesma ordem de antes, mas algo tinha mudado. O cansaço era mais fundo agora — o tipo de cansaço que não se resolve com uma noite de sono.

Trevor não estava sentado com o grupo.

Estava a uma distância suficiente para ter um ângulo de visão diferente sobre a praça. De pé, o Holo Caster na mão, o ecrã desligado. A Flabébé no ombro tinha as pétalas meio abertas, meio fechadas, pulsando de maneira estranha.


Trevor não estava a ver o grupo. Estava a ver a entrada do ginásio.


O prefeito de Santalune saíra do edifício municipal há vinte minutos. Trevor viu-o sair. Não da porta da frente — da porta lateral, a que dava para o beco entre a câmara municipal e o edifício dos correios. O prefeito era um homem de sessenta anos, cabelo grisalho aparado curto, o tipo de corpo que já foi atlético e agora é apenas sólido. 


Trevor sabia, pelas fotografias, que o prefeito normalmente sorria. Não agora.


Fez o percurso esperado. Falou com o responsável da polícia — uma mulher de semblante tenso que ouvia mais do que falava. Falou com o chefe dos bombeiros. Acenou para as câmaras de um jornalista de Lumiose que apareceu tarde demais para o colapso da arena mas cedo o suficiente para o aftermath.


Depois, quando as câmaras foram embora e a polícia se dispersou, o prefeito atravessou a praça em direção à entrada do ginásio.

Não entrou. Ficou à porta.

E Viola saiu.

Trevor não ouviu o que disseram — estava demasiado longe, mas viu.


Viola não era uma líder de ginásio qualquer. Era uma das mais novas da região, a mais talentosa, a que os jornais chamavam “a fotógrafa”. Trevor vira-a em entrevistas, em reportagens, em vídeos de batalhas. Era sempre a mesma: confiante, relaxada, o sorriso fácil de quem não tem nada a esconder.

Agora não sorria.

O prefeito falou. Viola ouviu. O rosto dela não mudou — mas Trevor conhecia o rosto das pessoas que estão a ouvir algo que já sabiam e não queriam confirmar. É um semblante específico. A mandíbula ligeiramente mais tensa. Os olhos a fixar um ponto que não está à frente deles.

Viola fitou uma vez a floresta, depois voltou para dentro do ginásio.

O prefeito ficou parado mais um momento. Sozinho. A mão direita fechada à volta de nada. Depois foi embora pela rua de trás, onde ninguém estava.


Trevor guardou o Holo Caster.

Não o atirou para o bolso. Não o fechou com violência. Guardou-o devagar, como quem guarda uma arma depois de a usar.

A Flabébé no ombro dele abriu as pétalas. Completamente. Pela primeira vez desde o início da noite.

Trevor voltou para o muro e sentou-se ao lado de Calem.

— Então, descobriu alguma coisa? — perguntou Tierno, zombando.

Trevor demorou a responder.

— O prefeito e a líder de ginásio... sabem de alguma coisa...


A floresta estava mais escura do que devia estar a esta hora. 


Era a densidade. As copas fecharam-se mais do que estavam de manhã, e a borda norte projetava uma sombra que cobria metade da praça.


A floresta continuava a crescer.

{ 1 Comentários... leia-os abaixo ou comente ! }

  1. Oiiiii Welfie!!!

    O mistério se aprofunda.
    As repercussões foram maiores do que eu pensei, trouxe mais peso para essa situação.
    Agora não sei se teremos a solução desse mistério agora nesse arco ou só depois em arcos futuros e teremos apenas a batalha com a Viola, que até ela aparecer no capítulo eu já tinha esquecido do ginásio. Esse trama da floresta está bem interessante.
    Inclusive essa conversa com o menina do fletching foi muito boa, cara. As descrições dos eventos, com e depois sem desculpas. Muito bom.
    E a Serena deve conhecer o Calem de antes para o detestar tanto assim ou ela é uma natural born hater mesmo kkkkkk
    E é isso, mas um ótimo capítulo e fico no aguardo da continuação, meu nobre!!!

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