Capítulo Cinco
Padrão ou Coincidência
Trevor acordou antes do despertador com o pescoço torto.
Tinha dormido com o braço debaixo da cabeça e a mão formigava-lhe agora, e ficou a abri-la e a fechá-la à espera do sangue, sem pensar em mais nada durante um bocado.
Do canto vinha a respiração de Calem, funda. A cama do canto era sempre a dele, a única que apanhava a porta toda sem ele ter de virar a cabeça. Da de Shauna não vinha som, tinha-a ouvido sair antes de o céu clarear — o terceiro degrau a ranger, como rangia desde a irrupção — e voltara a adormecer.
Abriu o Holo Caster com a mão a tapar metade do ecrã, e Flabébé aproximou-se assim que ele abriu o mapa da cidade, as pétalas todas viradas para o mesmo canto do mapa --- setor noroeste, sempre o noroeste, ele já tinha reparado nisso mais de uma vez sem lhe dar nome.
Catalogou como curiosidade de planta a reagir a luz e cor. Não tinha dados para chamar de outra coisa.
No canto superior direito, o ícone do saldo — um círculo que devia estar verde e estava amarelo, transitando para algo que não chegava a ser vermelho, mas já não era seguro.
Tierno dormia virado para a parede, os braços apertados sobre o peito, cada mão a segurar o cotovelo do outro lado, como se faltasse algo. Trevor ficou olhando para ele um instante a mais e depois desceu, com cuidado no terceiro degrau.
* * *
A cozinha estava acesa e cheirava a café requentado. Madame Élise encheu-lhe a xícara antes de ele dizer bom-dia. O café era de ontem, fervido outra vez, e o primeiro gole desceu-lhe torto. Tossiu para o punho, os olhos a lacrimejar.
Ela nem se voltou.
— Que pena terem perdido. — Disse de costas, olhando a rua. — Estava torcendo para vocês.
— Ninguém recebeu. — A garganta ainda lhe ardia. — Suspenderam o torneio.
— Suspenderam. — Mexeu qualquer coisa ao lume com mais força do que era preciso. — Põem "retroativo" no papel e ficam todos descansados. Como se mudar a data... —
Não acabou. Pousou a colher.
A xícara que lhe deixou à frente tinha uma racha fina a descer de uma das bordas, escura de tão velha. Não pingava.
— Coma qualquer coisa garoto.
— Não tenho fome.
— Hm.
Partiu um bocado de pão na mesma, duro nas pontas, e mastigou por mastigar enquanto ela ficava olhando para ele com a xícara dela contra o peito.
À porta, ela disse, sem se voltar do lume:
— O meu neto viu vocês no torneio.
Trevor ficou à espera do resto. Ela não acrescentou nada de imediato, e ele compreendeu, com algum esforço, que a pausa era intencional.
— Foi?
— Falou da última batalha, o tal de battle Royale, mas não foi da batalha que ele falou — disse ela. — Falou do som, do caule a partir.
Trevor não respondeu. A imagem chegou-lhe com uma nitidez que não esperava — não visual, auditiva: o som seco e húmido que a planta fizera no momento do impacto.
Tinha-o registado.
Tinha registado tudo, mas havia sons que o sistema arquivava numa pasta que não costumava abrir voluntariamente.
— Curioso, não é? — continuou ela. — Há sons que uma pessoa guarda para sempre. Eu ainda me lembro do som da porta do hospital quando o meu marido morreu. Nem me lembro da cara do médico, mas lembro-me da porta.
Trevor desviou o olhar para a janela.
A Flabébé no parapeito tinha as pétalas meio fechadas.
Na primeira vez que A Flabébé fez isso, Trevor tinha catalogado como comportamento exploratório padrão, resposta à novidade de estar em uma nova cidade. Na décima vez, havia retirado a palavra padrão da catalogação sem escrever nada no lugar.
— O teu amigo — disse Madame Élise. A frase parou ali. Trevor esperou o complemento. — O que dança.
— Tierno?
— Sim. Tierno. — Ela pronunciou o nome com uma demora pequena, como quem confirma que o peso de uma coisa corresponde ao que esperava. — Está bem?
Trevor considerou a pergunta com rigor. Estava bem era uma formulação que podia significar várias coisas e ele não tinha dados suficientes para responder a todas simultaneamente.
— Continua fazendo piadas horríveis dele — disse.
— Isso não foi o que perguntei.
Trevor arqueou a sobrancelha:
— Continua sorrindo.
Trevor bebeu o resto do café. Já estava frio — abaixo dos quarenta graus com certeza, provavelmente menos. Notou que não havia respondido à pergunta de Madame Élise e que ela não parecia surpreendida por isso.
— Não sei — admitiu, por fim.
Madame Élise assentiu. Não disse nada durante alguns segundos, e Trevor ficou analisando os padrões no tampo da mesa até ela voltar a falar.
— O meu neto viu-o ontem. A sair do Centro Pokémon, disse que estava chorando.
— Isso é estranho, Tierno não chora.
— Não. — Uma pausa. — O estranho é que ele não olhou para ninguém.
Trevor processou a informação. Tierno olhava para toda a gente. Era uma das coisas constantes nele — o ângulo do corpo a abrir em direção às pessoas, os olhos a procurar resposta antes de qualquer palavra. A ausência daquilo era um dado.
— Há pessoas que choram aos gritos — disse Madame Élise. — Outras ficam caladas. Eu preocupo-me sempre mais com as segundas.
— Está exagerando, Tierno é forte.
— Espero que sim.
Trevor queria calcular a probabilidade de ela estar exagerando, mas não tinha variáveis suficientes. O que tinha era uma sequência: o sorriso de Tierno na noite anterior, as piadas que chegavam um tempo depois do que deviam chegar, como se houvesse um delay entre o estímulo e a resposta. Vistas em separado, cada uma dessas coisas cabia dentro do intervalo normal. Vistas juntas, a distribuição era outra.
Trevor levantou-se para lavar a xícara. Madame Élise tirou-lha da mão antes que chegasse à pia.
— É importante que vocês se cuidem uns dos outros... Em uma jornada, são os únicos em que podem se confiar... Antes que possa acontecer algo que se podem arrepender....
— Fala por experiência? — perguntou.
***
A rua mudara de noite.
As fendas no calcário estavam maiores. Ontem dois dedos; hoje a mão não cabia. O musgo nas juntas tinha um verde que doía a olhar, de coisa que cresceu depressa de mais. Uma raiz fina subia agarrada a um poste de candeeiro e não estava ali na véspera.
Na rua seguinte, havia um aviso colado na porta da mercearia — papel A4 impresso, plastificado com o tipo de cuidado que se põe nas coisas que têm de durar:
ATENÇÃO: NÃO CONSUMIR ÁGUA DA TORNEIRA ATÉ NOVA INDICAÇÃO. O RIBEIRO ALTEROU O CURSO E A REDE MUNICIPAL ESTÁ SENDO VERIFICADA. USE ÁGUA ENGARRAFADA — Prefeitura de Santalune.
Trevor parou a ler e voltou a reler.
O ribeiro que mudara de curso sem cheia, sem tremor de terra. E agora a rede de distribuição.
Fotografou o aviso.
Uns Vivillon voavam baixo a um canto da praça, em círculos curtos, esbarrando nas coisas como se o sítio lhes cheirasse a casa mas tivesse perdido a forma. A Flabébé virou as pétalas para o chão debaixo deles.
Não havia nada no chão.
Trevor fotografou-o na mesma e sentiu-se um bocado idiota a fazê-lo, mas anotou a hora. Era a terceira vez em dois dias que ela apontava para um sítio vazio antes de o vazio deixar de o ser. Padrão ou coincidência; ainda não tinha dados que chegassem para separar as duas coisas.
Virou para a rua da biblioteca e parou.
Estava fechada.
FECHADO PARA MANUTENÇÃO, num papel colado ao vidro pelos cantos. Não tinha nada de especial; meia cidade andava remendando-se. Foi a luz que o prendeu, primeiro andar, acesa, e uma sombra a atravessá-la de um lado para o outro, no passo de quem trabalha, às seis e tal da manhã.
Ia seguir caminho.
Tinha mesmo dado um passo.
E então viu o caixote ao canto da fachada a transbordar tiras de papel, todas do mesmo tamanho, saídas de máquina, e o carrinho de carga à porta lateral sem a chapa azul da prefeitura, e dois guardas a atirar para dentro sacos pretos pesados.
Não parou em frente. Passou ao ritmo de sempre, e só depois da esquina deixou a cabeça juntar aquilo.
Uma biblioteca fechada a fazer papel em tiras logo naquela hora? Sacos a sair pesados, com gente de fora a carregá-los.
Fotografou o carrinho de passagem. Os homens não. Havia coisas que não se fotografam de frente.
Tierno estava encostado a um poste a meio da rua a seguir, os braços cruzados, os olhos a saltar de uma ponta à outra da rua. Tinha olheiras. Viu Trevor e sorriu, mais pequeno do que costumava.
— Sabe o que me irrita? — Não esperou pela resposta. — Gente que some de manhã. Volta com cara de ter descoberto alguma coisa importante.
— Comeu alguma coisa ontem?
— Não ignore o que eu disse, Trevor. — disse Tierno, ainda com o sorriso, mas com algo por trás dele que recuou um milímetro.
— Não ignorei, mas responda primeiro.
— Comi.
Trevor arqueou a sobrancelha.
— Não acredito que estamos fazendo isto — disse Tierno, levando a mão à testa num gesto teatral que Trevor sabia, por experiência acumulada, não corresponder a irritação real.
— Então não comeu.
Tierno suspirou, derrotado pela lógica antes de ser derrotado pela vontade.
— Um croissant.
— Isso não conta.
— Desde quando é que você é a autoridade máxima de quem come ou não? — perguntou, virando-se finalmente de frente para ele, como se a acusação merecesse ser feita olhos nos olhos.
— Desde que você decidiu que apenas um croissant é uma refeição.
Tierno soltou uma gargalhada curta, genuína desta vez, a primeira coisa desde que Trevor chegara que não parecia ajustada antes de sair.
Do outro lado da rua, uma senhora de roupão azul discutia alguma coisa com uma vizinha, ambas a apontar para a floresta ao longe com a convicção de generais planejando uma campanha militar, e Trevor seguiu o gesto sem saber bem porquê, arquivando a imagem num lugar que ainda não tinha etiqueta.
— A biblioteca está triturando arquivos.
Tierno estava olhando para o fundo da rua, para o prédio, e não ouviu.
— Hã?
— A biblioteca. — Trevor repetiu, mais devagar. — Estão triturando arquivos. De certeza foi a madrugada inteira. Estavam, há alguns minutos, levando sacos para fora. Pelos uniformes não me parecem da prefeitura.
O sorriso de Tierno ficou onde estava e deixou de ser sorriso.
— A triturar. — Coçou a nuca. Demorou. — Quem é que 'tá lá dentro?
— Uma sombra. Alguém a trabalhar.
— Hm. — Endireitou-se, e os olhos passaram a fazer ao prédio o que faziam à rua. — Ou 'tá com eles. Ou 'tá a ser obrigada a ver. — Deixou a frase a meio um segundo. — Entra-se nas duas. De maneira diferente.
— A porta está fechada.
— E? — Quase riu, cansado. — A gente entra.
Trevor ia dizer que estava fechada outra vez. Percebeu que não valia a pena.
Deixou escapar um sorriso.
***
Tierno atravessou a rua. Trevor ficou no passeio de lá, e à distância via o amigo a mexer-se, mas não lhe chegava a voz.
O caixote primeiro. Tierno ficou a olhá-lo com a testa franzida, um cidadão incomodado com o estado das coisas. Só depois bateu à porta — a palma aberta, devagar, o bater de quem avisa que está ali e não exige que abram.
Nada. Bateu outra vez. Disse qualquer coisa para a porta. Uma sombra parou na janela e ele não levantou os olhos; abanou a cabeça para o caixote, falou mais.
— Madame Fournier? Madame Fournier, desculpe incomodar, mas há um problema com o caixote do lixo do edifício. Está transbordando para o passeio e há líquido a escorrer para a rua. Deve ser da vegetação que partiu o tubo de drenagem ontem.
Passos lá dentro, uma fechadura, e a porta abriu uma fresta. Uma mulher de avental e luvas de arquivo.
Tierno conhecia esta parte: a maneira como ela o mediu de cima a baixo antes de dizer fosse o que fosse era a de quem passou a vida a decidir quem entra num sítio.
— Não estou aceitando nenhuma criança de novo! — falou de forma brusca. — Que líquido?
Ele apontou para o caixote, depois para a mancha escura à volta da base.
— A prefeitura não atende. Disseram que o sistema de chamadas 'tá em baixo desde a irrupção. Pensei que a senhora, aqui ao lado do edifício municipal, soubesse a quem reportar.
Ela olhou para o caixote. Para o passeio. Para o rapaz parado do outro lado da rua.
— Quem é ele?
— Meu primo. Veio de Lumiose. Anda registando os danos.
— Registar para quem?
— Pra família. — Tierno baixou a voz, tirou-lhe a pressa cívica. — A nossa avó era de cá.
Ela não respondeu. E foi isso. Não as palavras dela, a falta delas — ficou parada demais, olhando para ele, e os olhos saíram-lhe do rosto dele para um sítio qualquer no meio da rua, e ali ficaram. Tierno via gente assustada há anos. Sabia o que era aquele olhar.
— Juliette — disse Trevor.
Lembrou-se do nome que a Madame Élise citara e atirou-o para o sítio onde a cara dela tinha aberto e esperou.
A mulher ficou quieta. Demorou a dizer o nome de volta, e quando o disse saiu-lhe baixo e devagar, e Tierno achou que ela ia parar a meio.
— Juliette.
— Sim — fez ele, e ficou-se por aí.
Ela olhou-o mais um instante. Olhou a rua nos dois sentidos. Abriu a porta.
— Entrem. Depressa.
Shauna I
A limpeza pagava ao dia, em dinheiro, ao fim do turno.
Era por isso que ali estavam.
O reembolso do torneio continuava preso na prefeitura, e a conta que o Calem refizera três vezes desde ontem não engordava por ele a refazer.
O encarregado chamava-se Hugo, costas largas, voz gasta. Olhou para o Litleo ao colo de Shauna, depois para a Étoile no braço de Calem, e mudou a maneira de os medir.
— O pequeno consegue trabalhar em espaços fechados? — disse, a olhar para o Litleo.
— Sim — disse Shauna.
— Sem entrar em pânico com as raízes?
Shauna olhou para o Litleo. O Litleo olhou para as raízes que atravessavam o calcário da rua do mercado com a curiosidade específica de algo que ainda não decidiu se aquilo era uma ameaça.
— Vamos descobrir — riu.
Hugo fez o gesto de quem aceita uma resposta honesta em vez de uma garantia.
— Ficam na triagem por agora. Pedra de um lado, planta do outro. O que estiver a pulsar, não toquem. Marquem com fita.
— A pulsar? — disse Shauna.
— Já vê.
Numa loja da rua, uma raiz tinha rachado a montra de cima a baixo por dentro da parede. O dono estava à porta, braços cruzados, e parecia raiva. Shauna não viu raiva. Viu um homem mais velho que o pai dela com vergonha de precisar de ajuda de uma garota, à frente da rua.
— Eu tiro os vidros — disse.
— São precisa luvas.
— Tenho.
Ele acenou e desviou os olhos, e Shauna entrou atrás dele a olhar para o chão, porque há homens a quem não se deve ver a cara quando dizem que sim.
Voltou um quarto de hora depois com os vidros numa caixa e com coisas que ninguém lhe pedira.
Trevor II
O corredor da biblioteca cheirava a papel velho e a qualquer coisa mais recente por baixo daqueles produtos de limpeza deixam quando se tenta apagar outro cheiro.
Madame Fournier fechou a porta atrás deles sem barulho e ficou parada no corredor durante um momento, não demorou para olhar para Tierno, depois para ele. Os olhos demoraram-se em cada um, medindo-os, pesando-os.
— Vocês não são muitos parecidos — disse ela, a voz calma, mas com uma aresta que não estava ali antes. — Para primos.
Tierno não piscou. Trevor deixou escapar um sorriso amarelo, encarando o amigo, sem saber o que dizer.
— Somos primos de segundo grau — disse Tierno, a voz no mesmo tom de sempre. — A família é complicada.
— Hm. — Madame Fournier não pareceu convencida. — E a vossa avó? A que era de cá?
— Do lado da minha mãe — disse Tierno. — Ela morreu antes de eu nascer. A minha mãe nunca falou muito dela. Mas quando a cidade começou a crescer... — Fez uma pausa, a escolher as palavras com cuidado. — Ela disse que a avó dela falava da floresta. Que havia coisas que não deviam ser mexidas.
Madame Fournier ficou em silêncio durante um momento.
Os dedos dela, ainda na ponta do avental, mexeram-se ligeiramente
— O caixote...— disse ela. — Estava cheio já fazia uma semana. E a mancha já esta lá a um bom tempo. — Olhou para ele. — Você não veio por causa do caixote.
Silêncio.
— E a tal de Juliette — disse Madame Fournier, e parou aí. A mão fechou-se no avental, abriu outra vez. — Já não está entre nós faz 25 anos, a menos que tenha tido um filho na adolescencia que eu não saiba, não tem como já ser avó...— disse por fim, devagar, como quem escolhe uma frase que serve para não dizer outra.
Tierno não se mexeu, Trevor bateu com a mão na testa.
Não desviou o olhar. Havia um momento neste tipo de situação em que a maioria das pessoas recuava, pedia desculpa, inventava outra coisa. Tierno não fazia isso. Ficava exatamente onde estava, com a mesma expressão, e esperava.
— Não somos familiares dela. — disse Tierno, por fim. A voz mais baixa, sem o calor performativo de há pouco. — Madame Elise da pensão nos contou sobre ela..
Madame Fournier ficou olhando para eles.
Algo na postura de Madame Fournier mudou — não relaxou, não endureceu. Ajustou-se, como uma peça que encontra o encaixe certo.
— Porque é que precisam de entrar? — disse ela.
— Os registos históricos da floresta — disse Trevor.
Era a primeira coisa que dizia desde que tinham chegado. Madame Fournier olhou para ele com a atenção específica de quem ouve uma voz pela primeira vez e está calibrando o que ela vale.
— O que há com eles? — disse ela, e a pergunta tinha a forma de um teste.
— Não sei — disse Trevor. — É por isso que preciso de os ver.
A honestidade da resposta pareceu desarmá-la mais do que qualquer mentira. Ela ficou em silêncio, olhando para ele.
— Vi gente a mexer nos arquivos hoje de manhã cedo — acrescentou Trevor. — Gente que não é daqui, presumo. O que estão levando?
Madame Fournier não respondeu de imediato. Do andar de cima chegou um som — um rangido, lento e rítmico.
Os olhos de Tierno subiram ao teto e voltaram a ela, ouviu-se barulho de passos Deu um passo — não para ela, para o lado, para a parede, para ficar onde a voz não tivesse de subir.
— A senhora ouviu-nos mentir à porta. — Falava devagar, engolindo menos as palavras do que de costume. — E em vez de fechar a porta, ou de chamar aqueles lá de cima, abriu-a. Com eles no andar de cima a fazer o que estão fazendo. — Esperou. Ela não disse nada. Os dedos de uma mão fecharam-se na ponta do avental. — Isso não se faz por engano.
O rangido lá em cima parou.
— O que está nos sacos sai daqui esta noite — disse Tierno. — Amanhã não há nada para ver. Não há o que guardar, não há o que mostrar a ninguém. Acabou. — A voz desceu mais. — A senhora já viu isto acontecer. Pela cara que fez quando eu disse o nome dela, já viu. E ficou vendo sair.
A mão largou o avental.
— A gente não lhe pede para fazer nada — disse ele. — Só para não ficar a ver sozinha outra vez.
Ela não fez nada durante um momento. Depois os ombros desceram, e ficaram em baixo.
— Por aqui. Depressa.
Virou-se e foi pelo corredor adentro, mais para dentro do prédio.
Seguiram.
— Parece ser uma equipa externa da prefeitura — disse, em voz muito baixa. — Chegaram ontem de tarde. Disseram que vinham verificar o estado dos arquivos depois dos danos estruturais da irrupção. — Uma pausa. — Mas não trouxeram nenhum arquivista.
— Trouxeram sacos de triturar — disse Tierno.
Madame Fournier não confirmou, mas também não negou.
Virou-se e começou a andar pelo corredor, mais fundo para dentro do edifício, sem dizer para eles seguirem.
Eles seguiram.
A sala dos arquivos mortos ficava no fundo do corredor térreo, atrás de uma porta de madeira escurecida que abria para dentro com o peso específico das portas que raramente são abertas.
A luz dentro era fraca — uma janela alta e pequena, o vidro com a cor amarelada do vidro antigo. Prateleiras de madeira do chão ao teto, cada uma com volumes encadernados em couro ou cartão.
A senhora não entrou, ficando na porta.
— Os arquivos da KLA estão na mesa, já os tirei. Os municipais nas prateleiras do fundo. — Pôs uma chave de latão na ponta da mesa. — A porta dos fundos é ao fim do corredor estreito, à direita. A fechadura é velha, tem de se forçar.
Trevor ouviu. Registou decidiu não perguntar o porquê.
— Quanto tempo têm? — disse ela.
— Quanto tempo estão lá em cima? — disse Tierno.
— Chegaram às oito. Normalmente devem descer para o café às dez. — Madame Fournier olhou para o relógio na parede do corredor. — São oito e quarenta e dois.
Trevor já estava na mesa, abrindo o primeiro volume KLA. Kalos League Association, dizia a lombada por extenso, antes de a sigla ganhar vida própria nos rodapés das páginas seguintes. As mãos folheando com o método que Tierno reconhecia, saltando por intervalos, os olhos a varrer os rodapés e os cabeçalhos antes de qualquer outra coisa.
— Obrigado — disse Tierno.
Madame Fournier ficou parada na porta mais um momento.
— A Juliette — disse, em voz muito baixa, sem olhar para nenhum dos dois — era enfermeira no Centro Pokémon. Há vinte cinco anos. Quando a floresta fez isto da última vez. — Uma pausa. — Ela também queria perceber. — Outra pausa, mais longa. — Desapareceu três semanas depois de o crescimento parar.
Nunca soubemos porquê.
Saiu. A porta ficou entreaberta.
Shauna II
O sol batia oblíquo nos azulejos brancos da entrada da farmácia quando Shauna empurrou a porta de vidro.
O som do carrilhão de latão, que normalmente soava acolhedor, pareceu-lhe estranhamente estridente.
Lá dentro, o ar cheirava ao habitual: álcool canforado, pomadas mentoladas e o papel pardo dos embrulhos, e claro, raízes para todo o lado. A farmacêutica não parecia estar atrás do balcão. Estava de joelhos no chão do corredor dos fundos, com o avental florido a arrastar-se pela poeira, chamando por um nome num tom de voz que oscilava entre a irritação e a súplica.
— Vamos, entra. Estás a fazer uma figura ridícula, sai daí — pedia a velha farmacéutica, estendendo uma saqueta aberta de ração húmida em direção ao pátio exterior.
Shauna aproximou-se devagar, segurando a receita amassada que a mãe lhe dera. Foi então que o viu.
O Espeon da senhora estava sentado exatamente no limite onde o cimento do pátio encontrava o soalho de madeira da loja, mas não parecia o bicho elegante e altivo de sempre. A pelagem lilás, habitualmente impecável, estava eriçada ao longo da espinha, como se uma corrente estática invisível lhe atravessasse o corpo. A joia vermelha na testa dele, que costumava brilhar com uma luz mística e suave, parecia baça, coberta por uma película cinzenta.
— Precisa de ajuda, senhora? — perguntou Shauna, dando mais um passo.
No instante em que a bota de Shauna rangeu contra a madeira, o Espeon soltou um ganido agudo, gutural, como se estivesse sendo encurralado por um predador dez vezes maior. O Pokémon esticou as patas dianteiras, cravando as garras com tanta força na fraca argamassa do pátio que o som do calcário a estalar fez a pobre garota recuar.
— Ele recusa-se a entrar — disse a velha, levantando-se com dificuldade, as articulações a estalar. Limpou as mãos ao avental, sem esconder o tremor nos dedos. — Está assim desde ontem à noite. Dorme ao relento. Tento puxá-lo pela coleira e ele morde-me, nem para a pokébola ele entra. Olha para isto.
A senhora mostrou o pulso. Havia três marcas vermelhas, finas e profundas. Um Espeon, conhecido pela sua lealdade absoluta e temperamento dócil, tinha atacado a dona para não cruzar o limiar da porta.
Shauna ajoelhou-se à distância de segurança que o bom senso exigia. Tentou fixar o olhar no bicho, mas os olhos grandes e purpúreos do Espeon não olhavam para ela, nem para a dona, nem para a comida.
Estavam fixos no teto da farmácia. Mais especificamente, no canto superior esquerdo, onde as vigas de madeira que sustentavam o edifício se enterravam na parede de pedra que dava para o lado da floresta.
As orelhas largas do Pokémon moviam-se rapidamente.
De repente, a cauda bifurcada dele esticou-se, rígida como uma barra de ferro. O Espeon começou a arranhar a madeira do batente da porta, um movimento frenético e repetitivo, deixando sulcos profundos na tinta branca.
— Ele deve estar com alguma pneumonia, ou com parasitas no ouvido — resmungou a farmacéutica, caminhando até ao balcão para buscar o frasco de xarope de Shauna. — Os bichos ficam parvos quando adoeçam.
Shauna não respondeu.
Estendeu a mão muito devagar e tocou no chão de madeira da loja. Não sentiu nada, mas quando olhou para o reflexo do Espeon no vidro da montra, percebeu que o bicho tremia tanto que a joia na sua testa produzia um zumbido quase impercetível.
Ele não estava doente.
Estava aterrorizado por algo que já estava dentro da casa, debaixo do chão, muito antes de qualquer um deles se dar conta.
Trevor III
Tierno foi para a janela.
A rua lá fora estava vazia, na esquina, parado com a naturalidade de quem espera um ônibus que não vem, havia um homem de casaco neutro. As mãos nos bolsos. Virado para a biblioteca.
Tierno não se afastou da janela de repente, fê-lo devagar, um passo de cada vez, até ficar fora do ângulo de visão.
— Trevor — disse, em voz muito baixa.
— Hmm.
— Temos alguém lá fora.
Trevor não levantou os olhos dos volumes.
— Desde quando?
— Não sei. Estava lá quando cheguei à janela.
— Está olhando para cá?
— Está olhando para o edifício.
Trevor virou uma página. Depois outra. As mãos pararam brevemente, depois continuaram.
— Quanto tempo temos?
Tierno olhou para o relógio na parede, visível pela porta entreaberta.
— Uma hora?
— Chega — disse Trevor.
Os arquivos da KLA não eram poucos.
Cada volume pesava como um tijolo, e a pilha que ela tirara era de mais para a mesa pequena; Trevor levou metade para o chão e ajoelhou-se ao lado deles, porque era isso ou estar dobrado em cima da mesa a noite toda. O pó subiu quando abriu o primeiro e ele virou a cara e espirrou para o ombro.
Relatórios de campo, tabelas, a linguagem chata de propósito para que ficassem aquelas palavras e não outras. Nas margens, letra miúda a caneta, um sistema de remissões feito à mão ao longo de anos, uma página a apontar para outra, um ano para a sua repetição décadas depois.
Folheou.
Espirrou outra vez.
Shauna III
— O senhor diz — pousou a caixa — diz que a raiz já mexia antes, na véspera, não, espera, ele achou que era ele a ver mal e não disse a ninguém, tinha vergonha, e a farmácia, a senhora, o Espeon dela não quis entrar em casa, dois dias, ou três, antes, e o rapaz do café diz que o ribeiro mudou de som, de som, não de curso, e ele lembra-se do dia porque era quinta, dia de entrega, cinco dias antes de tudo. — Tomou fôlego.
— Pessoas assustadas. Ninguém disse nada a ninguém.
Trazia gente como quem traz um peso, e não reparou que tinha trazido datas no meio.
Calem ouviu sem parar. Estava separando um pedaço de raiz de um bloco de calcário, e o pedaço saiu com terra agarrada — escura, húmida, de uma cor que não era a do chão dali. Esfregou-a entre os dedos. Estava morna.
— Guarda. — Estendeu-lho.
A Étoile, no braço dele, tinha os olhos pregados numa fenda a dois metros. Desceu, chegou-se à borda, as orelhas a virar para dentro. Recuou. Voltou ao braço de Calem e ficou quieta, as orelhas em baixo. Calem olhou para a fenda e não disse nada, mas reparou que a Étoile não tornou a olhar para lá.
Foi um guincho fino que o fez parar, na rua a seguir.
Um Torchic debaixo de uma pilha de galhos partidos, encolhido até quase desaparecer.
Não fugiu quando Calem se ajoelhou e começou a puxar os galhos.
Um deles estava preso por baixo e ele puxou com força sem ver onde o bicho tinha a pata, e o Torchic guinchou agudo. Calem ficou com o galho a meio, o coração na garganta, porque por um instante teve a certeza de que lho esmagara. Largou o galho. Foi tirando os outros devagar a partir dali, e as mãos não lhe obedeciam bem.
A Étoile desceu, parou a meio metro, estendeu a mão. O Torchic encostou-lhe o bico. Calem aproximou a Pokébola — a mão suja de terra, a Pokébola mais pesada do que devia ser — e a luz vermelha foi suave.
Ficou de joelhos no calcário. A respiração ainda alta.
— Quase o esmaguei — disse, e a voz saiu mais baixa do que ele queria. — A puxar o galho. Não vi a pata.
Shauna ajoelhou-se ao lado dele. Não lhe pôs a mão no ombro. Viu-lhe os dedos, ainda a tremer, e ficou ali até pararem, depois levantaram-se e voltaram à pedra, e Calem deixou cair o primeiro bloco que pegou, e xingou baixinho, e pegou noutro.
A mensagem chegou ao fim da manhã, com Calem a carregar pedra. O Holo Caster vibrou. Limpou as mãos às calças, leu.
Venha ao ginásio amanhã de manhã. Sua batalha foi adiantada para amanhã de manhã, as 10:30AM — Viola
— Qual é? — disse Shauna, sem parar.
Calem mostrou-lhe o ecrã. Ela parou, leu.
— "Adiantada?". — Voltou ao ecrã. — Logo Viola? Sempre pensei que lista de espera fosse um pouco maior, sua batalha ia ser mais tarde, não é? — Encolheu os ombros, e o esquisito ficou para trás, porque havia o homem que ela já tinha visto duas vezes do outro lado da rua. — Acha que ela quer conversar com algo com você?
Calem guardou o aparelho. Pegou na pedra que tinha pousado.
— Vou ao ginásio. Ela sabe alguma coisa.
Shauna voltou ao trabalho com a cara de quem ouviu uma resposta verdadeira que não era a resposta toda.
Trevor IV
Os dedos ficaram-lhe pretos do pó e ele limpou-os às calças e tornou a sujá-los à página seguinte. À terceira folha, ou à quarta, a costura cedeu mais do que devia. Inclinou o volume para a luz. A cola era mais clara que a do resto, mal espalhada, de pressa.
Faltavam páginas.
Poucas.
Um canto da mesa, sob a poeira grossa que cobria o resto, estava limpo, um retângulo do tamanho certo para um bloco de papel ter estado ali pouco tempo, recentemente o suficiente para não ter voltado a acumular pó.
Ninguém da equipa de fora tinha esse cuidado; eles deixavam rasto em tudo. Isto era de outra mão, mais cedo, mais discreta. Trevor não tinha onde pôr aquilo e meteu-o na memória, ao lado do resto que ainda não tinha função.
As que as margens dos outros volumes apontavam. Pegou no seguinte, e o de baixo da pilha estava preso ao chão pela humidade; puxou, e a lombada rasgou-lhe na mão, um pedaço de tela velha a ficar-lhe nos dedos.
Praguejou baixo.
Abriu na mesma. A mesma cola clara, as mesmas faltas, nos mesmos sítios para onde as setas mandavam.
Levou tempo.
Os braços doíam-lhe de levantar os volumes, e o pó assentava-lhe na garganta, e a certa altura percebeu que estava suando dentro de uma sala fria, mas a coisa era sempre a mesma: quem tirara aquelas páginas seguira as setas da letra antiga e deixara as setas todas no lugar.
Levantou-se com os joelhos a estalar e foi às prateleiras dos municipais.
Estes estavam entalados.
Os de baixo tinham dilatado com a humidade e prendiam-se uns aos outros, e teve de pôr o pé na prateleira de baixo e puxar dois com as duas mãos para conseguir um, Tierno meio que lhe ajudou, fazendo força.
Correu o dedo pelas lombadas a ler as datas, e tossiu, e tornou a correr o dedo.
Faltava ali também, mas de outro modo. Não páginas escolhidas. Anos inteiros, em bloco. Os volumes novos estavam todos. Os do meio do século, todos. Os buracos começavam mais atrás e iam-se adensando.
Recuou um passo, com a tela rasgada ainda agarrada à manga, e olhou para a parede de lombadas como se fosse um gráfico. Demorou a vê-lo, porque os olhos ardiam-lhe do pó. A linha de corte estava lá.
Tierno espirrou também.
— Esta sala vai matar-me
— Anteriores a 1930, Duas mãos — disse, mais para o ar do que para Tierno. — Uma sabe ler isto. Tirou só o que as margens ligam. A outra está deitando fora tudo o que é velho, à espera de acertar
— Ou a mesma pessoa a armar-se em duas.
— Não. Quem destrói por idade não conhece as margens. Quem seguiu as margens não precisava do resto. E não trabalham juntas. A segunda ainda anda triturando faturas de bombeiros enquanto a primeira já levou o que interessa. Sem contar que tem alguns margens estranhas...
Da porta, sem entrar:
— A Juliette fez algumas dessas margens. Poucos meses a fazê-las. — Madame Fournier parou. —
Deixei-as estar.
Trevor olhou para a letra miúda a correr de volume em volume e demorou a pousar a folha que tinha na mão.
Foi a fotografar uma página que a folha caiu de dentro de uma pasta de cartão encostada ao fundo da prateleira, onde ninguém arquiva nada. A margem direita estava queimada, quebradiça; o resto não. Não era papel de incêndio. Era papel que alguém começou a queimar e parou.
Contrato de contenção de 2013 — adenda de despesas. Colunas de números. E em baixo, separado por um espaço a mais: empresa contratante, Dumont & Associés, Lumiose. Responsável de operações: ver anexo C.
Não havia anexo C. E a margem queimada começava no sítio exato onde, numa folha destas, vem a assinatura.
Trevor ficou olhando para o canto queimado. O nome mais importante do papel era o único que faltava, e faltava de uma maneira esquisita — queimado só ali, do tamanho de um nome. Não era a mão do bisturi nem a mão que deitava fora por idade. Era uma terceira coisa, e ele não tinha onde a pôr, e por isso meteu-a no bolso para depois.
Folheou mais, depressa agora, com os olhos a arder. Marchais aparecia vezes a mais para ser só coincidência --- mas era prefeito, era assinatura ou carimbo em metade do que saía daquela prefeitura havia décadas. Não tirou nada daquilo. E num canto, duas vezes, um nome que não conhecia: Conseil des Anciens
Fotografou.
— Trevor. — A voz de Tierno mudou. — O homem da esquina entrou. Pela lateral.
— Quantos lá em cima?
Tierno calou-se, concentrando-se como quem procura ouvir o ritmo de algo.
— Dois. E o que entrou agora.
Lá de cima, passos. Dois pares, sem pressa.
Trevor dobrou a folha queimada, meteu-a no bolso interior do casaco, fotografou a última margem e fechou o volume com um baque de pó. Tierno já estava à porta dos fundos e puxou o amigo à força, com a chave de latão na mão.
Trevor olhou para a mesa. As fotografias no Holo Caster, os volumes, a folha queimada no bolso que não tinha lido.
Não sabia se tinha o suficiente, apenas tinha papel velho e cola húmida e um nome a meio que não conseguia ler.
Levantou-se.
Tierno já estava na porta, a chave de latão na mão, o corpo encostado à parede do lado da dobradiça, tinha escolhido esse lado sem que Trevor precisasse de lhe dizer, ouviu novamente do andar de cima os passos novamente, descendo devagar, com o peso de quem não tem pressa.
Ainda não sabiam que estavam lá.
Tierno olhou para ele. Apontou o queixo para o corredor. Trevor saiu da sala. Tierno saiu atrás, fechou a porta sem fazer barulho, e os dois andaram pelo corredor na direção oposta à entrada principal.
Os passos na escada abrandaram.
Pararam.
Trevor parou também. Tierno encostou-se à parede ao lado dele, os dois imóveis. A Flabébé no ombro de
Trevor fechou as pétalas de uma vez em fechamento abrupto que ela tinha quando havia algo que reconhecia como ameaça.
Uma voz lá em cima. Masculina, baixa — palavras impossíveis de distinguir, o tom de alguém a comunicar por rádio.
Depois silêncio.
Os passos recomeçaram — mais rápidos. Em mais do que uma direção.
— Já sabem — disse Tierno, a voz um fio.
Trevor já estava andando.
O corredor dos fundos era mais estreito, mais escuro. A porta estava ao fundo, a madeira mais velha, a fechadura antiga. Tierno chegou primeiro, meteu a chave, rodou — o mecanismo resistiu, depois cedeu com um som seco que pareceu demasiado alto para o silêncio que havia.
Atrás deles, passos no corredor principal. Rápidos agora.
Tierno empurrou a porta. Ar frio. Uma rua lateral estreita, calcário molhado, sem ninguém.
Saíram.
Tierno fechou a porta atrás deles sem trancar e os dois andaram com o ritmo específico de quem quer parecer que tem razão para estar onde está. Uma esquina. Outra.
Na terceira, Tierno olhou para trás.
A rua estava vazia.
Encostou-se à parede e deixou escapar um respiro fundo.
— Você tem o suficiente? — disse.
Trevor olhou para o Holo Caster. Para as fotografias. Para o bolso onde tinha metido a folha queimada sem a ler.
— Não sei — disse.
Tierno ficou olhando para ele um segundo. Depois riu — curto, baixo, sem humor mas também sem amargura.
— Justo — disse.
Trevor abriu a boca duas vezes antes de a frase sair.
— O teu Budew. — Parou. Recomeçou. — Como é que ele está.
Tierno virou a cabeça devagar, como se tivesse ouvido mal.
— Meu quê?
— O Budew. — Trevor olhou para um ponto qualquer atrás do ombro dele, porque olhar para a cara enquanto perguntava aquilo exigia mais coisas ao mesmo tempo do que conseguia gerir de uma vez. — Não o vejo desde ontem. Catalogar isso como normal seria assumir dados que não tenho.
Um segundo de silêncio. Depois outro.
— Você anda estranho... Trevor, bateu com a cabeça? — Não estava nem perguntando, era Tierno a confirmar para si mesmo que aquilo estava mesmo a acontecer.
— A Madame Élise disse que devíamos cuidar uns dos outros. — Trevor recitou a frase quase exatamente como ela a tinha dito.— Presumi que perguntar pelo Budew contava.
Tierno ficou a olhá-lo mais um instante do que o normal pedia. Depois qualquer coisa na cara dele cedeu, e não foi o sorriso de sempre.
— Bolota está mal, Trevor. — A voz saiu-lhe baixa, sem a musicalidade habitual. — Desde a irrupção. Não come direito, mesmo com água, a enfermeira disse que vai ficar com cicatriz no caule para sempre, , e eu... — Parou, engoliu. — Eu não fiz nada. Fui irresponsável.
— A culpa não é sua, não sabia que o ataque seria tão forte assim. — Trevor disse-o como um fato, não como consolo, porque não sabia fazer a segunda coisa.
— Não interessa se sabia ou não. — Tierno esfregou a cara com as duas mãos. — Não irei deixar que uma coisa dessas volte a se repetir. Eu juro.
Trevor não soube o que responder àquilo, então não respondeu. Ficou ali, ao lado do amigo, e isso pareceu ser, de alguma maneira, a coisa certa a fazer. Tierno apenas sorriu para o amigo e empurrou o seu ombro, obrigando-o a andar para que saíssem dali...
No parque, ao fim da tarde, ninguém recapitulou nada.
Cada um chegou com uma peça que os outros não tinham.
Shauna deixou-se cair no banco e tirou logo um sapato.
— Bolha. — Esfregou o pé. — Passei perto de uma das obras a voltar, e não é cara de quem tapa nada, é cara de quem tem pressa e tem medo, homem nenhum trabalha com essa cara por dinheiro, e a prefeitura chama-lhe contenção nos avisos, só que aquilo tem cara de abrir, não de fechar, eu vi."
Trevor pôs aquilo ao lado do que trazia do arquivo. As duas coisas não cabiam no mesmo sítio.
— Os documentos dizem o contrário — disse, devagar. — Selar. Tapar cavidades. Sempre fechar. — Olhou para ela. — Agora alguém abre?
Ficou a contradição em cima do banco, e ninguém a desfez.
— É dinheiro — disse Calem. De pé, de costas para a árvore, os olhos nas saídas. — Pagam-lhes para conter. Quem é pago para conter precisa que aquilo nunca acabe.
— Não, não — Shauna atravessou-o antes de ele acabar —, eu vi a cara dos construtores, não é cara de quem ganha, é de quem teve medo, e os homens trabalham mal, depressa e mal, e o mal é medo, não é ganância, quem rouba por dinheiro não começa a queimar um contrato e foge a meio, não foge, acaba.
Calem não respondeu. Encolheu um ombro.
Trevor olhou para a teoria do Calem um momento, à procura do sítio por onde ela não fechava, e ficou calado quando o encontrou.
— Ninguém nos parou — disse Tierno. Estava meio vendo o parque. — Entramos numa biblioteca cheia de gente perigosa e.. nada. Deixaram. Sei lá, três guardas daquele tamanho, e eu juro, eram BEM Fortes, não nos apanharem? A líder de ginásio, em vez de calar o Calem, mandou mensagem?. — Coçou o queixo. — Sei lá. Acho que querem que a gente veja.
Houve um silêncio que nenhum deles tapou. Na pista, a dez metros, um garoto saltava uma raiz e uma garota mais nova tentava o patim e caía. Shauna voltou a calçar o sapato e fez uma careta.
— Se é só dinheiro — Trevor falava para o Calem, mas tarde, como se a conversa tivesse seguido sem ele —, dá para explicar o tempo todo fechando, mas desta vez a abrir. — Olhou para cima, para a floresta, mais alta do que de manhã. — Por dinheiro não se parte uma regra dessas.
Tierno olhou para ele com a expressão de quem quer perguntar mais qualquer coisa, mas decide que não é o momento. Trevor continuava com os olhos no Holo Caster, folheando as fotografias da biblioteca com o polegar, devagar, como quem folheia um livro à procura de uma página que não sabe ao certo qual é.
Foi nesse momento que Tierno viu um homem.
Não disse nada de imediato.
O homem estava encostado a uma árvore na borda do parque. Casaco neutro, mãos nos bolsos. Não estava olhando para a pista. Estava olhando para eles.
— A meia hora — disse Tierno, muito baixo, sem mover a cabeça.
Calem não se virou. Shauna continuou olhando para a pista. Trevor levantou os olhos do Holo Caster e voltou a baixá-los.
Ninguém disse nada durante alguns segundos.
As crianças continuavam se divertindo.
O rapaz de doze anos saltou outra vez por cima da raiz em diagonal. Uma das garotas mais novas parou para apertar o patim. Coisas normais a acontecer a dez metros de qualquer coisa que não era normal.
— Acho que confirma que vocês foram seguidos...— disse Calem, a voz no mesmo volume de sempre, como se estivesse a continuar a conversa anterior.
— Ou vocês... Não é o mesmo homem de antes.
Calem ficou em silêncio.
— Ele quer que o vejamos — disse.
Shauna olhou para ele de lado.
— Há sítios melhores neste parque para observar sem ser visto — disse, sem elevar a voz. — Escolheu um sítio onde sabia que íamos vê-lo.
Trevor não levantou os olhos do Holo Caster.
— Então o que fazemos?
— Nada — completou Shauna.
— Nada?
— Se reagirmos, ele tem informação. Se não reagirmos, ele também tem. — Calem pôs as mãos nos joelhos. — Mas a informação que tem se não reagirmos é menos útil para ele.
Ficaram assim. A conversa não voltou.
Não havia forma de a retomar com um estranho a olhar para eles, e tentar fingir que a conversa continuava seria pior do que o silêncio. Shauna continuou fingindo estar entretida pelas crianças. Tierno começou a batucar com as mãos em sua barriga e Trevor continuou folheando as fotografias, mas mais devagar, e
Calem percebeu que ele já não estava vendo as fotografias.
O homem não se mexeu durante talvez dois minutos.
Depois, com o mesmo passo calmo com que tinha estado parado, afastou-se pela saída sul do parque. Não olhou para trás. Não acelerou. Saiu como alguém que terminou o que tinha vindo fazer e agora tinha outros sítios onde estar.
Silêncio.
Saíram do parque pela saída norte, em direção a pensão, com as copas da floresta por cima dos telhados um pouco mais altas do que quando tinham chegado.
***
Trevor não dormiu.
Voltou a morder a bochecha, mastigando nada, latejava num ponto pequeno, e durante um bocado foi só isso, a língua a voltar lá, o resto parado. Tierno e Shauna dormiam em fortes roncos, Calem não tinha voltado ao quarto desde as sete da noite.
O Holo Caster fazia-lhe uma poça de luz no colo.
Mudou de posição. A cama rangeu. Ficou quieto à escuta até a respiração dos outros voltar ao mesmo.
As fotografias do dia, em fila. Começou pelas datas, porque eram a coisa mais arrumada que tinha. Não chegou a acabar de as olhar.
A Shauna. O que ela despejara da rua, gente assustada, um balde de medo, e ele anotara pelas palavras dela, mas havia datas dentro das palavras.
A raiz da loja, na véspera. O ribeiro, antes, muito antes — a quinta da entrega, cinco dias. O Espeon ficava no meio, dois dias, ela não tinha a certeza, e ele ficou com o "não tinha a certeza" preso, irritado, porque precisava do número.
A cama rangeu outra vez e ele não tinha mexido. Ficou parado tentando perceber porquê, e perdeu o fio.
Onde é que ia. A raiz, o ribeiro. Não tinham começado juntas. Pôs as duas pontas na cabeça e a coisa começou longe e veio a aproximar-se, dia a dia, e o longe era o sítio dos Vivillon, era noroeste.
Ficou-lhe a pele fria nas mãos.
1838. Procurou por fotos. Oito metros, setor noroeste. Cavidades. Mudaram o projeto e nunca foram ver porquê.
Oito metros. A terra na mão. Não disse nada.
A bochecha. Carregou com a língua e doeu e por um segundo agradeceu, porque era simples.
Batalha adiantada. Veio-lhe sozinho, sem ele estar pensando na Viola. Seria amanhã, no dia vinte e cinco.
Foi o vinte e cinco que o atirou de volta às datas. Escreveu-as numa página em branco.
1638.
1838.
1938.
1988.
Os saltos iam-se fechando. Cada um metade do anterior.
Olhou para os quatro números demasiado tempo. Duzentos, cem, cinquenta. Datas destas não vinham assim tão redondas, não de arquivo nenhum, não de uma cidade que perdia páginas por engano ou por mão alheia.
Ou os saltos eram mesmo assim, exatos, ou alguém já tinha feito esta conta antes dele e arredondado o que sobrava para caber na linha. Não tinha como saber qual das duas. Escreveu por baixo, pequeno: conferir contra outra fonte antes de confiar nisto.
Encostou o dedo à linha vazia debaixo de 1988 e não o pousou. Ficou a mão suspensa. Levantou-se, foi ao casaco aos pés da cama — a cama rangeu, ficou quieto.
Tirou a folha queimada e voltou para a luz. A data do título estivera-lhe à frente o dia inteiro e ele não a ouvira.
Encostou o papel à coluna, a data do contrato à altura da linha vazia.
Estava ali. Não havia mais conta a fazer. A floresta não estava à espera de um ano que ainda faltasse queimar num arquivo. O ano estava na margem queimada da folha que ele andara no bolso o dia todo.
Os saltos é que não o largaram. Aquilo não voltava de tempos a tempos. Estava apertando. E quem aperta o passo chega mais cedo de cada vez — não sabia se chegava também maior, mas a vez de 1988 mal deixara rasto e esta tinha levantado o calçamento das ruas.
Foi à procura do princípio.
Não havia. Antes de 1638, nada.
Nem páginas arrancadas. Nada. A cidade não tinha idade para se lembrar do começo de uma coisa mais velha do que ela toda. O salto anterior teria de ser o dobro. E o de antes, o dobro disso, num tempo em que não havia prefeitura nem papel para o guardar.
Um homem não dura tanto tempo.
Largou a ideia. Tinha outra mais à mão. Dumont.
Abriu o contrato. Contrato de contenção. A palavra estava no título, escrita por uma empresa de Lumiose com contas que não fechavam e um Marchais a assinar. E a palavra estava-lhe na cabeça desde o arquivo, dizendo o que os municipais faziam há séculos. Conter a floresta. Tapar-lhe as cavidades. A mesma palavra dos dois lados.
Havia uma coisa que não assentava. O esquema tinha cinquenta anos. A floresta tinha quatrocentos. E por baixo dos quatrocentos, um buraco onde devia estar o começo. Disse a si próprio que lhe faltava uma página, que havia de aparecer. Não lhe ocorreu mais nada.
A bochecha doeu outra vez. Abriu uma nota nova e o dedo ficou parado. Era muita coisa. Escreveu pouco.
Dumont. A floresta. A mesma mão. Falta o como.
Por baixo, mais pequeno: vem cedo.
Apagou o ecrã e Flabébé saiu da frente, fechando as pétalas.
No escuro. Não havia luz nenhuma para onde se virar --- e ela estava virada, mesmo assim, para o mesmo canto que dava para fora da cidade. Trevor olhou para aquilo um bocado e não o escreveu em lado nenhum.
Deitou-se.
Tinha fome, e era tarde de mais para comer. Lá fora a floresta crescia com aquele som devagar que ele já conhecia. Demorou a adormecer. Ficou-lhe na cabeça o vem cedo, e o quatrocentos por baixo dele, que ele não quis tocar.










