Capítulo 07
Círculo
— Onde? — A voz saiu plana. — E como?
— Porta lateral do ginásio — Trevor voltou a repetir. — De noite, antes das sete. A senhora estava com o prefeito.
Trevor conhecia aquele intervalo.
A Viola não desviou os olhos nem encheu o silêncio.
Recalculou.
Quando falou, devolveu a pergunta no lugar de qualquer resposta.
— O teu ângulo é melhor do que o meu. Isso é raro — deixou escapar uma risinho curto, sem alegria nenhuma dentro. — E o que você acha que viu?
— Uma Líder a ser pressionada. A concordar com uma coisa que não queria.
— Você tirou isso de uma porta e de duas silhuetas às sete da noite?
— Tiro da distância entre a senhora e ele. Meio passo além do normal. E da ordem de saída: você saiu primeiro, sem despedida — Trevor falava no tom de sempre, o de inventário. — Reunião boa não termina assim.
A Viola olhou para ele um tempo comprido.
Pegou a prancheta de mola, leu o que ela própria tinha escrito ali de manhã e largou-a de novo. Um gesto sem função. Trevor registou-o justamente por isso e viu Calem registá-lo também: era a primeira coisa que ela fazia desde que eles tinham chegado que não servia para nada.
Foi Trevor quem olhou para o quadro de cortiça na parede da tenda.
Calem seguiu-lhe o olhar e demorou a achar, porque não havia nada para achar e o nada para Trevor era o assunto. Entre duas fotografias presas com percevejo, um retângulo mais claro que o resto da cortiça. Quatro furos limpos nos cantos.
— O que ficava ali? — perguntou Trevor.
A Viola não precisou de olhar.
— Uma fotografia.
— A senhora tirou-a.
— No dia da irrupção à noite. Antes das oito.
A conta fez-se sozinha na cabeça do Trevor, e o frio dela chegou com atraso, do jeito das contas grandes: às sete, a mulher está numa porta lateral com o prefeito; às oito, a fotografia já não está mais na parede.
A Viola hesitou e olhou para o retângulo vazio. Os dedos tamborilaram na correia da máquina.
— Devia ter destruído há vinte e cinco anos e nunca tive coragem — A voz saiu mais devagar do que o resto. — Tirei-a com a máquina do meu pai. Tinha sete anos. A floresta andava esquisita nessa altura também — foi o ano em que uma mulher chamada Juliette desapareceu.
Os olhos de ambos se abriram, reconhecendo o nome.
— Anos depois, já adolescente, a minha irmã e eu tentamos perceber o que lhe tinha acontecido. Fomos travadas. Confiscaram quase tudo o que eu tinha fotografado nessa altura. — Uma pausa. — Mas ninguém foi à procura de uma foto de menina de sete anos, tirada muito antes de eu sequer saber o que estava a fotografar. Nunca souberam que ela existia. Guardei-a. Pendurei-a na minha própria parede, no meio de mil fotos de batalha, porque ninguém procura o que está à vista.
— E o Marchais sabia que faltava uma — disse Trevor, juntando as peças em voz alta antes de as ter todas.
— Descobriu no dia em que veio cá pela primeira vez, com o dossiê das fotos que tinham confiscado. — Os dedos apertaram a correia. — Fechámos um acordo nesse dia: eu ficava no meu canto e ninguém fazia perguntas sobre as brocas na floresta funda. Em troca, a prefeitura financiava as defesas da cidade. E o ginásio. — Encolheu os ombros, um gesto que não combinava com o resto da voz. — Pareceu-me razoável. Achei que ele estava a ser corrupto e incompetente, a tentar tapar um problema ecológico com força bruta antes que espantasse o turismo e os fundos da Liga. Os meus números batiam certo dentro dessa mentira. Não perguntei mais.
— E no dia da irrupção? — perguntou Trevor.
— Ele veio ter comigo outra vez, foi aí que você nos apanhou. Mais nervoso do que da primeira vez — a floresta está acelerando, e ele sabe. Queria a peça que faltava. — A Viola olhou para o retângulo vazio. — Cheguei aqui depois de falar com ele e tirei a fotografia da parede antes de tirar o casaco. Vinte e cinco anos escondida à vista de toda a gente, e eu entrei em pânico numa noite.
Foi à mesa, abriu a gaveta de baixo — não a do mapa — e tirou um envelope pequeno, os cantos moles de anos a ser aberto e fechado. Tirou a fotografia com dois dedos, segurando-a pela borda, como quem segura algo que ainda pode morder.
— O fato de ele estar com pressa outra vez é o que me assusta.
Estendeu-a. Não ao Calem — ao Trevor.
Era escura, o grão grosso das máquinas antigas, tirada com pouca luz e provavelmente com pressa. Entre os troncos, ao fundo, um vulto alto e estreito, vertical, sem ramos que se distinguissem do resto — podia ser um tronco morto. Podia ser outra coisa. O desfoque não deixava saber onde acabava a floresta e onde começava a forma.
— Isto é uma árvore — disse Calem, olhando por cima do ombro do Trevor.
— Também achei isso, aos sete anos. — A Viola não pediu a foto de volta. — Passei doze anos a decidir que sim, era uma árvore. E outros treze a não conseguir voltar a decidir isso com a mesma certeza.
Trevor virou a fotografia contra a luz, os olhos a percorrer os troncos ao fundo, tentando procurar por alguma coisa, uma curva de tronco, uma clareira, qualquer coisa que se pudesse comparar depois a um lugar real.
— Sabe onde foi tirada? — perguntou Calem.
— Não sei dizer em metros.
Foi à mesa, abriu uma gaveta, tirou uma folha A4 dobrada em quatro, um mapa, desenhado à mão com caneta preta, os postes de vigilância marcados a vermelho, a orla noroeste assinalada a azul. Usou o dedo para marcar um ponto antes de o dobrar outra vez e o estender.
Usou o dedo para marcar um ponto.
— Mas sei dizer em direção. Ali. — O dedo não saiu do mapa enquanto falava. Só depois dobrou-o outra vez e o estendeu.
A Viola tocou a borda da fotografia com dois dedos, detendo por um instante — e a voz baixou.
— Se ele descobrir que eu andei a guardar isto por tanto tempo e nunca disse nada a ninguém não sobra ginásio nenhum para eu defender. — A voz dela endureceu, não de raiva; de alguém a dizer em voz alta uma conta que já tinha feito sozinha várias vezes. — Não é só o emprego. É a Juliette outra vez. Vinte e cinco anos depois, e ainda seria eu quem escondeu.
Ninguém disse nada durante um momento comprido o suficiente para deixar de ser silêncio confortável.
— Vocês vão. Eu fico — Antecipou a pergunta antes que alguém a fizesse. — Se eu desaparecer da cidade na mesma noite em que vocês entram na floresta, é a primeira coisa que ele vai somar. Uma Líder de Ginásio fora do lugar dela é notícia. Dois garotos perdidos na mata é acidente.
Nós vamos — disse Calem. — mas não precisamos das suas anotações, já temos o mapa.
— Os guardas passam na orla às dez e meia da noite. Entrem depois das onze; a ronda seguinte é só à uma e meia, e até lá a linha fica vazia. — Fez uma pausa curta. — E desliguem os Holo Casters antes de cruzarem o perímetro.
Trevor franziu a testa.
— Eles conseguem rastrear?
— Não sei até onde conseguem. Também não quero descobrir. Se algum dispositivo continuar a emitir sinal quando vocês estiverem lá dentro, assumam que alguém pode estar vendo exatamente onde estão.
Os dois amigos se entreolharam.
— Não estou pedindo que sejam heróis — disse Viola, e a voz não mudou de temperatura. — Estou limpando a minha tenda. O que fizerem com o lixo que vos dou é convosco.
Calem consentiu com um sorriso.
— Nós vamos.
Viola assentiu, uma vez, e não disse mais nada, mas quando eles se viraram para sair, ela ainda estava olhando para o quadro de cortiça, para o retângulo mais claro onde a fotografia devia estar.
E Trevor ouviu-a murmurar, para ninguém:
— Se eu estiver errada, nunca me perdoo.
***
Saíram depois das dez, um de cada vez, com trinta segundos de intervalo que ninguém cronometrou a não ser o Trevor.
A Shauna e o Tierno tinham ouvido o plano à tarde, no quarto, com o mapa da Viola aberto em cima da cama — o Shauna a fazer perguntas a mais, a Tierno nenhuma.
Fez uma piada sobre o mapa parecer desenhado por uma criança, e riu-se dele sozinho, um segundo depois de ninguém mais rir.
Trevor registou o atraso sem comentar.
O terceiro degrau ficou por pisar quatro vezes. Na cozinha havia luz, uma tira amarela por baixo da porta, e a luz não se mexeu quando passaram. Se a Madame Élise os ouviu, deixou-os ir.
— Holos desligados — disse Shauna, a voz mal acima de um sussurro.
Já tinha guardado o aparelho no bolso interior do casaco, a mão a apertar o tecido por cima dele, como se o pudesse sentir a emitir sinal.
Entraram.
A floresta engoliu-os em três passos.
A luz da lua desapareceu como se cortada por uma lâmina. O que restou foi uma penumbra densa, composta por sombras sobrepostas, que os olhos demoravam a decifrar. As árvores erguiam-se de ambos os lados, os troncos tão próximos que, em certos trechos, era preciso desviar-se para passar. Ramos baixos roçavam-lhes os ombros, as folhas húmidas a deixarem rastos de água nos casacos.
Trevor não se lembrava de a floresta estar assim tão densa comparada da última vez que vieram dela.
O chão era uma camada espessa de folhas vivas e musgo, que afundava sob os pés como uma esponja que guardava cada passo.
Calem ia na frente, Trevor logo atrás contando absolutamente tudo, passos, marcas, o intervalo entre uma árvore e a seguinte, o método de sempre, o único em que confiava. A floresta desfez-lhe a métrica em menos de um minuto: o musgo engolia os calcanhares antes de o pé assentar, cada avanço custava um esforço diferente do anterior, e a conta partia-se sempre nos mesmos vinte e poucos, como se o chão se recusasse a ficar quieto tempo suficiente para ser medido.
Tentou outra vez.
Partiu-se outra vez, no mesmo sítio.
Cada árvore tinha uma temperatura diferente, uma textura diferente. Umas eram rugosas, secas, com a casca a descamar sob a pressão. Outras, lisas, cobertas por uma camada de musgo que escorregava como pele molhada e as que pareciam ser mais velhas, as maiores estavam mornas.
— A temperatura está subindo — murmurou, parando por um instante. Os dedos ainda pousados no tronco de uma árvore de casca escura, as rugas da madeira a formarem padrões que pareciam desenhados. — Não é o ar. É o chão. A terra está ficando mais quente.
Shauna arqueou a sobrancelha e agachou-se, enfiando a mão na camada de folhas mortas, até tocar o solo. Os dedos afundaram-se na terra fofa, húmida.
— Está morna. — A voz saiu-lhe mais baixa. — Como a raiz da loja.
Calem não respondeu.
Étoile, no seu ombro, acabara de acender.
Novamente, uma luz intensa, mais viva, que se derramou do corpo da Clefairy como água a transbordar de um copo cheio. O rosado tornou-se mais quente, mais profundo, e projetou-se para a frente, numa direção precisa, teimosa, de corpo inteiro.
O rosto de Calem, iluminado por ela, ficou pálido.
— Ela nunca brilhou assim — disse ele, e a voz desceu meio tom. — Nem no torneio, nem na batalha contra Viola.
A luz da Étoile varreu o chão à frente deles, e Trevor viu o que o escuro escondia: as marcas de pneus sulcando o barro, as pegadas, os rastos de máquinas pesadas que se arrastavam para o interior da floresta.
Cada marca mais do que nítida, como se tivesse sido deixada naquele mesmo instante.
A Flabébé, no ombro de Trevor, abriu as pétalas novamente.
Foi uma abertura brusca, quase violenta, com um estalido mínimo de seiva no caule — um som de coisa verde a partir-se sem chegar a partir. As pétalas abriram-se em toda a extensão, o centro pálido exposto, e inclinaram-se para o mesmo lado que a luz da Étoile.
— Ela também está apontando — disse Trevor nervoso, os dedos a tocarem a pétala mais próxima. Queimava de leve, e no ponto onde a pétala nascia do caule formava-se uma gota de néctar, densa, que lhe escorreu quente pela pele. — As duas estão apontando para o mesmo sítio.
Shauna levantou-se, a mão ainda suja da terra morna. O Litleo, no colo, tinha as orelhas erguidas, o focinho virado para a frente.
— Não é só a terra — disse ela, e limpou a mão à calça duas vezes, a segunda mais devagar. — Está tudo assim.
A luz da Étoile criava um túnel de claridade rosada que cortava o escuro.
A Flabébé mantinha as pétalas abertas, viradas para o mesmo lado.
Cada passo que davam, se afundavam no musgo.
Trevor tinha desistido de contar.
— Não há insetos — murmurou Tierno, a voz abafada. — Nem grilos. Nem nada.
Ninguém respondeu, mas todos repararam no que ele dissera.
Seguiram.
Foi a mão que o avisou primeiro. Um tronco com uma curvatura que a palma jurava já ter tocado. O mesmo musgo pendurado à mesma altura. Ignorou. Passos depois, outra árvore que os dedos reconheceram antes dos olhos — e as seguintes, todas ao mesmo intervalo umas das outras, plantadas como fileiras.
— Isto é estranho — disse ele, parando. — As árvores estão alinhadas. Como se tivessem sido plantadas.
Calem parou também.
— Talvez tenham sido. — A voz dele era seca, prática.
— Mas isto não é cidade — insistiu Trevor. — Isto é fundo. Muito fundo. Ninguém planta árvores aqui.
Shauna agachou-se. Os dedos tocaram o solo, e ela sentiu a mesma terra morna que antes, porém a terra estava compacta, como se tivesse sido pisada muitas vezes. Não por máquinas — por pés.
— Há pegadas — disse ela, a voz mais baixa. — Muitas. Não são nossas.
Calem baixou-se para olhar. As pegadas eram antigas, as bordas desgastadas pelo musgo que voltara a crescer por cima. Mas o padrão era o mesmo: fileiras, alinhadas, em direção à frente.
— Isto é um caminho — disse Calem. — Foi feito de propósito. Há muito tempo.
Trevor sentiu a ansiedade a apertar-lhe o peito. O caminho levava para a frente. A Flabébé apontava para a frente. A Étoile apontava para a frente.
Tudo parecia certo, mas o desconforto continuava.
Continuaram.
Trevor voltou a tentar contar porque precisava de um número, de qualquer coisa que fosse dele. A conta morreu outra vez no terreno. E foi o corpo, não o número, que o avisou: o joelho dobrou-se sozinho para um desnível que já conhecia, a mão estendeu-se para um apoio que já lá tinha estado.
O tronco caído.
O mesmo.
A barba de musgo pendurada da casca rachada, o cheiro adocicado da madeira aberta.
— Esta árvore — disse ele, parando. — Já lhe toquei. Há bocado.
Calem aproximou-se.
Olhou para a curvatura, para a posição, para a barba de musgo.
— Você está certo — disse, a voz controlada, mas os olhos dele, Trevor viu, estavam tão indignados quanto os dele.
— Então andamos em círculo? — disse Tierno, a voz subindo um tom. — A luz da Étoile levou-nos de volta ao mesmo sítio?
Todos desceram novamente para tocar o chão. As pegadas antigas continuavam, mas as pegadas recentes, as deles, estavam lá também.
Um círculo perfeito.
— A Étoile não está guiando-nos — disse Calem, levantando-se. — Ela está apontando para o mesmo ponto. E o ponto... parece estar se movendo.
— Ou nós é que não estamos a andar em linha reta — disse Trevor, e deixou a frase por acabar, porque acabá-la era admitir o resto.
Tierno, que estivera em silêncio, falou:
— E o som? — A voz dele, invulgarmente séria. — A respiração. Ouvimo-la desde que entramos, mas não muda de volume. Não se aproxima. Não se afasta. Está sempre à mesma distância.
O silêncio que se seguiu foi cortado por um rangido — um galho a partir-se, vindo de trás, ninguém se virou. Já não era preciso. O som vinha sempre de trás, sempre à mesma distância.
— Estamos a ser seguidos? — disse Shauna. A voz dela, agora, tinha uma aresta que antes não tinha. — Há quanto tempo?
— Desde que entramos — respondeu Calem. — O volume não mudou desde o primeiro passo. Talvez algo na floresta não queria que todos nós entramos juntos, por isso...
O coração de Trevor bateu mais forte, e as mãos, ao contrário, aquietaram-se
Suor fino esfriou-lhe a nuca.
A peça que faltava.
O padrão que não encaixava, e isso lhe irritava.
— Então para onde é que ela quer que a gente vá? — perguntou Calem.
Trevor olhou para a Flabébé. Para o centro pálido, que brilhava com uma luz própria, mais intensa do que a da Étoile e para o desvio que a luz de ambas apontava, para um ponto fora dele.
— Estávamos a seguir o caminho errado — disse Trevor, devagar, como quem só ouve a própria conclusão ao dizê-la em voz alta. — As pegadas, as árvores alinhadas... isso é um circuito. Fecha sobre si mesmo. Alguém o construiu para isso. A Flabébé nunca seguiu essa trilha. Estava a apontar por cima dela o tempo todo, e eu só olhava para o chão.
Os três se entreolharam com dúvida.
— Para o sítio que aparece em todos os registos, sempre no mesmo lugar, cada vez que a floresta faz isto — disse Trevor, a voz firme agora. — Nunca é uma zona nova. É sempre a mesma coordenada.
Não precisou de dizer os números. Calem e Shauna já os tinham ouvido de manhã, na pensão, e o silêncio dos dois dizia que também os tinham guardado.
— E estão a fechar — disse ele, só isso. A voz baixou. —A Flabébé sabia disso antes de eu escrever. É por isso que ela nunca parou de apontar para o mesmo sítio: não é o lugar de uma vez. É o lugar de sempre, e desta vez está a chegar mais cedo do que da última.
Calem olhou para os amigos sem perceber metade cmas percebeu o suficiente.
— Então vamos.
***
A passagem era mais estreita do que parecia.
As árvores fechavam-se de ambos os lados, quase a tocarem os ombros de Trevor. A luz da Étoile, que antes iluminava um túnel claro, começava a ser absorvida pelas paredes de vegetação, como se as folhas bebericassem a claridade e a devolvessem em tom mais baço.
O mundo à volta deles encolhia.
O céu, se é que ainda existia, era uma nesga pálida e distante por cima das copas que se fechavam.
O silêncio regressou, mais denso do que à entrada — cheio de uma presença que não se via, não se ouvia, mas se sentia no ar mais denso.
Tierno, atrás, falou em voz baixa.
— O som mudou. A respiração. Está mais perto.
Calem não respondeu. Os olhos fixos no caminho, a Étoile no ombro, a luz a tremer ligeiramente como uma chama ao vento.
Avançaram mais.
Trevor começou a reparar em pormenores que antes não vira. As paredes da passagem não eram uniformes, em certos pontos, a terra e as raízes davam lugar a pedra.
Calcário, como o da cidade.
E na pedra, marcas. Riscos. Padrões. Linhas curvas e retas que se cruzavam, desenhando formas que os olhos demoravam a decifrar. Um círculo. Uma espiral. E no centro de uma delas, uma marca que parecia uma flor.
— Há inscrições na pedra — disse Shauna, parando. A mão tocou uma das superfícies de calcário, os dedos a seguirem os sulcos desgastados pelo tempo. — Isto não é natural. Alguém fez isto.
Calem aproximou-se, a luz da Étoile a banhar a pedra. As marcas eram antigas, as bordas arredondadas pela erosão de décadas ou séculos, mas o padrão era reconhecível: círculos concêntricos, semelhantes aos que Trevor vira nos relatórios.
Os mesmos.
Sempre os mesmos.
— Os selamentos — disse Calem, a voz seca. — São os mesmos símbolos. Os dos arquivos.
— Mas aqui estão na pedra — respondeu Trevor. — Não em papel. Isto é mais antigo. Muito mais antigo.
Avançaram.
As inscrições tornavam-se mais frequentes, mais densas. Em alguns pontos, a pedra estava coberta delas, um mosaico de símbolos que se sobrepunham uns aos outros, como se diferentes gerações tivessem deixado a sua marca sobre a dos anteriores. O mais recente, Trevor reparou, tinha um estilo diferente — mais limpo, mais angular. Letras. Palavras. Em Kalosiano.
— Não selar — leu ele, a voz a tremer ligeiramente. — Observar — O resto da linha estava gasto, a pedra comida por baixo das duas primeiras palavras, e nem a luz da Étoile chegava para separar o que sobrava de sulco do que já era só erosão. — Depois disto não dá para ler. Falta o resto.
— Quem escreveu isso? — perguntou Shauna.
Trevor demorou a responder.
A data, esculpida no canto inferior da inscrição, era 1638.
O mesmo ano que as margens apontavam. O mesmo ano que o primeiro relatório registava.
E os municipais que ele lera na véspera diziam o contrário desde sempre: selar, tapar, conter. Séculos disso. Duas mãos, outra vez — uma a mandar fechar, outra a mandar deixar aberto e olhar. E as duas mais velhas do que toda a gente viva.
— Foram eles — disse Trevor, a voz quase inaudível. — Os que marcaram o caminho. Eles sabiam o que estava aqui e disseram para não tocar.
Shauna semicerrou os olhos para as letras mais antigas, o hábito de quem decorou alfabetos à força para não ficar para trás na escola. — Estas letras eu conheço.
Agachada junto à base da pedra, tinha os dedos numa linha mais funda, quase apagada, separada do resto.
— Há mais uma palavra aqui em baixo — disse ela, e a testa franziu-se, o jeito de quem lê uma coisa e não confia no que está lendo. — Custos.
Trevor virou-se depressa de mais.
— Você tem certeza que é essa a palavra?
— Tenho a certeza. — Shauna não desviou os dedos da pedra. — É latim
Ele puxou o Holo Caster do bolso, o polegar já no atalho para as fotos do arquivo, à procura da margem onde jurava tê-la visto antes, Tierno deu um tapa na mão dele, lhe lembrando.
Não podiam usar Holo Casters ali.
— Não consigo confirmar — disse, e a frase custou-lhe a sair. — Não tenho a fotografia aqui. Só tenho o que você leu.
— Então confia no que eu li. — Shauna levantou-se. — Por uma vez.
— Custos — disse Calem, provando a palavra. — O quê, em latim?
— Guardião — disse Shauna, devagar, como se a tradução lhe chegasse de um sítio que ela própria não sabia nomear. — Aprendi na escola, achei que seria inútil, mas quem diria que iria precisar disso agora.
— Que escola é essa que ensina latim? — falou Tierno.
— Uma claramente melhor que a nossa. — comentou Calem e logo voltou ao assunto. — Alguém tocou — disse Calem. — A Empresa. Eles estão perfurando. Marcando. Desenterrando.
O silêncio que se seguiu foi cortado por um som novo — não a respiração da floresta, não os passos atrás deles. Um som líquido, como água a escorrer sobre pedra, vindo de mais à frente.
Contínuo. Rítmico.
A passagem alargou-se sem aviso, rompendo a garganta de vegetação.
O espaço que se abriu era uma clareira antiga, onde o chão de calcário partido gesticulava sob o musgo denso, e os líquenes pendiam das árvores como cortinas de renda. No centro, onde os troncos velhos recuavam por mútuo acordo, erguia-se o poço. Tinha as bordas talhadas à mão, polidas pelo tempo, uma pedra mais escura que o verniz administrativo da prefeitura.
Shauna parou, os olhos curtos na escuridão vazia.
Calem aproximou-se da borda. A Étoile, no ombro dele, não acendeu como um farol doméstico; o corpo da Clefairy pulsou um rosado cru, bilioso, que vertia para dentro da goela de pedra e morria antes de achar o fundo.
Um compasso lento, pesado, regular como a viscosidade de um fluido grosso a ser movido nas entranhas da terra. Aquela respiração que julgavam seguir desde a orla não vinha de trás. Estavam caminhando sobre ela o tempo todo.
— Não vejo o fundo — disse Calem. A voz era controlada, mas Trevor ouviu o que estava por baixo. — A luz não chega.
Trevor ajoelhou-se.
Enfiou os dedos na fenda entre o anel de pedra e o barro morno. A pele encontrou uma membrana húmida, algo que cedeu com a elasticidade da carne viva e regressou à forma original.
Ao puxar a mão, os dedos vinham sujos de um líquido escuro e denso, de reflexos oleosos, que retinha a escassa luz rosada na pele.
Trevor não tinha nome para aquilo.
Alguém, há muito tempo, descobrira o que estava no fundo do poço. E dissera, pelo menos, para não selar.
A Flabébé, no ombro, vibrava — uma vibração contínua, de bicho a tremer de febre. Uma gota desprendeu-se do centro pálido e caiu-lhe na mão: mais densa do que orvalho, quase leitosa, quente na pele. Ao lado, a Étoile não se mexia. Os olhos dela, dois brilhos escuros no rosto rosado, estavam fixos na escuridão que a luz não alcançava — fixos de mais, e a boca pequena entreaberta, sem som.
— Não vamos descer — disse Shauna. — Não esta noite. Não sem saber o que está lá em baixo.
— Mas a gente está tão perto... — falou Trevor.
— Trevor. — Tierno colocou a mão no ombro do amigo.
Ninguém discutiu. A Flabébé fechou as pétalas de repente — e o pulsar do poço, por um momento, pareceu acelerar.
***
O poço ficou para trás.
A passagem que os trouxera ainda estava lá, uma garganta escura na parede de vegetação, mas ao terceiro passo o chão desmentiu-a: mais macio do que à vinda, o calcário rendido a terra solta, o som dos passos a mudar de seco para abafado. Trevor procurava com a mão os troncos da ida e encontrava outros — ou os mesmos, mudados.
— Estamos no caminho certo? — perguntou Shauna.
— Sim — respondeu Calem, mas não parou e não confirmou.
Foi a Flabébé que desmentiu também.
O caule dobrou-se. Não as pétalas — o caule inteiro, vergado para a esquerda como um pulso torcido, e o peso dela no ombro de Trevor mudou: mais denso, febril. Uma segunda gota de néctar rebentou-lhe junto ao pescoço, e o cheiro era doce de mais, fruta aberta em plena noite. Do ombro do Calem, a Étoile virou a cara para o mesmo lado, e a brasa rosada do corpo dela inclinou-se, teimosa.
Havia ali uma abertura. Estreita, entre dois troncos, escura de nunca ter sido usada.
Ninguém disse vamos. Ninguém propôs nada. O Calem olhou para a Étoile, a Étoile olhou para o escuro, e o grupo dobrou-se para a abertura como a flor se tinha dobrado — de corpo inteiro, sem votação.
Trevor entrou em último, e foi o primeiro a perceber que já não saberia voltar.
O desvio apertava mais do que a passagem das inscrições: ramos à altura da cara, o chão a subir devagar. A luz da Flabébé e a brasa da Étoile eram tudo o que iluminava o caminho. O cheiro era diferente, mais doce, mais adocicado e mesmo assim Trevor sentiu a ansiedade a crescer-lhe no peito, mas não parou.
Shauna colada a Trevor, o Litleo ao peito; atrás, o Calem, e o Tierno a fechar, sem dança nenhuma nos passos agora.
— Você está ouvindo? — perguntou ela, a voz baixa.
O som era o mesmo que ouvira antes — o farfalhar nos ramos, seco e deliberado, mas agora estava mais perto e não vinha de cima. Vinha do caminho à frente.
— É o mesmo som — disse Tierno. — Está seguindo-nos.
— Ou está à nossa espera.
Avançaram.
O desvio curvava-se para a direita, depois para a esquerda, uma serpentina que parecia desenhar um padrão no chão. Trevor reparou que as marcas de pés, as pegadas antigas , desapareciam.
O chão estava limpo. Nunca pisado.
— Ninguém veio aqui — disse Trevor.
À frente, o chão não tinha uma única pegada.
O desvio abria em dois braços, e ali a Flabébé e a Étoile discordavam: o caule dela vergava para a esquerda, a brasa dela inclinava-se para a direita. Nenhuma das duas cedia.
— Então por que é que a Flabébé aponta para um lado e a Étoile para o outro? — perguntou Shauna.
Trevor não soube dizer.
A esquerda tinha pegadas antigas por baixo do musgo, a fileira que vinham seguindo desde a entrada. A direita não tinha nenhuma. Uma das duas luzes estava apontando para o mesmo caminho de sempre. A outra para um sítio a que ninguém, em quatrocentos anos, tinha achado motivo para ir.
— A esquerda é o caminho que já sabíamos — disse ele. — A direita é o que ainda não sabemos. Vamos pela direita.
— Há qualquer coisa ali — confirmou, apontando para a frente.
Foi o Houndour que respondeu primeiro.
O ladrido veio de perto e atrás dele uma luz branca riscou as copas por cima do desvio. Depois estática de rádio, e uma voz de homem, curta.
— Luzes — disse Calem, num sopro. A Étoile escureceu-lhe no ombro até restar uma brasa. — Atrás de nós.
Desceram o desvio em fila, Calem primeiro, o Tierno colado a ele, depois Shauna, Trevor a fechar.
O Calem e o Tierno saíram do desvio meio passo à frente deles — e a luz apanhou-os em cheio.
Um Holo aceso, um guarda de colete, um Houndour a puxar a trela com os dentes à mostra. Trevor agarrou o ombro de Shauna e puxou-a para trás, para a boca escura do desvio, para trás de um tronco. A mão dela encontrou a dele e apertou.
O Tierno não recuou. Avançou meio passo, os braços abertos, já dentro do papel antes de o escolher.
— Desculpe, senhor! Perdemo-nos! Estávamos a tentar encontrar o caminho de volta para a cidade! — A voz subiu ainda mais, quase a gritar, e Trevor percebeu o que ele estava fazendo. Não estava falando com o guarda. Estava falando para o escuro, para quem o escuro escondesse. Fiquem onde estão.
O guarda não era estúpido. Estreitou os olhos, e a mão foi à rádio.
— Estão avisando alguém. — Uma pausa de estática. — Reforços. Agora.
O Houndour soltou-se da trela.
O que aconteceu a seguir aconteceu tudo ao mesmo tempo. A luz da Étoile explodiu num clarão rosado que cegou o guarda; a voz do Calem cortou o clarão e atrás do primeiro guarda apareceram mais três, e um deles apontou a lanterna exatamente para o tronco onde eles estavam.
— Ali! Na lateral!
Dois guardas viraram para o desvio. Os outros ficaram com o Calem e o Tierno.
E a floresta reagiu.
As raízes que antes estavam imóveis, enterradas no musgo e na terra, agitaram-se como cordas puxadas de baixo.
Uma raiz grossa ergueu-se do chão, enroscou-se na perna do guarda mais próximo e puxou. O guarda caiu de costas, o Holo a voar, a luz a apagar-se. O Houndour rosnou, saltou por cima da raiz, e outra, mais fina, prendeu-lhe a pata traseira.
A raiz seguinte apanhou o tornozelo de Shauna.
Ela caiu com o peso todo, o Litleo a rebolar-lhe do colo, e Trevor puxou-a pelos braços e a raiz puxou de volta, e durante um segundo inteiro nenhum dos lados cedeu.
Foi o Litleo que a soltou: uma rajada de fogo curta, rente ao chão, e a raiz abriu-se a fumegar e recolheu à terra.
Shauna pôs-se de pé a coxear, o Litleo outra vez ao peito, e o que lhe saiu da boca não foram palavras.
Trevor pensou no tubo contra o peito, na coisa que raspara da fenda do poço, e não teve tempo de acabar o pensamento.
— Corre!
As raízes moviam-se em todas as direções, o musgo escorregadio debaixo dos pés, os ramos a baterem-lhes na cara. E no meio do escuro, atrás, Trevor ouviu a voz do Tierno, longe de mais, na direção errada, gritando qualquer coisa que já não se percebia, e o clarão rosado da Étoile bateu uma última vez nas copas até desaparecer.
Voltar atrás era entregar os dois pares em vez de um e começaram a correr o mais rápido que podiam.
Shauna parou de correr um instante, os olhos a varrerem o padrão das raízes que se erguiam à frente, não atrás. Reparou no que Trevor, olhando só para os pés, não tinha tempo de ver: as raízes atacavam sempre um passo depois de o pé pisar, nunca antes. O caminho que parecia mais limpo era o que ainda não tinha sido pisado por ninguém, logo, o que a floresta ainda não sabia que precisava de defender.
— Por aí não — disse ela, e puxou Trevor pelo braço na direção oposta à que ele ia tomar, para uma brecha entre troncos que parecia pior, mais fechada. — Por aqui ninguém pisou ainda. Ela ainda não armou nada.
Trevor não teve tempo de discutir a lógica, só de confiar nela.
O Litleo soltou uma rajada para iluminar e a luz dançou nas paredes de vegetação e mostrou, por um instante, o que estava à frente: uma clareira. Não a do poço. Outra.
— Ali! — gritou Shauna, apontando para a brecha que tinha escolhido.
Avançaram, e as raízes avançaram com eles, mas mais devagar do lado que Shauna tinha escolhido, um passo sempre atrás do que deviam estar.
Uma rasgou a manga da T-shirt de Trevor; outra falhou-lhe o pé por um palmo. Atrás, os dois guardas já não gritavam com eles, gritavam com o chão, com o que lhes subia pelas pernas.
A clareira estava à frente e nunca chegaram a entrar nela.
Qualquer coisa atingiu os guardas e logo em seguida Trevor à altura do ombro, arrancando o ar dos pulmões numa rotação cega contra a casca de um ulmeiro. Antes que conseguisse recompor a guarda, uma mão firme fechou-lhe na gola da T-shirt, puxando-o para a lama, atrás do escudo de uma laje de raízes reviradas.
— Abaixa a cabeça. — o sussurro de garota veio sem volume, colado ao ouvido dele, cortado por uma respiração curta que tentava, à força, domar o próprio ritmo.
Era Serena.
O cabelo assimétrico estava colado à testa pelo suor, os dedos cravados no flanco de um Eevee que tremia com o pelo eriçado e os dentes descobertos. Não vinha em socorro; estava fugindo há mais tempo do que eles. Shauna prendeu o focinho do Litleo contra o peito enquanto a luz branca das lanternas dos guardas varria as copas por cima das suas cabeças, ruidosa de estática e ordens curtas de rádio.
Sem olhar para ele, os olhos fixos na patrulha que passava a correr pelo flanco esquerdo, Serena enfiou a mão livre por dentro do bolso da calça de Trevor, rápida, áspera —empurrando um maço de papéis dobrados.
— Da biblioteca — disse ela, a voz fria de cansaço. — Se me apanharem, não apanham isto.
— O que é? — E, porque a pergunta certa importava mais: — Por que nos entrega isto a nós?
— Porque vi os vossos bichos, do outro lado do clarão. — Nem olhou para conferir; já tinha visto de longe, antes de decidir vir. — Uma Clefairy e uma Flabébé não brilham assim por acaso, nem apontam para o mesmo sítio ao mesmo tempo. Ando há dias à procura de gente que veja o que eu vejo. — Uma pausa, quase contra vontade. — Não vou parar para interrogar os primeiros que aparecem.
Três volumes cegos, quentes do corpo alheio, a baterem contra o esterno ao mesmo ritmo do sangue. Trevor correu atrás dela.
Correram os dois, ela à frente, lendo o chão no escuro — e as raízes, que não paravam de mexer, chegavam sempre um sopro atrasadas ao sítio onde os pés dela tinham estado. Atrás, algures, um homem gritou. Não a eles: ao chão.
Ninguém perguntou para onde iam. A Flabébé, no ombro de Trevor, tinha voltado a abrir as pétalas.
— Foi você... — ele disse enquanto corriam, ninguém o ouviu. — Foi você que invadiu a biblioteca primeiro!
A Flabébé já não apontava: puxava. O caule vergava-se todo para o mesmo lado, as pétalas rígidas de tensão, e o peso dela no ombro tinha mudado ainda mais denso. Trevor deixou de escolher o caminho e passou a segui-la pelo corpo, os pés a afundarem-se no musgo.
A Flabébé mantinha as pétalas abertas, o caule esticado. Trevor seguia-a.
Foi então que ouviu o som.
Por baixo do zumbido da terra, outro som. Mecânico. Metálico.
Trevor parou. Shauna parou atrás dele e Serena logo em seguida ao vê-los parar de correr.
A luz rosada à frente a que a Flabébé seguia, estava sendo engolida por outra. Mais forte. Mais fria. Branca.
Holofotes.
— Máquinas — disse Serena e depois, mais baixo, quase para si própria: — De noite, nunca. Nunca tinham vindo de noite.
O estômago fechou-se, um punho a apertar por dentro.
— Ela estava levando-nos para ali — disse ele, a voz num fio. — A Flabébé. Estava levando-nos para a luz.
— E os extratores estão no caminho — disse Serena.
O som dos motores crescia. A luz branca intensificava-se. As árvores à frente tremiam com a vibração das máquinas.
A Flabébé fechou as pétalas de repente.
A luz apagou-se.
Trevor ficou imóvel, o coração batendo-lhe nos ouvidos, a mão fechada no tubo. Algures atrás daquela parede de luz branca estavam o Calem e o Tierno, se ainda corriam.
Obrigou-se a acabar a conta de outra maneira: estavam correndo. O Tierno sabia fazer barulho na direção errada melhor do que ninguém, e o Calem sabia contar. Era com isso que ele tinha de viver até ao fim da noite.
Shauna tocou-lhe no ombro.
— Trevor?
— As máquinas — disse ele, a voz quase inaudível. — Estão exatamente no caminho dela.
O desvio levava para longe dos holofotes.
— Por aqui — disse Trevor, apontando para o desvio. — Ela está desviando-nos.
Serena olhou para o desvio, depois para a luz branca ao fundo.
— As máquinas estão chegando. Se elas vos encontrarem, não há conversa. São contratados da Dumont. Sabem o que têm de fazer.
— Então não nos encontram — disse Shauna logo em seguida e entrou no desvio.
O desvio era mais estreito do que os outros, mais escuro, e o cheiro a terra e metal era mais forte. Mas o caule dela não desfazia a curva: sabia para onde ia.
Mais à frente, Trevor parou.
A luz rosada estava mais perto agora — não à frente, mas por cima. Como se estivesse a sair do próprio chão. A Flabébé, no ombro, abriu as pétalas mais do que nunca. O centro pálido brilhou intensamente, e a luz projetou-se para cima, para a claridade que vinha da terra.
O peito apertou-lhe, curto, e a respiração saiu em duas metades em vez de uma.
Trevor não conseguiu falar. A Flabébé tremia-lhe no ombro. As pétalas vibravam, e o centro pálido brilhava com uma intensidade que ele nunca vira.
Ele tocou as pétalas. Queimavam. Calor de pedra ao meio-dia, em plena noite.
A luz rosada intensificou-se.
Tentou fazer a conta — o quê, quanto, desde quando — e não veio nenhuma. Não havia números para isto, tal como não tinha havido para a floresta inteira, e desta vez não lutou contra a falta deles. As mãos frias, o fio de voz que lhe restava: deu um passo à frente.
Trevor, pela primeira vez, perguntou em voz alta:
— Qual é o teu nome?
A luz rosada brilhou mais forte.
E o som das máquinas, atrás deles, aproximou-se.










