Capítulo Seis
Na teia bamba
As mãos do Calem ardiam.
Duas bolhas na palma direita, uma rebentada e a outra mão com breve queimadura resultado do treino no quintal da pensão, madrugada adentro, repetindo as mesmas palavras e os mesmos gestos para um bicho que obtera em menos de um dia.
O nome, para a atenção. Vai, com a mão aberta. Para o fogo, o punho fechado — e o Torchic olhava para o punho, às vezes para a cara dele, e nas vezes em que olhava para a cara não saía nada.
Lá pelas quatro da manhã acertava duas em cada três. Calem foi dormir a saber que não chegava e que já não havia tempo para fazer chegar.
— Você não dormiu — disse o Trevor, na subida da rua.
— Você também não.
O Trevor vinha com os olhos fundos, repleto de olheiras, porém nenhum dos dois falou mais nisso.
O ginásio ficava no topo da rua, e Calem tinha-o imaginado aberto tal como na primeira vez que fora: gente à porta, um campo lindo lá dentro, porém As luzes da fachada estavam apagadas. A porta da frente não abriu, por mais que ele batesse, e atrás do vidro havia um papel escrito à mão — FECHADO ATÉ ORDEM EM CONTRÁRIO — e, do lado de dentro, um silêncio que parecia tê-lo mandado calar.
Foi o Trevor que deu a ideia de entrar pela porta lateral, encostada, sem tranca.
Empurrou-a sem perguntar a ninguém, e entraram.
Calem esperava um átrio, bancadas, o caminho para um campo.
Em vez disso, uma sala grande e escura, de teto alto, iluminada só por focos presos lá em cima, cada um apontado ao seu ponto da parede. O resto ficava na penumbra. O chão, de um material escuro e polido, quase um espelho baço, devolvia a luz em manchas compridas; andava-se sobre o reflexo das fotografias das paredes.
Grandes, de moldura funda, penduradas longe umas das outras, cada uma no seu foco de luz, para serem olhadas uma de cada vez. Ninguém pendura retratos assim por hábito. A sala existia para as imagens.
No chão, ao centro, dois emblemas embutidos no próprio material: o símbolo do ginásio, a forma de um inseto, um de cada lado, em metal mais claro, à maneira dos brasões que os tribunais metem à entrada. A marca da Liga gravada no soalho, para se pisar. Calem contornou-a, e só a meio do desvio é que deu conta de que a estava contornando.
Foi à primeira fotografia iluminada porque a luz o levou lá.
Era um rapaz mais novo do que ele, olhando para uma Pokébola na palma da mão com uma cara aberta, sem defesa, a cara que uma pessoa faz quando julga que ninguém a vê. No foco seguinte, uma garota apertava uma insígnia contra o peito com as duas mãos e ria com a cabeça atirada para trás — uma alegria tão sem cálculo que custava olhar, um bocado como assistir a uma coisa privada.
Calem foi andando de foco em foco.
A sala obrigava: a escuridão entre as molduras não deixava ver duas ao mesmo tempo. Uma criança adormecida contra o flanco de um Pokémon grande, os dois com a mesma cara de sono. Gente a ganhar e a perder. Um homem à espera de qualquer coisa num corredor, o boné torcido nas mãos.
Ninguém olhava para a máquina.
Tinham sido apanhados todos no segundo em que se esqueciam de si.
Alguém tinha esperado por esse segundo. Centenas de vezes, com uma paciência que dava para sentir dali. Fotografias do instante em que as pessoas baixam a guarda.
A meio da sala, as paredes mudavam de assunto, focando agora em Pokémon.
Não os grandes, não os de cartaz: mas simples insetos. Uma parede inteira deles, e Calem parou, porque não estava à espera de os achar bonitos.
Uma Vivillon de asas abertas, tão de perto que se via o pó fino que as cobria, cada escama distinta, o padrão aberto como o vitral de uma igreja. Uma fila de casulos numa haste, a luz a atravessá-los por trás, a seda acesa.
Um bicho minúsculo sozinho numa folha molhada, tão pequeno na fotografia grande que era preciso chegar-se para o encontrar e depois já não se olhava para mais nada.
Ao fundo, onde as fotografias acabavam, o barulho de fora ouvia-se de outra maneira. Vinha de baixo. O chão abria-se num quadrado escuro, com um varão de segurança de um lado, e do buraco subia ar morno, cheiro de estufa. Um cabo de ferro descia para o escuro.

Calem desceu primeiro, os pés à procura dos nós, e a meio deixou de haver a luz da sala de cima e de baixo; desceu três braçadas às cegas, depois a luz de baixo apanhou-o, e ele viu onde ia aterrar, e ficou um segundo parado no cabo com os pés num nó que já tinha encontrado.
O piso de baixo era o ginásio.
Um espaço amplo, ao comprido, de pé-direito alto, numa penumbra escolhida: focos baixos e quentes, apontados a sítios exatos, o resto deixado ao escuro de propósito. No chão, de parede a parede, corria uma estrutura de cabos de aço tensos e travessas de madeira clara, esticada em raios e em círculos, com plataformas penduradas nos cruzamentos.
Calem demorou a ver o desenho porque estava dentro dele: uma teia. Uma teia gigantesca que parecia quase ser feita à mão, cabo a cabo. Ninguém monta aquilo por acaso. Alguém a desenhara para ser atravessada devagar.
Por entre os cabos, plantas de folha larga, os vasos escondidos no escuro, as folhas húmidas. Tudo ali era húmido; o ar pesava, colava-se à pele, Calem por um momento foi obrigado a tirar o chapéu e abanar em seu rosto.
A madeira das plataformas tinha o inchado baço da madeira de estufa. E o barulho de fora ouvia-se melhor do que lá em cima. Estava-se mais perto do chão da cidade, mais perto do sítio de onde aquilo vinha.
Largou o cabo e pousou os pés numa plataforma. A madeira cedeu meio dedo e devolveu, como um barco.

O Trevor desceu atrás, mais devagar, praguejou baixinho a meio, e aterrou ao lado com menos jeito do que queria, ficou dobrado um momento, abrindo e fechando os dedos.
— Isto tudo é dela?— disse, ainda para as mãos. Depois levantou a cabeça. — O desenho. Os caminhos. Não há aqui caminho que ela não tenha posto.
Calem já tinha olhado para as três saídas da plataforma e escolhido a que se via melhor do fim. Foram por essa, um atrás do outro, as mãos nos cabos de guia. Os cabos estavam tensos como coisa afinada.
— Está fechado!
A voz veio da direita. Numa plataforma meio fora do foco estava um rapaz de vinte e poucos anos, de colete do ginásio, sentado com as pernas penduradas e uma sanduíche a meio na mão. Tinha mais ar de empregado apanhado a comer em serviço do que de guarda.
— O ginásio está fechado — repetiu, mastigando para o lado. — Não leram o papel lá em cima?
— A Viola me chamou — disse Calem. — Pessoalmente.
O rapaz parou de mastigar.
Olhou para Calem, para o Trevor, outra vez para Calem, e embrulhou o resto da sanduíche num movimento que já era de quem se levanta.
— Então lute — Sem discussão nenhuma, quase com alívio, como se o protocolo fosse a única coisa ali em baixo que ainda funcionava como devia. — Regra da casa: quem vai até ela, vai jogando. Um contra um. — Soltou a Pokébola, e o que saiu foi um Kakuna.
E o Kakuna estava errado.
Calem nunca tinha prestado atenção a um Kakuna na vida, era um casulo, um bicho que existe à espera, mas até ele viu que aquilo não se devia mexer daquela maneira. O casco dourado balançava sem vento, pêndulos curtos, arrítmicos, e de dentro vinha um som contínuo de coisa acordada a gastar a própria casca.
— Ele está assim faz dias — disse o treinador, sem ninguém perguntar. — Vai logo.
O Torchic estreou torto: as garras patinaram na madeira húmida ao primeiro avanço, e Calem trouxe-o de volta com o nome e mandou-o de novo pelo ângulo seco. À terceira ordem o fogo saiu inteiro, e o casulo devia ter tombado ali, mas balançou, recompôs-se, e o zumbido de dentro subiu de tom em vez de parar.
O treinador não disse nada, mas deixou de mastigar de vez.
Calem sentiu o Torchic hesitar antes da ordem seguinte, o peso a mudar de pata para pata, o bico entreaberto a puxar ar mais depressa do que devia.
Cansaço, aquele treino da madrugada não fora leve, mas ele precisava dele naquele momento, seria praticamente impossível vencer o ginásio apenas com Étoile no seu arsenal.
Ajoelhou, tirou a poção do bolso da mochila e borrifou-a rápido nas penas do peito, sem tirar os olhos do casulo. O Torchic sacudiu-se, e a respiração assentou meio tom abaixo do pânico. Foi o suficiente. A quarta ordem acertou no ângulo certo, e desta vez o casulo tombou a fumegar e ficou quieto.
O treinador recolheu o bicho depressa demais.
— Passou. — E depois, já de costas, mais baixo: — Fala uma coisa pra ela. Os bichos daqui não dormem mais. Nenhum. Desde a semana passada. — Olhou para a parede do fundo. — Ela anota tudo. Então de certeza vai anotar isso também.
Já a sentar-se outra vez, apontou o queixo para o corredor: — O resto do caminho ela marcou com água nos cabos. Segue o brilho e não se perca nos outros. Ela está na tenda. Não faça barulho ao chegar. Se ela estiver com um rolo na mão, espera que acabe. Ela não gosta que a interrompam a meio de um rolo.
Seguiram.
O espaço foi mudando dali para a frente. As plantas adensavam, os focos baixavam.
Começaram a aparecer, pousados nas plataformas, objetos que não eram cenário: um refletor redondo, dobrado, e um tripé fechado, deitado ao comprido. Mais adiante, sozinha numa plataforma, uma caixa de alumínio com fechos, do género que se carrega com as duas mãos. Material de estúdio, arrumado ao longo do caminho onde alguém ia voltar a precisar dele.
E ao fundo, onde a teia inteira convergia, havia uma plataforma maior, larga, firme, e por cima dela uma tenda.
Lona cor de laranja, aberta de frente, iluminada por dentro com uma luz mais branca do que a do resto. Mesas, malas de material empilhadas, o brilho fosco de equipamento, e focos montados em pés, virados para fora, para a plataforma. Um estúdio. O fundo do ginásio estava montado como um estúdio de fotografia, e a plataforma larga diante da tenda, varrida pela luz branca, era o palco: o centro exato da teia, o ponto onde qualquer coisa que ali chegasse ficava iluminada de frente, contra o escuro, sem sombra onde se pôr.
Calem parou no último troço de cabo.
Dentro da tenda, de costas para eles, uma mulher mudava o rolo de uma máquina fotográfica.
Lembraram-se os dois ao mesmo tempo do que o homem tinha dito.
Ficaram no fim do cabo, à beira da plataforma larga, sem pisar a luz branca. A mulher não se voltou. Estava de pé junto a uma mesa, a cabeça baixa sobre a máquina, e trabalhava com as duas mãos sem olhar para elas.
Não era possível que não os tivesse ouvido: a madeira rangera, o Torchic vinha a piar baixinho desde a última plataforma, o Trevor respirava alto quando nervoso.
Ela não se voltou.
Acabou o que estava fazendo, ao ritmo exato do que estava fazendo, e o silêncio dela trazia uma instrução lá dentro.
Esperem.
E eles esperaram, dois garotos parados no escuro à beira de um palco iluminado. Só mais tarde é que Calem pôs nome àquilo: já lhe estavam obedecendo antes de lhe terem visto a cara.
A tampa fechou com um estalo seco. Ela avançou a película, uma, duas vezes, o som áspero do rodete a encher a tenda.
Voltou-se quando decidiu voltar-se.
O corpo primeiro, a máquina a assentar contra o peito, presa pela correia de couro gasta, as mãos a caírem ao longo dela sem a largar. Trinta e poucos anos. Alta sem ser muito, direita sem esforço, o cabelo claro apanhado de qualquer maneira. Roupa prática, de bolsos, com manchas antigas de revelador nas coxas, onde limpava os dedos. Nada nela pedia atenção.
Calem já tinha estado em salas com gente importante: organizadores de torneio, um campeão regional de passagem. Conhecia presença fabricada, a que se põe e se tira.
Aquilo era outra coisa. A mulher olhou para eles e o espaço confirmou-se lhe à volta, a teia e os focos de repente dela, à maneira de um quadro que faz sentido quando finalmente se descobre para onde é suposto olhar.
Os olhos dela foram primeiro ao Torchic, dois segundos, e qualquer coisa neles registou e arquivou. Depois ao Trevor, e Calem viu o amigo, desviar o olhar e voltar a pô-lo à força. Depois a ele. E ali ficaram.
— Calem Deschamp, certo? Chegou cedo — disse ela. — Melhor assim.
Pousou a máquina na mesa e veio até à boca da tenda. De perto era mais nova do que a autoridade fazia parecer, e o olhar que lhes deitou tinha uma atenção a que ninguém está habituado: media-os para uma coisa que não dizia.
Os olhos correram os dois e pararam no Trevor.
— E este vem porquê?
— Documentar — disse o Trevor, e corrigiu-se a meio: — Assistir. Vim assistir.
— Assistir. — Repetiu a palavra sem hostilidade, quase com curiosidade. — Você veio ver uma batalha de insígnia às nove da manhã, num ginásio fechado. — Abanou a cabeça devagar, e o que lhe passou pela cara podia ser o princípio de um sorriso. — Já vi de tudo. Público a esta hora é novo.
— Ele é meu amigo — disse Calem. — Viaja comigo.
— Então que assista. — O assunto morreu ali, por decisão dela. Pegou numa prancheta de mola que estava ao lado da máquina. — Registo do desafiante. Tem o cartão da Liga?
Calem tirou-o do casaco. Ela recebeu-o com as duas mãos, virou-o, e começou a copiar para o papel, à mão, letras pequenas e direitas.
— Vaniville. Corredor de Aquacorde. — Levantou os olhos um instante. — Primeiro desafio, presumo.
Já escrevia a resposta antes de ele a dar.
— Sim.
— Primeira insígnia. — O tom dela assentou ali, em terreno que conhecia de cor. — Então ouve rápido, porque este é o único ginásio onde alguém te explica em vez de assumir que sabes: dois contra dois, escolha fechada, equipa declarada antes, sem trocas. Taxa tabelada, no verso do cartão — se cobrarem mais nalgum ginásio, denuncia. Perdeste, repetes ao fim de sete dias, não antes; ninguém se arruína a tentar todos os dias. — Virou a folha. — Perguntas?
Calem trazia uma desde a rua, afiada. Saiu-lhe menos dura do que a trazia.
— A sua mensagem. Havia uma lista de espera, eu estava no fim. O ginásio está fechado, a cidade está como está, e a senhora antecipou a minha batalha com um recado pessoal. Porquê?
— Porque te quero fora da minha cidade.
Deixou a frase acabar sozinha. Durante um momento ninguém a apanhou; o Torchic piou uma vez, baixinho, e calou-se também.
— Você e os outros quarenta e dois da lista — continuou ela, sem maldade nenhuma. — A cidade levou uma pancada que ainda ninguém mediu, e eu tenho quarenta e três treinadores de fora à espera, com o dinheiro contado e as pensões pagas à noite, numa cidade meio escavada. Cada um que despacho é um que segue para Lumiose no dia seguinte, com a insígnia e sem razão para ficar. É o melhor que posso fazer por eles e pela cidade ao mesmo tempo. — Encolheu um ombro. — Estou a ir pela lista, por ordem prática.
Batia certo.
O Trevor, atrás, não disse nada. Calem conhecia-lhe os silêncios; aquele tinha uma pergunta guardada lá dentro.
— Seu time — disse a Viola. — Dois. Declara.
— A Clefairy. — Ao falar, Étoile saiu diretamente da pokébola surgindo em seu ombro. E um Torchic.
— O Torchic que vem a piar desde a terceira plataforma. — Escreveu, e o canto da boca mexeu-lhe. — Nível de registo?
— Não está registado. Apanhei-o ontem. Na limpeza.
A caneta parou.
— Nas ruas? — Pela primeira vez, uma pergunta cuja resposta parecia interessar-lhe por si. — Debaixo de quê?
— De uma pilha de galhos. Na zona das fendas.
Ela escreveu qualquer coisa, mais devagar, num canto da folha que não parecia campo nenhum do formulário. Depois fechou a mola e pousou a prancheta.
— Fica em ata como captura pós-irrupção. Podes jogá-lo; a Liga aceita “capturas de emergência”, depois registra-o no centro pokémon. — Olhou para o Torchic, meio escondido atrás da perna do Calem, e a voz mudou meio tom. — Estreia-o.
Já andava para a beira da plataforma, para a luz branca.
— Do meu lado: Surskit e Vivillon, por esta ordem. Você tem direito a saber, primeira insígnia; nos próximos ginásios ninguém te diz nada. — Tirou as duas Pokébolas do cinto de trabalho e ficou de costas para a tenda, no centro exato da luz. Nem precisou de escolher o sítio. — Você. — Ao Trevor, com a cabeça a apontar uma plataforma à direita, fora da luz, dois bancos e um extintor. — Zona de assistência. Se pisar o campo com a batalha a decorrer, é falta do desafiante, e eu marco-a. Não é pessoal; é a regra.
E ao Calem, enquanto o Trevor atravessava:
— Regras ditas, papel assinado, time declarado. A partir do momento em que eu soltar, é oficial. Pronto?
A Étoile desceu do ombro dele sozinha, sem ordem, e pôs-se-lhe à frente na madeira. A Viola olhou para isso — para a Clefairy a tomar posição antes de qualquer comando — e a mão dela subiu dois dedos na direção da máquina pousada na mesa. Parou a meio. Voltou à Pokébola.
Calem abanou a cabeça.
— Surskit — disse, e soltou.
O Surskit saiu da luz vermelha já em movimento, e o movimento estava errado de uma maneira que levou um segundo a decifrar: as quatro patas finas não tocavam a madeira. Assentavam num colchão de ar preso em cerdas finas demais para o olho, e a película de água condensada nas tábuas — a mesma que fizera o Torchic patinar a travessia inteira — virava pista debaixo dele.
O bicho patinava na água do próprio ginásio, sem atrito, sem custo, e cada volta deixava no chão molhado um arco limpo.
O ginásio inteiro era húmido. Ou seja: o ginásio inteiro era pista dele.
— Abertura — disse a Viola.
O Surskit parou, firmou, e das antenas soltou-se um cheiro adocicado que atravessou o campo em dois segundos, pesado, de fruta passada ao sol. Calem sentiu-o entrar pelo nariz e sentiu o próprio pensamento ficar meio passo mais lento, uma sala a abafar.
Ao lado dele a Étoile sacudiu a cabeça com força, uma, duas vezes.
Química.
Ela abria com química, saturando o ar antes do primeiro golpe.
A Clefairy entrou no campo no passo dela, e o contraste com o patinar nervoso do Surskit dividiu a plataforma em dois tempos diferentes.
A lama veio de baixo, num giro — compacta, rápida demais para o corpo pequeno que a cuspiu e apanhou a Étoile. Ela rodou meia volta com o impacto e ficou. Doeu; o braço encolhido dizia-, mas era só dor, sem multiplicador escondido, e Calem riscou a primeira linha da lista.
O polegar dele tinha começado a bater na perna, marcando as trocas. Ele não deu por nada.
— Exposição longa.
As bolhas eram densas, com peso de água dentro, e rebentavam em cima da Étoile como socos molhados. Quando ela avançou de novo, vinha revestida de uma película que não saía — e mais lenta, os movimentos com um atraso pequeno que antes não estava lá.
Água agarrada ao corpo.
Peso morto em cada gesto.
Camada sobre camada: cheiro para embotar, água para pesar. Ela estava a compor. A certa altura a fotografia estaria pronta e o disparo final seria só consequência. Compor leva tempo — e tempo era a única coisa que dava para roubar.
— Étoile. — Calem baixou a voz e fez o gesto pequeno, o de casa e então assobiu. Pedia que cantasse.
A Clefairy sentou-se no meio do campo molhado, fechou os olhos e cantou.
Três notas finas, desafinadas, tristes de uma maneira que não combinava com nada ali.
Durante cinco segundos não aconteceu coisa nenhuma.
Depois os arcos do Surskit alargaram. As antenas desceram. Uma pata falhou o apoio, corrigiu, falhou de novo — e o bicho dobrou-se todo ao mesmo tempo, devagar, uma barraca a fechar, e ficou dormindo no meio do campo com o próprio perfume ainda no ar por cima.
— Contraluz — disse a Viola, seca, e nada respondeu.
— Voz.
O grito afiado atravessou o campo — de som não se desvia — e o Surskit acordou já a cair, escorregou nas próprias bolhas, bateu de lado, não levantou.
A Viola recolheu-o com um movimento que já vinha a meio antes de o bicho acabar de cair. Não disse nada sobre a derrota.
— Você conta.
E soltou a segunda bola antes de ele perceber o que aquilo queria dizer.
A Vivillon subiu para cima dos focos e ficou lá, e o ginásio pareceu montado para aquele momento — talvez estivesse; tudo ali era dela —, a criatura enorme aberta contra o escuro, o pó das asas a arder na luz branca, poeira de gesso num raio de sol.
Bonita à maneira das coisas que estão muito acima e não têm pressa.
— Vai — disse Calem, com a mão aberta e as bolhas da palma a arder, e o Torchic foi. Pequeno e terrestre, ainda torto da madeira molhada, para debaixo de um predador com asas.
— Revelação.
A Vivillon bateu as asas uma vez, com força, e o que desceu não era poeira: escamas, cada uma menor que um grão de farinha, milhares, soltas num véu amarelo que ficou suspenso na luz e depois assentou, devagar, ocupando o ar à volta do Torchic como um clima.
O bicho saltou de lado.
Não se salta para fora do ar.
Respirou aquilo.
O efeito não foi teatral, e por isso foi pior.
O Torchic deu dois passos e o terceiro saiu emperrado. Deu mais um e a pata respondeu tarde. E Calem viu, com uma nitidez que preferia não ter, o que se passava dentro do bicho: as ordens continuavam chegando.
— É no pulmão! — A voz do Trevor veio alta da zona de assistência; estava de pé, as mãos no cabo de guia. — Não deixes... o pó, ele não pode respirar mais daquilo! Tira-o da nuvem!
O corpo tentava, os músculos tremiam de tentar, mas qualquer coisa entre o nervo e a carne fora cortada, e o Torchic ficou no meio do campo disparando comandos para um corpo que deixara de atender.
Calem chamou pelo nome. O Torchic arrastou-se dois passos para fora do véu amarelo, e respirou, e o peito assobiava.
E a Viola parou de falar.
Calem levou três trocas a perceber que aquilo era o contra-ataque. Até ali ela anunciara cada lance — abertura, exposição, revelação — e ele contara em cima da voz: a cadência, o intervalo entre o comando e o golpe.
Era o método dele, ler o ritmo do adversário e chegar meio passo antes.
Agora não havia voz.
A Vivillon caçava sozinha, num silêncio treinado, e o silêncio não tem cadência. O polegar do Calem bateu na perna à procura de um tempo que já não existia.
Olhou para a Viola. Estava parada na beira do campo, os braços cruzados por cima da máquina, olhando para ele. Vi como jogas. Agora joga sem isso.
A borboleta desceu.
Não atacou de frente. Passou rente, o zumbido áspero das asas a bater em cima do Torchic como uma lixa de ar, e subiu, e desceu do outro lado. E o vento das passagens, rajadas curtas, dirigidas, tinha um destino: cada rajada arrastava o Torchic meio palmo na direção das tábuas molhadas, onde as garras dele não pegavam.
Calem viu o desenho da coisa e sentiu frio.
Ela estava pastoreando-lhe o bicho.
Encurralando uma presa terrestre, travada, no único canto do campo onde a presa não conseguiria sequer ficar de pé. Sem pressa nenhuma. Caça de quem tem asas contra quem não tem nada.
O Torchic escorregou.
Firmou.
O peito assobiava, a terceira pálpebra descia num dos olhos, e ele continuava tentando obedecer ao último nome, virado para o Calem, à espera da ordem seguinte com o corpo a desligar por partes.
Trocar já não dava. E mesmo que desse: recuar agora era pagar o preço e recusar a mercadoria.
— Fogo — disse Calem, com o punho fechado, e a voz saiu mais alta do que ele queria.
O corpo tentou. O peito encheu, o pescoço esticou — a paralisia mordeu no meio, e o que saiu foi uma faísca cuspida que morreu a dois palmos. A Vivillon passou por cima de novo. O Torchic caiu de lado, levantou-se com as pernas em direções diferentes, ficou.
— Fogo.
E dessa vez o corpo obedeceu.
O Torchic firmou as pernas emperradas, encheu o peito até parecer que rachava, e soltou — não uma faísca: uma golfada, uma língua de fogo alaranjado que subiu em diagonal e apanhou a Vivillon de baixo para cima, em cheio na asa esquerda.
O grito da borboleta não parecia de inseto.
As asas bateram sem compasso, despejando pó em nuvens, e ela despencou dois metros antes de se segurar no ar.
O cheiro chegou à plataforma um segundo depois, e Calem conhecia-o sem nunca o ter sentido: cabelo queimado. A asa esquerda tinha um continente escuro comido no desenho, as bordas ainda a fumegar, e onde a escama ardera ficara uma membrana nua, cinzenta, que deixava passar a luz dos focos.
O ginásio ficou em silêncio um instante. O Trevor estava de pé.
E a Viola falou pela primeira vez em minutos, uma palavra só, a voz vinda de um sítio mais fundo:
— Infestação.
O que desceu da Vivillon não foi pó. Foi vida. Um enxame — coisas mínimas, aos milhares, um granulado escuro que caiu sobre o Torchic e não se dissipou: agarrou, entrou pelas penas, à procura da base delas, onde o sangue corre mais perto da pele, e ali ficou.
O Torchic arrancou penas do próprio peito a tentar chegar àquilo, que não se bica nem se sacode. O assobio da respiração dele ouvia-se da beira do campo.
Ela já não podia ganhar depressa; ia ganhar devagar.
Prendê-lo ali, deixá-lo ser drenado grama a grama, e que o fogo dele caísse junto.
E Calem fez a conta que não queria fazer, com o coração a bater-lhe nos ouvidos e o bicho a olhar para ele por entre o enxame: a Vivillon estava por um fio.
O fio era o Ember que já estava pago.
Tirar o Torchic, era rasgar o recibo.
— Fogo — disse ele, e odiou o próprio tom, porque saiu firme.
O Torchic virou-se para a borboleta. As pernas falharam. Firmou. O peito encheu, esvaziou em nada, encheu de novo — e a paralisia venceu.
O bicho ficou rígido meio segundo, tremendo, ardendo por dentro de uma coisa que não saía, e a Vivillon passou rente com a lixa de ar, e o enxame apertou, e o pequeno
Torchic caiu.
Tentou levantar-se. Levantou meio corpo. Deitou e Calem soube que ali não houve decisão nenhuma, só o fim da corda.
Deu por si já no meio do campo. Ajoelhou na madeira molhada, recolheu o bicho com as duas mãos, e ficou um instante com a bola fechada na palma, quente, as bolhas da pele a arder contra o metal.
— Custou-te um — disse a Viola, do lado dela, num tom de contagem. — E você sabia disso quando o deixou em campo.
Calem levantou-se. Não respondeu, porque a única resposta honesta era sim, fiz a conta com o bicho dentro dela, e ele não queria ouvir-se a dizê-lo.
— Étoile.
A Clefairy entrou pela segunda vez.
A Vivillon, livre do vínculo, subiu de novo para a luz, mas subiu mal, aos arrancos, a asa queimada a falhar o compasso, a membrana nua a deixar passar claridade a cada batida. Lá de cima desceu vento, rajadas batidas que fizeram a Étoile cravar os pés e inclinar-se e aguentar.
Vento; era o que restava à borboleta. A mulher e a criatura pareciam sabê-lo ao mesmo tempo.
A Viola não deu comando nenhum.
Levantou a máquina.
E a Étoile começou a acender.
Não foi de repente. Nasceu do peito como nascem as brasas quando alguém sopra: um calor primeiro, uma claridade rosada depois, subindo pela garganta e pelas orelhas até ao ar em volta, e o campo mudou de cor, o branco duro dos focos a amornar onde a luz dela tocava. Calem já a vira brilhar — no torneio. Nunca assim. Nunca com esta fome.
Viu a luz chegar à máquina.
Viu porque estava olhando para a Viola no momento errado: a claridade rosada entrou pela objetiva e abriu dentro do vidro, desdobrada nas lentes em anéis, um dentro do outro, halos cor-de-rosa empilhados no fundo escuro do tubo, e por um instante a máquina dela pareceu acesa por dentro, um olho com fogo atrás.
A Viola não a baixou.
O dedo disparou. O estalo seco, uma vez, outra, cada disparo com aquele incêndio pequeno dentro do vidro.
— Étoile — disse Calem. — Voz.
A Clefairy abriu os braços, encheu o peito, e o som e a luz saíram juntos. O grito atravessou o campo, apanhou a Vivillon em cheio no voo trocado, e a borboleta dobrou no ar — as asas a fechar como um livro que cai — e desceu, e bateu na madeira, e não se mexeu mais.
E a luz não apagou.
Foi isso que Calem viu, no silêncio depois da queda: a Étoile ainda acesa no meio do campo, o golpe dado, a adversária no chão.
A claridade rosada dela inteira puxada para um lado, como uma agulha de bússola presa a um norte que não era nenhum dos que estavam ali, só parou quando ela deu uma investida final na borboleta que a fez cair para próxima de Viola.
A Viola baixou a máquina muito devagar. Estava branca.
— Ganhou — disse. A palavra saiu administrativa e a cara não. — A insígnia é sua.

Ficou parada mais um momento.
Depois qualquer coisa nela arrumou-se, e foi à tenda buscar uma caixa pequena de madeira.
Calem atravessou o campo.
Ela abriu a caixa: lá dentro, sobre feltro, uma fila de insígnias iguais, o escaravelho pequeno de metal esverdeado. Tirou uma e não lhe deu logo. Ficou olhando para ele, outra vez com o olhar do princípio, o que trabalhava.
— Sabe o que eu fotografo numa batalha? Não é o golpe. O golpe, qualquer ecrã apanha. — Rodou a insígnia nos dedos, devagar. — Eu fotografo o treinador no meio da troca, quando o bicho dele está no ar e já não há nada a fazer senão esperar. É aí que as caras dizem a verdade. Uns rezam. Uns fecham os olhos. — Olhou-lhe a cara, a medi-la para um retrato que não anunciou. — Você conta. Vi você batendo o tempo com o polegar, contra a perna, as trocas todas.
Calem não tinha dado.
Fechou a mão sem querer.
— O teu jogo inteiro está construído para não precisar de confiar em nada. Nem na sorte, nem no bicho. Em ti ainda menos. Só na conta. — O tom não acusava; arquivava. — E a conta chegou-te hoje, contra mim, num campo pequeno, com regras, mas eu digo-te o que vi da minha ponta: houve um momento, quando a ave caiu, em que paraste de contar. Três segundos, talvez. Atravessaste o campo sem calcular o campo.
Posou-lhe a insígnia na palma e fechou-lhe os dedos por cima, num gesto rápido, quase administrativo.
— Lá mais para a frente, nesta Liga ou fora dela, vai dar com uma coisa que não cabe em conta nenhuma. Nesse dia, os três segundos valem-te mais do que isto. — Soltou-lhe a mão. — É um conselho.
Fechou a caixa das insígnias.
E ficou com as duas Pokébolas na mão, sem as prender ao cinto, olhando de um para o outro — do Calem ao Trevor, do Trevor ao Calem — por um tempo que passou do confortável, pesando uma coisa cara antes de a gastar.
— Conheci uma pessoa que olhava para as coisas como vocês os dois olham — disse, por fim. — Que não conseguia parar de olhar. Passei quinze anos a evitar gente com esse olhar, porque sei como acaba. — A mão apertou as duas pokébolas. — E vou fazer agora a coisa mais burra que fiz nestes vinte anos.
Soltou as duas ali mesmo, no meio do campo.
O Surskit e a Vivillon saíram da luz novamente.
E a Viola virou as costas.
Foi até à mesa da tenda, abriu a máquina, começou a trocar o rolo — os mesmos gestos do início, por tato, sem pressa — enquanto no campo dela, a meia dúzia de passos, a borboleta que vinte minutos antes caíra com a asa comida pelo fogo subia agora direita na luz, o compasso limpo, o desenho sem uma falha. O Surskit fazia círculos frescos, firme, um bicho saído de uma boa noite de sono. Ela não olhou uma única vez.
Calem olhou para a asa. Olhou para a mulher de costas. E disse:
— Eu queimei essa asa.
— Queimou — disse a Viola, sem se virar.
— Faz quase meia hora.
— Vinte e cinco minutos e dez segundos. — Fechou a tampa da máquina. O estalo seco. — Eu cronometrei. Faço isto há duas semanas.
— Então não é teste. — Trevor deu um passo para dentro do campo. — A senhora quer que a gente veja. Podia ter guardado os dois na bola e a gente ia embora daqui sem saber de nada. Soltou porque quer alguma coisa. — Não levantou a voz; era o tom de quem confere um preço. — Diga o que é, e a gente decide se paga.
A Viola virou-se. Olhou para ele um momento comprido, e o que lhe passou pela cara foi recálculo, não irritação. Calem conhecia aquilo de mesa de batalha: a cara de alguém que preparou uma abertura e viu o adversário não entrar nela.
— O teu amigo teria dado três voltas antes de chegar aí — disse ela.
— Por isso ele repara em coisas que eu não reparo. — Calem sustentou o olhar. — E por isso eu pergunto o que é que ele ainda está a mon—
— Os dois métodos funcionam — disse Trevor. — mas antes de negociar seja o que for, eu digo o que já sei. Para ninguém nos vender o que a gente já tem. — Levantou um dedo, e era para a Viola, não para o Calem. — Não há aqui máquina de tratamento. A tenda é equipamento de revelação; eu olhei. Poção não refaz asa queimada. Encosta ferida, e a senhora não lhes tocou depois da batalha. Ninguém tratou. Eles trataram-se sozinhos. Em meia hora.
— Vinte e cinco minutos e dez segundos. — disse a Viola. — E estão os dois enganados numa coisa: isso não é o estranho. Bicho sara; sarar é o que a vida faz. O estranho é o gradiente. — Veio andando até à beira do campo, e o Surskit acompanhou-a, deslizando. — Um Weedle da equipa de limpeza magoou-se na rua central a semana passada. Três dias para fechar a ferida. O mesmo corte, num bicho daqui de dentro: um dia. Encostado à parede do fundo — apontou com o queixo a parede atrás da tenda —, uma tarde. Este ginásio é um dos últimos prédios da cidade. Atrás daquela parede não há rua. Há mato.
Cruzou os braços por cima da máquina.
— E há uma conta que não fecha, e é a única que me interessa. — O queixo apontou a Vivillon. — Refazer uma asa daquelas são milhões de células novas. Divisão celular, proteína nova. Isso custa energia, e custa muita — mais do que esse bicho come numa semana. Ele refez em vinte e cinco minutos. Diga você, que conta: de onde veio a energia? Da comida não veio. De mim também não. — Parou ali, como quem chega ao fim do que sabe dizer em voz alta sobre uma coisa que ainda não fechou. — É a única conta desta cidade que ainda não consegui acertar.
— A senhora mandou-me chamar por causa disso — disse Calem. — Não foi lista nenhuma.
— Foi lista também. — Ela não pestanejou. — Mentira boa dispensa mentir: os quarenta e três nomes existem, a cidade está rebentando pelas costuras, e eu quero toda a gente fora, mas admito, eu vi a tua Clefairy no ecrã do torneio, do outro lado da cidade, numa imagem má — e aquilo não era brilho de golpe. Golpes, conheço-os todos. Aquilo acendeu de dentro. — Os olhos dela foram à Étoile, no ombro dele, e ficaram. — Precisava de ver de perto. Estranhei que chegasse apagada. Depois acendeu na hora que importava, e apontou para a parede errada. Para o meu mato. — Voltou ao Calem. — Ganhaste a insígnia limpa, mas eu tinha-te dado a batalha de qualquer maneira, só para ver isso. Pronto. Está pago o que eu devia.
— Então agora somos nós que devemos — disse o Trevor.
— Nesta cidade a tarifa é recíproca. — Ela esperou.
Calem olhou para o Trevor. O Trevor fazia contas e Calem viu o momento em que decidiu, e viu que ia pagar com a peça cara.
— A minha Flabébé anda meio estranha também.— disse o Trevor. — As pétalas dela... não é um padrão comum
— Desde a irrupção?
— Desde que chegamos a Santalune.
A Viola não se mexeu.
Qualquer coisa na cara dela mudou de sítio, e Calem, que passara a manhã a ser lido por aquela mulher, viu pela primeira vez a leitura correr ao contrário.
— Isso vale mais do que você pensa — disse ela, devagar.
— Eu sei quanto vale. Por isso paguei com isso.
— E eu completo — disse Calem. — A Étoile não brilha desde sempre. Foi só no torneio, agora que você citou o mato, isso dá em direção da floresta. Se o seu gradiente estiver certo, o brilho dela é um mapa. Quanto mais perto, mais acende.
A Viola olhou para ele, e desta vez demorou.
— Eu levava uma semana a montar isso com fotografias — disse. — Vocês os dois juntos são um problema para alguém. Espero que escolham bem para quem.
Foi à tenda e voltou com um envelope pardo, gasto nas dobras, e tirou uma fotografia e estendeu-a — ao Calem.
Era a floresta. A orla, ao fim da tarde, as copas escuras contra um resto de céu. E entre os troncos, no fundo, onde devia ser só escuro, havia claridade. Nem fogo nem lâmpada: uma luz estranha, difusa, subindo do chão por entre as árvores, sem fonte nenhuma.
— Há cinco dias. Tenho vinte iguais. — A Viola recolheu a foto antes que o Trevor lhe pegasse, e guardou o envelope debaixo do braço. O gesto era claro: viram; não ficam com ela. — E agora vou contar uma coisa uma vez só, do tamanho que eu escolher, e não respondo a perguntas sobre ela. — Esperou até os dois perceberem os termos. — Quando eu era menina, uma mulher andou fazendo perguntas sobre essa floresta. Juliette. Desapareceu, e nunca ninguém soube. Anos depois, eu e a minha irmã cismamos de refazer o caminho dela. Novas e burras, convencidas de que éramos as primeiras a reparar em alguma coisa. Desistimos. As duas. — O envelope apertou-se-lhe debaixo do braço. — É todo o tamanho que essa história tem hoje.
— A senhora mediu duas semanas — disse Calem. — Tem opinião. Diga.
— Tenho. — Olhou para os dois, um de cada vez, demorando em cada um o tempo de um enquadramento. — Gente não desaparece por causa de árvores. Desaparece por causa de homens. Se vão puxar esse fio, puxem pelo lado dos homens
O silêncio a seguir tinha o barulho de fora dentro dele, fundo, contínuo, vindo do lado que a luz da Étoile tinha apontado.
Foi o Trevor que o quebrou.
E a voz dele veio sem peso nenhum, que era sempre o pior sinal.
— A senhora cobra tarifa recíproca. Então eu pago mais uma. De graça. — Deu um passo. — No dia da irupção antes das sete, com a cidade já às escuras, eu vi a senhora na porta lateral do ginásio. Com o prefeito.
O Surskit parou de deslizar.
A mão da Viola subiu até à máquina no peito e fechou-se na correia.
Trevor não desviou o olhar.
— Então me diga uma coisa. Quem puxou quem?










