Capítulo 02
O Festival do Pó de Asa
O Festival do Pó de Asa não tinha palco nem cerimónia de abertura.
Tinha simplesmente começado, como acontecia todos os anos: quando as primeiras Vivillon do corredor de migração pousavam nos telhados da Rua do Comércio e os moradores de Santalune reconheciam o sinal sem que ninguém precisasse de o anunciar. Não havia megafones, não havia cartazes. Havia apenas o silêncio que precedia o voo, e depois o som de mil asas a bater em uníssono, e depois as bancas a aparecer como cogumelos depois da chuva — primeiro uma, depois três, depois uma fileira inteira a ocupar o espaço entre as esplanadas e os barris da arena.
As bancas tinham a naturalidade de algo que parecia pertencer ali muito antes do torneio existir. Havia asas pintadas à mão em papel fino — pinturas reais, cada uma ligeiramente diferente da anterior, cada uma a refletir a visão de um artesão diferente. Frascos de pó de asa em gradações de cor que iam do branco puro ao azul-petróleo, passando por tons que não tinham nome em Kalos ou em qualquer outra língua que Calem conhecesse, vendidos com a seriedade de quem negocia especiarias raras.
Numa banca próxima, o dono servia chá de pétalas e explicava a origem da polinização a cada cliente com o tom de quem nunca se cansava de repetir a história — mas que, se o cliente prestasse atenção, revelava pequenas variações a cada repetição, como se a história também crescesse, também mudasse, também fosse viva.
Calem sentiu um peso na mochila.
Étoile remexia-se dentro da Pokébola com uma curiosidade contida. Tocou no botão com o polegar, um toque seco, breve. A confirmação de que algo ainda está ali, num bolso escuro, sem precisar de olhar. O peso aquietou-se. Ficou com o dedo no botão um segundo mais do que o necessário. Depois tirou.
Tierno parou na primeira banca. Não estudou os preços. Não comparou opções. Olhou durante três segundos para uma asa com o padrão de jardim, verde-claro com bordas amarelas, e comprou-a de imediato. O dinheiro já estava na mão, como se ele soubesse que ia comprar antes de ver o que havia para comprar.
— Quanto foi? — perguntou Trevor, sem levantar os olhos do Holo Caster.
— Não perguntei.
Trevor desviou o olhar do ecrã. Ficou a olhar para Tierno com aquela expressão que tinha quando algo não fazia sentido e precisava de processar antes de responder.
— Não perguntou o preço antes de comprar.
— Ela estava a pintar quando cheguei. — Tierno observou a asa na mão, virando-a contra a luz. O sol atravessava o papel fino e as veias ficavam visíveis — o que parecia sólido era principalmente espaço vazio. — Não ia interromper para negociar.
Trevor ficou em silêncio. Depois guardou o Holo Caster no bolso. A Flabébé no seu ombro mexeu-se, sentindo a mudança no humor do treinador.
— Ele faz isso sempre — Shauna disse, chegando ao lado deles sem fazer barulho.
— Não faz mal — Trevor respondeu. A voz saiu mais curta do que ele provavelmente queria.
Shauna virou-se para a Flabébé no ombro dele. Estendeu o dedo mindinho e o Pokémon agarrou-o por um segundo antes de largar.
— Já lhe deu um nome?
O ruivo apenas ajustou a alça da mochila.
— A Flabébé está bem assim.
Shauna aceitou aquilo com um aceno curto. Calem viu-a guardar a pergunta nalgum lugar — não esquecida, apenas adiada e continuaram pela praça.
O vento trazia o cheiro da floresta — seiva e terra fria, uma corrente de ar mais fresca que o resto da praça, como se a sombra das árvores tivesse cheiro próprio. A linha de copas projetava-se sobre os telhados a norte, visível de qualquer ponto da Rua do Comércio.
O corredor de migração cruzava a rua numa linha invisível que os moradores respeitavam por instinto. Não havia barreiras. Não havia placas. Havia apenas uma fita amarela desbotada no chão, gasta pelo tempo e pela passagem de milhares de pés, que qualquer pessoa nascida em Santalune reconhecia desde a infância. Era um desses limites que não precisavam de ser explicados — como a fronteira entre o quintal de uma casa e o do vizinho, que ninguém atravessava sem permissão, mesmo que não houvesse muro.
Um treinador forasteiro, contudo, não viu a fita.
Calem notou o momento exato. O rapaz — provavelmente de Cyllage, pelo corte do cabelo e pelo modelo desatualizado do Holo Caster — atravessou a linha com os olhos fixos no ecrã, os polegares a deslizar, o rosto iluminado pelo brilho azulado do visor. Não estava a fazer mal a ninguém. Apenas não sabia.
As Vivillon mais próximas desviaram-se em simultâneo — um ajuste automático de criaturas que pareciam conhecer aquele percurso de cor, mas o desvio propagou-se para trás como uma onda, cada grupo a reagir ao grupo à sua frente, a informação a viajar mais depressa do que qualquer som, até que uma secção inteira do voo ficou desorientada por dez segundos antes de se reorganizar.
Foi o tempo que levou para a mulher sair de trás da banca.
Tinha as mãos sujas de pó laranja e dourado. O pó que não sai. Que fica. Limpou as mãos no avental enquanto caminhava aceleradamente até ao rapaz, sem pressa, sem agressividade. Apenas a certeza de quem já fizera aquele percurso centenas de vezes.
Ela olhou para a fita. Depois para ele.
O treinador, percebendo finalmente, recuou um passo. O rosto mudou — primeiro confusão, depois vergonha, depois um medo rápido de ter feito algo terrível.
— Desculpe — disse ele. A voz falhou no meio da palavra. — Eu não sabia que...
— Não faz mal... — interrompeu ela.
Economia de palavras. Calem reconheceu-a. Era o mesmo tom que a mãe usava quando alguém fazia algo errado mas ela não precisava de castigar porque a vergonha já estava a fazer o trabalho.
A fita estava ali antes do rapaz nascer e continuaria depois de ele morrer.
Trevor já estava a documentar tudo com o seu rigor habitual — o ângulo da fita, a posição da mulher, o número estimado de Vivillon afetadas. A Flabébé no ombro dele observava o céu com uma quietude estranha, como se também estivesse a contar.
Calem tocou na mochila outra vez. A Pokébola estava quente — não de sol, mas do calor de Étoile lá dentro.
— Os números estão estranhos — Trevor disse de repente. Não levantou os olhos do ecrã, mas a testa franziu-se. — Com esse tanto de Vivillon... quase triplicaram em relação à média histórica. O recorde era de oitocentas e dezassete, registado há onze anos. O contador já vai em novecentas e quarenta e uma, e ainda são só duas da tarde.
Shauna levantou os olhos para o céu. Calem leu neles algo que não era bem admiração, nem preocupação — pelo menos não a preocupação óbvia, algo mais parecido com antecipação. Como se ela já estivesse a calcular o que novecentas Vivillon significavam para qualquer coisa que ainda não dissera em voz alta.
— Não deixa de ser impressionante... — ela disse.
À volta deles, a multidão apenas sorria. As crianças apontavam para o céu com dedos trémulos de entusiasmo. Os pais tiravam fotografias que ficariam desfocadas porque as asas moviam-se depressa demais. Ninguém — ou quase ninguém — estava a perguntar porquê.
Encostado a uma banca de frascos de pó, um velho de boina vermelha não sorria. Os lábios moviam-se em silêncio enquanto os olhos acompanhavam o voo — não com a boca aberta dos turistas, mas com a expressão cerrada de quem conta e não gosta do total.
Trevor não registou o velho. A Flabébé, no ombro dele, virou a cabeça na direção do homem. Depois voltou a olhar para o céu.
O organizador soprou o apito.
A carta estava na mesa.
A mesa da cozinha de Vaniville, a de sempre, com a marca de caneca que ninguém se dava ao trabalho de limpar.
Calem olhou para ela como olhava para os resultados das classificações de Youngster — os números ali, pretos no branco, a dizer-lhe o que ele já sabia.
Símbolo da Liga no canto superior esquerdo. Fonte institucional, limpa. O envelope já aberto com o corte preciso das tesouras da mãe — porque ela abrira antes, naturalmente, e depois deixara ali sem comentário.
Sem "lê isto", ou "pensa bem". Apenas o silêncio dela, que às vezes pesava mais do que palavras.
Prezado Calem Deschamps,
O sistema de registo da Liga de Kalos identificou a sua elegibilidade para participação no Programa de Jornada Oficial, com base em critérios de idade, residência e ausência de registo ativo anterior como treinador. Como Professor Regional credenciado pela Liga para a área de Vaniville e adjacências, fui designado para conduzir a apresentação inicial e distribuição de Pokémon iniciais para candidatos elegíveis desta região. Há outros jovens de Vaniville que receberam comunicação equivalente. Solicito a sua presença em Lumiose até dia quinze, às oito horas, para apresentação do programa e, caso opte por participar, início do processo de registo. Candidatos presentes no laboratório terão acesso à seleção completa de Pokémon iniciais oficiais da região. A participação não é obrigatória. A decisão é inteiramente sua.
Atenciosamente,
Prof. Augustine Sycamore
Ele conhecia aquela carta de cor. Não esta carta em particular — mas o tipo de carta. Tinha lido versões dela em fóruns, em blogs de treinadores falhados, em entrevistas com lendas que diziam "eu sabia que queria desde os cinco anos". A carta da Liga era um documento administrativo. Mas para ele, era a pergunta que vinha adiando há anos.
Vai arriscar?
Aos oito anos, derrotou o filho do perfeito da cidade numa batalha amigável — e o homem olhou para ele como alguém que reconhece talento numa sala que não esperava encontrá-lo. Aos doze, terminou as classificações regionais de Youngster no quarto lugar. Aos catorze, no segundo.
O topo estava ali. Sabia que podia, mas saber que se pode não é o mesmo que saber que se deve.
A Liga era um caminho de sangue, suor e sorte. Os holofotes mostravam os vencedores; os perdedores voltavam para casa a explicar que "não deu" — até que deixavam de tentar. Era uma pirâmide: no topo, os campeões nos autocarros; na base, os corpos de quem apostou tudo e perdeu.
Calem leu o nome no fim da carta outra vez.
Prof. Augustine Sycamore.
O mesmo nome que via nos ecrãs do Holo Caster desde pequeno. O mesmo tom de voz grave nas conferências sobre Mega Evolução. O mesmo homem que a mãe nunca mencionava sem ser perguntada — e mesmo assim, respondia com frases curtas, como quem fecha uma porta devagar.
Leu a carta três vezes. "A decisão é inteiramente sua."
Uma frase que queria dizer o oposto do que parecia.
Ao lado, a Pokébola de verniz vermelho ligeiramente mais barato. A oferenda da Liga para os que não podiam chegar a Lumiose.
— Vai? — a mãe apareceu no batente.
Ela não olhou para a carta. Não olhou para a Pokébola. Olhou para ele. O avental azul de sempre, as mãos secas num pano de pratos.
— Não — disse ele.
— Eu sei que vai.
Falou com a certeza de quem o viu crescer. De quem o viu ter um dom e treinar atrás de casa até os joelhos sangrarem. De quem o viu ficar acordado a ver batalhas da Liga com os olhos a brilhar — não por diversão, mas por qualquer coisa mais funda.
O pai não via isso. Via outras coisas. Via as classificações de Youngster como números num relatório escolar, coisa que se arquiva e se esquece; o tempo que Calem passava a treinar atrás de casa como energia mal aplicada. Uma vez, quando Calem tinha doze anos e voltara do regional em quarto lugar, o pai perguntara se tinha corrido bem. Calem dissera que sim. O pai assentira com a cabeça e voltara ao que estava a fazer, suas pesquisas.
Calem aprendera, naquele momento, que havia duas categorias de coisas no mundo: as que ficavam e as que não ficavam. O pai só via as primeiras. Passara os dois anos seguintes a tentar perceber em que categoria ele próprio estava.
— O Tierno já ligou. A Shauna passou cá antes do almoço. O Trevor ficou do lado de fora. Perguntaram se ia.
Calem não falou. Conseguia ver os três: Shauna a bater à porta com o código de três batidas, uma pausa, mais duas. Tierno algures atrás, a remexer-se. Trevor a uns passos, a observar.
Crescera com os três. Conhecia as feridas de cada um. Shauna e o dinheiro que comprava o que a atenção não dava. Tierno e a dança que o pai lhe negara. Trevor e o medo de falhar num mundo que só aceitava vitórias.
O grupo não iria partir sem ele. Porque a Jornada, para eles, não era uma prova individual. Iriam faze-la juntos desde os treinos na escola, desde as batalhas duplas contra as crianças de Aquacorde, desde as noites a ver o Campeonato no ecrã minúsculo do Holo Caster do Trevor. Partir sem um deles seria como jogar com regras diferentes.
Possível. Errado.
Havia três caminhos possíveis, e a carta não os explicava — mas Calem conhecia o sistema o suficiente para os conhecer: assinar e partir; assinar e ficar em Vaniville, devolvendo o Pokémon no fim do ano por inatividade registada; ou recusar agora, e dali a dois anos receber uma convocação para avaliação vocacional e um número de arquivo em Lumiose.
Não queria ser arquivado.
Não era bem o mesmo que querer ir.
Ao lado da carta tinha uma pokébola, oferecida pela Liga.
Abriu-a.
A luz materializou-se na mesa entre a carta dobrada e o copo de sumo que a mãe deixara ali há uma hora, e o Pokémon ficou a olhar para ele com aqueles olhos grandes, redondos.
Uma Clefairy.
Era do tipo Fada — versátil. Tinha estudado, como estudava tudo, com o cuidado metódico de quem prefere compreender antes de agir. Sabia também o que isso significava: a meta competitiva de Kalos não era desenhada para uma simples Clefairy. Era desenhada para velocidade, para pressão imediata, para poder bruto que forçava o adversário a reagir antes de escolher. Uma Clefairy podia crescer. Levaria tempo. E tempo era o recurso que ninguém no circuito dava de graça.
Ficou alguns segundos sem dizer nada. O Pokémon inclinou levemente a cabeça. Estendeu a mão. A Clefairy cheirou os seus dedos com uma seriedade desconcertante. Retirou a mão devagar.
— Senta.
A Clefairy olhou para ele. Não sentou. Apenas continuou a olhar, como se aquela palavra não lhe dissesse nada — e talvez não dissesse mesmo.
Iam ser bons parceiros de batalha? Era a pergunta que se supunha fazer neste momento. Calem não a fez. Não porque soubesse a resposta. Precisamente porque não sabia, e fazer a pergunta sem resposta possível parecia uma forma de desperdício.
A Clefairy voltou a inclinar a cabeça. Como se ela também esperasse.
— Vai, Zigzagoon!
O grito do oponente quebrou no final, a voz ainda a formar-se, os joelhos ralados, as mãos a apertar a Pokébola até os nós dos dedos ficarem brancos. Era pouco mais que uma criança — dez, onze anos, no máximo.
O Zigzagoon surgiu tropeçando no solo irregular, Ansioso, o Pokémon olhou para trás, para o treinador, como quem diz: Esta vendo onde esta me metendo?
Étoile não ocupou o centro da arena. Recuou — dois passos laterais, depois um para trás — os pés afundando na terra fofa da borda, os olhos fixos em Calem. Não no oponente. Não no Zigzagoon. Nele.
Calem sentiu o maxilar a apertar.
— Étoile, atenção — disse ele. A voz baixa, técnica, o tom que usava nos treinos quando queria precisão em vez de potência. — Usa o desnível. Avança em arco.
Étoile não avançou.
Deu um passo lateral, as orelhas a moverem-se freneticamente — não para o som do Zigzagoon, mas para o ruído da multidão. As palmas, os assobios, o barulho de fundo de centenas de pessoas a falar ao mesmo tempo. Demasiada informação. Demasiados estímulos.
Calem tocou na mochila. Gesto vazio — ela não estava lá dentro, estava ali, à sua frente, mas o hábito já se instalara, o gesto automático de quem confirma que algo está seguro.
O Zigzagoon investiu. O avanço foi mal calculado — derrapou no cascalho solto, as patas traseiras a patinar, a perder tração. Calem viu a abertura antes do Zigzagoon terminar o movimento. Flanco esquerdo.
Desprotegido.
— Étoile. Bate.
Dois sons. Curtos. Claros. O comando que ela já ouvira centenas de vezes nos treinos, nas rotas, na floresta, quando não havia multidão, quando era só os dois.
Étoile não se moveu. Ficou onde estava. As orelhas pararam de girar. Os olhos continuaram fixos nele, como se esperasse outra coisa — outra palavra, outro som.
O Zigzagoon colidiu com ela.
O impacto foi amador, leve até — o Zigzagoon nem sequer tinha velocidade suficiente para fazer dano a sério. Mas doeu porque Étoile nem sequer tentara desviar-se. Porque ela estava à espera. Porque Calem dera o comando certo, no momento certo, e ela escolhera não obedecer.
Calem engoliu a frustração. Não era o momento. Tentou outra coisa.
Assobiou.
O mesmo som curto que usara na manhã anterior da viagem, quando ela hesitara na soleira da porta, os olhos a medir a distância entre o interior seguro da casa e o exterior desconhecido. O som que ela associava a vem. O som que funcionara sempre.
Étoile avançou. Não para o flanco, não com técnica, não com a precisão que Calem queria — mas avançou. O pequeno corpo deslocou-se num movimento desajeitado, quase um tropeçar, e colidiu com o Zigzagoon por acaso. O impacto foi feio, nada que um juiz profissional aplaudisse.
Mas foi suficiente.
O Zigzagoon caiu. Levantou-se. Caiu outra vez. O oponente recolheu-o antes do segundo apito, o rosto vermelho, os olhos já molhados antes de ele tentar escondê-los.
Calem recolheu Étoile. Ela tremia.
Venceu.
Não sentiu alívio.
A mochila pesava.
***
A conversa aconteceu na sombra projetada pelo palanque, um retângulo de frescor efémero que encolhia a cada minuto à medida que o sol se deslocava no céu.
Tierno batia o pé contra a terra batida. Um ritmo nervoso que Calem conhecia bem — era o mesmo que ele tinha antes dos torneios de Youngster, quando a ansiedade não tinha para onde ir e saía pelos pés.
— Sessenta e quatro inscritos — disse Tierno, o olhar fixo no quadro.
— Sessenta e quatro — Trevor repetiu, como se confirmar o número ajudasse a processar o que vinha a seguir. — A conta não fecha.
— Sobram oito — Tierno apontou para o quadro.
Trevor percorreu o regulamento digital com o polegar. O movimento era rápido, obsessivo, a rolagem que ele fazia quando precisava de encontrar uma informação e não a encontrava. Subiu o texto. Parou. Desceu novamente. Leu a mesma frase três vezes.
— Não diz nada.
— Como assim não diz nada? — Shauna apertou os olhos, aproximando-se para ler por cima do ombro de Trevor.
— O texto descreve só a fase de eliminatórias — Trevor passou o dedo pelo ecrã — e depois salta para a "fase final". Sem formato. Sem critérios. Decidida "no momento".
Inclinou o ecrã para que todos pudessem ver, mesmo sabendo que estava demasiado longe para ler. Um gesto de frustração, não de utilidade.
— Pode ser um mêlée. Pode ser uma prova de resistência. Pode nem ser uma batalha.
— "No momento" — Tierno repetiu, como se provasse a frase na língua. — Isso é estúpido.
— É de propósito. — Calem não se mexeu, encostado ao barril, os braços cruzados. — Eles sabem o formato. Nós não.
— Quem, "eles"? — perguntou Tierno.
Calem respondeu com o queixo. O grupo de uniformes cinzentos estava parado do outro lado da praça. Não olhavam para o quadro. Não consultavam regulamentos. Falavam baixo, de braços cruzados, como quem espera o início de uma rotina.
— Participam neste torneio todos os anos — disse Shauna. — Já devem ter feito esta "fase final" umas dez vezes.
— Então sabem o formato e nós não.
— Sabem.
— E não dizem.
— Não dizem.
— Isso não é justo — disse Shauna.
— É o sistema — respondeu Calem. — Eles treinam aqui. Vivem aqui. Conhecem a arena pela sola dos pés. Nós chegámos há menos de vinte e quatro horas.
Tierno olhou para os uniformes cinzentos. Depois para o quadro. Depois para Calem.
— E vamos fazer o quê?
— Chegar aos oito — disse Calem. — Depois descobrimos.
Shauna não disse nada. Mas a mochila apertou-se mais contra o peito, e Calem viu os dedos dela a procurar o fecho — o que ela fazia quando queria ter algo para segurar e o Litleo não estava ao alcance.
No quadro de inscritos, os nomes ocupavam quatro colunas. Shauna olhou para o dela — quinto a contar de cima. Calem viu-a demorar-se ali um segundo a mais do que o necessário. Como se lesse o próprio nome e, por um instante, não soubesse bem o que ele estava a fazer naquela lista. Depois pestanejou e o momento passou.
Do outro lado da praça, afixado à porta do Centro Pokémon, um cartaz dobrado ao vento trazia o logótipo da Liga no canto superior esquerdo. No rodapé, a assinatura: Prof. Augustine Sycamore, Registo Regional de Kalos. Um aviso sobre renovações de licença. Os olhos de Calem demoraram-se um segundo. Depois passaram à frente.
***
A segunda rodada foi por W.O.
Calem observou o oponente — um rapaz de cabelo comprido com uma expressão cansada — recolher a Pokébola e dar as costas à arena sem disparar um único comando. Não disse nada ao juiz. Não olhou para o público. Apenas saiu, atravessou a multidão que se abria para ele passar, e desapareceu na direção da saída norte.
Uma decisão pragmática, lógica que Calem costumava respeitar. Porquê perder tempo, energia, saúde do Pokémon, quando já se sabia que não se ia longe? Porquê prolongar o inevitável?
Mas, ali, sob o sol de Santalune, aquilo pareceu-lhe uma falha. Uma falha no sistema ou uma falha no rapaz — não sabia. Não processava a ideia de "parar" antes que o último recurso fosse exaurido. Não por coragem. Não por teimosia. Simplesmente porque não sabia como.
Ele e Tierno tinham avançado por W.O. No quadro, um traço diagonal. Calem queria o peso da experiência, o cansaço nos músculos, a confirmação de que tinha feito algo. Recebeu apenas um traço.
Do outro lado da praça, Trevor estava a batalhar.
O adversário era um garoto — mais novo, mais baixo, com as orelhas a sobressair por baixo de um boné demasiado grande. O seu Skiddo movia-se em círculos lentos e deliberados, as patas a marcar o ritmo no chão. Era um padrão velho, básico até: pressão constante, sem recuo, à espera que o oponente cometesse um erro.
Trevor via o padrão. Calem viu-o a reconhecer, a processar, a calcular a resposta. O Holo Caster estava no bolso pela primeira vez em horas. Deu um comando a Flabébé, preciso, o tom de voz que usava quando estava confiante.
A Flabébé obedeceu.
Porém havia algo no tempo entre o comando e a execução que não encaixava. Uma hesitação de meio segundo. A Flabébé movia-se como se estivesse a receber instruções de um sistema diferente do que usava naturalmente — como se Trevor estivesse a falar numa língua que o Pokémon entendia, mas não a que preferia.
O Skiddo não precisou de muito.
Quando a batalha terminou, a Flabébé estava no chão, as pétalas das flores abertas num ângulo estranho. O Skiddo continuava em círculos, como se não soubesse bem que tinha acabado, como se o padrão fosse mais forte do que o sinal de paragem.
Trevor ficou parado por um segundo. O rosto não mudou — Trevor nunca deixava o rosto mudar —, mas Calem viu os ombros caírem. Um centímetro, talvez menos. O suficiente. Levou a mão ao Holo Caster no bolso com um movimento brusco, apanhou a Pokébola.
Calem deu meio passo. Parou. A sola do pé colada à terra batida — o corpo já sabia o que o pensamento ainda não tinha alcançado.
Shauna subiu para a sua luta em silêncio. Não olhou para Trevor. Não precisava. O Litleo já estava no campo antes dela. Não saltou. Não correu. Apenas se sentou no centro da terra batida e esperou. Shauna ajoelhou-se ao lado dele. Não disse nada durante uns segundos. Depois pareceu falar algo que Calem não conseguiu ouvir.
O Litleo abanou o rabo uma vez. Só uma.
O adversário era um dos uniformes cinzentos. Pancham. O Pokémon rosnava baixo, o corpo tenso, à espera da ordem.
O rapaz de cinzento falou primeiro:
— Ataque de surpresa. Flanco direito.
O Pancham moveu-se. Foi rápido — treinado para ser rápido —, mas o Litleo já não estava onde o Pancham olhava. Shauna não dera ordem nenhuma. O Litleo simplesmente se deslocara, meio metro para a esquerda, o tempo exato para o Pancham passar no vazio.
Calem ouviu o rapaz de cinzento praguejar baixo.
Shauna não disse nada. Apenas olhou. O Litleo olhou de volta. Depois, num movimento que parecia combinado mas não podia ser — não havia comando audível, não havia gesto —, o Litleo avançou. O jato de fogo foi curto, seco, direto ao peito do Pancham, que ainda estava a tentar perceber onde tinha errado.
O Pancham caiu. O apito soou.
Shauna já estava de joelhos, as mãos nas patas do Litleo. Não olhou para o adversário, nem para o placar. Verificou as almofadinhas, uma por uma, em silêncio.
O rapaz de cinzento recolheu o Pancham. Saiu a praguejar — mas mais baixo, mais para si.
Calem sentiu Étoile tocar-lhe no joelho. O toque foi breve — a mão pequena, os dedos frios. Depois o calor ficou, mesmo depois de Étoile ter recolhido a mão.
— Também viu? — perguntou Tierno ao lado dele.
— Vi o quê? — fingiu.
— Que ela não precisa de falar com ele — Tierno sorriu. — É esse o tipo de sintonia que quero nas minhas danças.
Calem não respondeu. O joelho ainda estava quente.
A terceira rodada de Calem foi diferente.
Não porque tivesse descoberto o segredo. Porque desistiu de procurar.
Sentou-se no chão antes de o chamarem. Encostou-se ao barril de areia, fechou os olhos, e não fez nada. Apenas respirou.
Trinta segundos. Talvez menos.
Étoile andou devagar. Não olhou para a arena mas sim para ele. As orelhas baixas. O corpo quieto. Calem não disse nada. Não assobiou. Não deu comando. Apenas se levantou, caminhou até ao centro da arena, e parou. Étoile foi atrás. Não à frente. Atrás.
O oponente já estava à espera. Bunnelby. Patas pesadas, olhos fixos. O treinador — um rapaz de óculos, mais velho que os outros — não perdeu tempo.
— Escava!
O Bunnelby desapareceu no chão. A terra rachou em duas linhas paralelas em direção a Étoile. Calem viu o padrão. O Bunnelby emergiria à esquerda — sempre à esquerda, era o lado mais forte.
Não disse nada.
A palavra formou-se na garganta. Direita. O comando certo. O que qualquer treinador daria. Calem mordeu a língua e meteu as mãos nos bolsos. Os dedos apertaram o tecido por dentro, onde ninguém via.
Étoile fitou-o. Depois para o chão. As orelhas giraram para a esquerda.
Ela ouviu. Não precisou de comando.
Desviou-se para a direita no momento exato em que o Bunnelby saltava da terra. O golpe passou ao lado. Étoile não contra-atacou. Apenas se afastou mais um passo e ficou quieta.
O Bunnelby demorou dois segundos a recuperar o equilíbrio. Foi o suficiente. Étoile moveu-se — não para onde Calem apontaria, mas para onde o Bunnelby ia cair. Como se soubesse antes de ele saber.
Um golpe. Curto. Certeiro.
O Bunnelby não se levantou. O apito soou. Calem nem ouviu.
Estava a olhar para Étoile. Ela olhava para ele. As orelhas já não estavam baixas.
Percebera.
O quadro de cortiça tinha oito nomes. Depois de riscados os eliminados, restava uma folha limpa com oito linhas.
Calem leu de cima para baixo: Tierno, com o Budew. Shauna, com o Litleo que não sofrera um golpe. Ele próprio, com uma vitória feia e uma certa. O rapaz de cinzento do Pancham — o que eliminara o adversário de Trevor. Uma garota da Academia com o Fletchling de velocidade pura. Outro de cinzento, o mais experiente, com um Diggersby lento mas mortal. Uma loira que ninguém notara, com um Skrelp de vitórias rápidas. E um jovem de Ambrette com um Dunsparce que ninguém vira lutar.
O organizador subiu ao palanque. Desta vez, não rangeu. Pisou com força, de propósito, para fazer o palco gemer. O sorriso dele era novo.
— Finalistas!
Ele guardara o melhor para o fim. O público aplaudiu. O organizador esperou. Deixou o barulho crescer. Depois levantou uma mão. Silêncio.
— A fase final — disse ele, devagar, saboreando as palavras — não segue as regras das eliminatórias.
Olhou para os oito. Para o público. Para o céu. As Vivillon já não passavam. Era só a praça, o sol, e o momento.
— Battle Royale.
A palavra caiu como um murro.
— Os oito na arena ao mesmo tempo. O último Pokémon de pé leva o prémio.
O público explodiu. As palmas foram fortes, rápidas, alguns assobios. Uma criança gritou "Boa!" do fundo da praça. Um velho ao lado das bancadas riu sozinho.
Calem não ouviu nada disso. Sentiu Étoile encostar-se à sua perna. A mão pequena apertou o tecido da calça.
Shauna não se mexeu. A mochila apertada contra o peito. O Litleo quieto. Tierno parou de se mexer. Completamente. Pela primeira vez desde que chegaram a Santalune, Tierno estava imóvel.
O organizador não acabou.
— Não há empates — continuou, a voz mais alta agora, a alimentar-se do barulho. — Não há desistências por equipa. Se três treinadores quiserem aliar-se contra um, podem.
Pausa.
— Não há regras contra isso.
Shauna foi a primeira a falar. Não disse nada sobre o Battle Royale.
— Onde está o Trevor?
Tierno observou as barracas médicas. Calem seguiu o olhar. A tenda laranja da Liga, no canto da praça, fechada. Trevor não tinha saído.
— Vou buscá-lo — disse Shauna.
Não perguntou. Não esperou resposta. Foi.
Tierno ficou ao lado de Calem. O barulho da multidão ainda zumbia, mas entre eles havia silêncio.
— Nós três não nos atacamos — disse Tierno, baixo.
— Os de cinzento vão perceber.
— Deixa. Eles vão estar ocupados a atacar-se uns aos outros.
Calem e Tierno olharam para o semicírculo.
Os três de cinzento não olharam um para o outro. Não precisavam. Já tinham combinado tudo antes do anúncio. O rapaz do Pancham sorriu. A garotinha do Fletchling continuou a olhar para a arena. Nenhum dos três se moveu. Mas algo neles mudou. Como se tivessem acabado de receber permissão do organizador.
Tierno demorou dois segundos a processar. Segundos longos.
— Merda.
— Pois.
— Então o que fazemos?
— Não há muito a fazer. — Calem desencostou-se do barril. As costas estavam dormentes de estar tanto tempo na mesma posição. — Chegámos aos oito. Agora é sobreviver.
O organizador soprou o apito. O som foi agudo, cortante.
— Dez minutos!
A contagem começou.











Oiii welfie
ReplyDeleteGostei como você faz as batalhas de modo bem diferenciado. Talvez por eles estarem tão no início, mas eu sinto o peso, como se cada vitória fosse uma conquista.
E esse negócio de liga Youngster, imagino que seja referência a classe dos jogos, mas foi interessante para mostrar o talento do Calem e já trazer um pouco de explicação pra gente do passado dele.
Eu tava pensando o que pode ser tão diferente pro final, mas não esperava battle Royal. Ótima ideia, tá anotado kkkkkkk
Mas confio nos meus manos que tão apostando o aluguel na competição.
E é isso, até a próxima, Welfie
Alô Alefu!
DeleteEu queria mudar um pouco a maneira como escrevo as batalhas, acho que a ideia de comandar e esperar o pokémon acaba por tirar parte da magia, vejo mais como uma estratégia mesmo e também uma rinha de galinhas, o treinador tem que ser bom o suficiente para criar uma estratégia e também saber gerenciar fatores random e os hábitos do seu pokémon, sabe?
Realmente é uma referência, aqui na minha história Youngster são praticamente treinadores certificados, com menos de 14 anos , sem insígnia, sem percurso competitivo declarado.
Tive que meter o louco, battle royale era para aparecer mais tarde, mas queria adicionar um pouco de spice na história, amadores e ataques aleatórios de todos os lados, o que pode dar errado?
Eu morri com essa de apostar o aluguel na competição, porque é literalmente isso KKKKK.
Mais uma vez, agradeço pelo seu comentário, vejo você no próximo!