Capítulo 08
A Peça Que Faltava
A terra fugia debaixo dos pés de Calem.
Não parava de tropeçar, deixando completamente de ser uma corrida limpa. O corpo queixava-se de cada ramo que o açoitava no rosto e em cada raiz que tentava agarrar-lhe os tornozelos.
A sua lanterna biológica estava agora dentro da Pokébola para evitar ser avistado, e agora ele movia-se mais por instinto do que por visão, a silhueta das árvores recortada contra o céu noturno como fantoches de um teatro que ele não compreendia.
— Calem! — Tierno ofegou atrás dele — espera, espera...
— Não podemos parar.
Calem ouviu o som antes de ver a origem.
Holofotes.
Ainda distantes, mas a varrerem o dossel com uma precisão que não era aleatória. Os guardas sabiam que tinham perdido os intrusos na clareira, e agora estavam a alargar o perímetro. À procura deles.
Calem desviou para a esquerda, onde o terreno parecia descer ligeiramente.
Melhor, declive significava menos visibilidade para quem vinha de cima.
Significava também mais risco de escorregar, mas Calem preferia ossos contundidos a ser apanhado.
Tierno seguiu-o sem hesitar, ofegando a cada passada. O rapaz estava a fazer um esforço hercúleo para manter o ritmo, e Calem ouvia a respiração dele , curta, irregular, o som de alguém que estava a ultrapassar os próprios limites.
— Ali — Calem apontou para um aglomerado de arbustos altos, quase uma parede vegetal — atrás daquilo.
Mergulharam nos arbustos como dois animais a fugir de um incêndio. Galhos secos arranharam o casaco de Calem, e ele sentiu uma dor aguda no braço quando um ramo mais grosso rasgou o tecido e a pele por baixo.
Não parou.
Só se deixou cair no chão do outro lado, costas contra o tronco de uma árvore, e puxou Tierno para baixo com ele.
— Cuidado — sussurrou, o peito a arder. — Não respires alto.
Tierno obedeceu, com o corpo tremendo todo, cheio de esforço e adrenalina.
Os olhos arregalados fixavam Calem, pedindo orientação, confirmação de que estavam seguros. Havia ali um medo que ia para além da fuga. Calem viu-o no modo como Tierno segurava os braços junto ao corpo, como se protegesse algo invisível.
Os holofotes passaram a uns vinte metros de distância. Calem ouviu vozes — homens, pelo menos dois, talvez três. Falavam baixo, mas a noite transportava o som de forma estranha.
— ...não vieram para aqui. O terreno é fodido — deixou escapar o palavrão.
— O cara disse para alargar. Alargamos.
— Esta vendo algum sinal?
Pausa. Calem conteve a respiração.
— Não. Mas olha para aquilo — um dos guardas apontou, e Calem seguiu a direção imaginária com o olhar — ali, na berma. Pegadas.
O coração de Calem deu um salto. As pegadas. Claro. Eles não tinham tido tempo para disfarçar a passagem.
— São recentes — o outro guarda confirmou. — Vamos seguir.
Calem fechou os olhos.
Ouviu o som de passos a afastarem-se.
Não na direção deles. Para sul. Para onde as pegadas não iam, onde a sorte estava do lado deles, mas Calem sabia que não duraria para sempre.
Esperou. Contou até trinta. Depois até sessenta.
Quando abriu os olhos, Tierno ainda estava a olhar para ele, imóvel.
— Já foram — Calem sussurrou. — Mas não podemos ficar aqui é capaz de eles darem a volta.
Calem apenas sabia que não poderiam voltar para a clareira. Não atravessar o centro da operação. A única direção que restava era o perímetro, o que parecia ser a borda da área que os guardas estavam a patrulhar. E ali, se tivessem sorte, encontravam um sítio para se recomporem.
— Vem — disse, puxando Tierno pelo braço.
Tierno ergueu-se devagar, os olhos a varrerem a escuridão à sua volta com uma cautela que não tinha tido no início da noite. A mão livre tocou instintivamente a bolsa no cinto onde o Budew descansava, um gesto que Calem já tinha visto fazer três vezes desde que tinham deixado a pensão.
— Desculpa — Tierno murmurou, percebendo que Calem tinha reparado. — O Budew... desde aquela tarde, eu—
— Não precisa de explicar. — Calem virou-se, os olhos a escrutinarem o terreno à frente. — Só precisa seguir em frente.
Não era uma resposta carinhosa, mas Tierno pareceu compreender.
Calem estava longe de esva a rejeitar o que ele sentia, porém aquele não era o momento para processá-lo. E ele sentiu que a franqueza, por estranha que fosse, era exatamente o que Tierno precisava ouvir.
Os olhos do amigo mudaram.
O resto vinha depois.
Caminharam mais quinhentos metros em silêncio, mantendo-se na sombra das árvores mais grossas.
A floresta começava a abrir-se ligeiramente, o solo a mudar de terra húmida para uma mistura de pedras soltas e areia grossa. O som dos geradores, que antes era um zumbido distante, começava a ficar mais definido, mais próximo.
Tierno imobilizou-se.
O zumbido era mais alto agora, mas não era o som dos geradores que Calem queria que ele ouvisse. Era outro som. Uma vibração baixa, quase infrassónica, que parecia vir do solo mais do que do ar. Fazia os dentes de Calem vibrar ligeiramente.
— O que é aquilo? — Tierno sussurrou.
Calem não respondeu. Porque nesse momento, algo mudou no ombro dele — um peso que já reconhecia, Étoile a empurrar-se contra a lona da Pokébola por dentro, à procura de saída.
Precisava de saber se ela reagia. Preferia saber agora, escondido, do que descobrir tarde de mais.
Ele fez Étoile sair novamente da pokébola.
O brilho voltou quase que imediatamente.
O corpo pequeno dela começou a arder por dentro, subindo pela pelagem rosa em ondas irregulares, como uma respiração. A pequena cauda dela vibrava, e a claridade escapava por entre os dedos dele quando tentava abafá-la com a mão.
O brilho crescia à medida que se aproximavam do zumbido.
Calem sentiu um arrepio na nuca.
O padrão estava se repetindo várias e várias vezes e isso o estava irritando já, com o brilho dela ficando mais forte perto da energia da floresta, fosse ela o quê fosse.
E agora, perto dos extratores, estava a ficar quase insuportável.
— O que é isso? — Tierno perguntou, os olhos fixos na Clefairy.
— Não sei — Calem respondeu, a voz mais tensa do que queria. — mas com certeza está reagindo àquilo.
Apontou para a frente.
Através das árvores, além da última linha de vegetação, via-se uma clareira mais ampla aonde os holofotes não chegavam com tanta força, e ali, estacionados em fila, estavam eles.
Os extratores.
Calem nunca tinha visto nada parecido.
Eram três estruturas metálicas, cada uma do tamanho de um camião, com lagartas de metal que deviam ter o diâmetro de pneus de trator. A parte superior elevava-se três metros acima do solo, terminando num braço articulado que sustentava uma broca.
Broca essa que fazia lembrar os dentes de uma criatura pré-histórica, com anéis concêntricos de metal que pareciam desenhados para triturar rocha.
Não estavam ligados, apenas estacionados como bichos adormecidos.
Calem sentiu a Étoile pulsar com mais força contra o ombro.
O brilho intensificou-se, e por um momento ele quase conseguia ouvir a vibração que vinha das máquinas, quase como uma sensação, como se ela estivesse a traduzir a energia da floresta para uma frequência que o corpo dele conseguia sentir.
— Calem — Tierno chamou, a voz baixa — olha.
O amigo apontava para um dos contentores empilhados perto dos extratores. Estava aberto, e dentro dele continha tambores metálicos. Dezenas deles.
Calem aproximou-se devagar, mantendo-se na sombra.
O brilho da Étoile era agora tão intenso que ele teve de a cobrir com a mão para não serem descoberto, através dos dedos, a luz rosada escapava em fendas finas, como água a romper uma barragem.
Chegou ao contentor. Olhou para dentro.
Os tambores eram metálicos, cada um com a altura de um joelho de adulto. As tampas estavam seladas com um anel de metal, e no centro de cada uma havia uma válvula que parecia desenhada para ligação a mangueiras, mas não foi isso que atraiu o olhar de Calem.
Era o logótipo na lateral.
FL RESEARCHERS
LUMIOSE CITY
As letras eram pequenas, quase discretas, impressas a tinta preta num fundo branco com um design profissional, nada de improviso. Isto era uma empresa. Uma empresa registada. Uma empresa com sede na cidade grande.
Calem sentiu a Étoile tremer contra o ombro.
Tierno aproximou-se, ofegante.
— Uma empresa de Lumiose? — Tierno franziu a testa, a voz baixa, quase incrédula com o próprio som dela. —Isto não é a Dumont. Isto é outra coisa a fingir de Dumont.
— Ou a Dumont a trabalhar para eles.
A cabeça de Calem estava a tentar encaixar a peça no que já sabia — o contrato queimado, o nome que faltava na assinatura, "Responsável de operações: ver anexo C." Um nome novo não resolvia nada.
Só abria outra gaveta.
A Étoile pulsou com mais força contra o ombro, e desta vez o calor chegou a doer, um ardor pequeno e constante através do tecido do casaco.
— Ela não gosta disto — disse Tierno.
Foi o som que os avisou.
Não motores — passos. Rápidos, curtos, o ritmo de alguém a correr sobre pedra solta, e um focinho comprido a soltar um latido único e agudo antes de ser calado por uma voz de homem.
— Ali! Os contentores!
Calem não esperou para ver a luz.
Puxou Tierno pelo braço com mais força do que pretendia, e os dois voltaram a mergulhar para a linha de árvores, desta vez sem escolher caminho, o corpo pequeno dela a arder-lhe no peito como uma bússola que só sabia apontar, nunca explicar.
— Ela sabe para onde ir — disse Calem, sem fôlego. — Segue-a.
Correram.
Atrás deles, o Houndour ladrava sem parar agora, e uma segunda voz juntou-se à primeira, mais funda, a dar ordens que Calem já não conseguia distinguir do som do próprio sangue nos ouvidos.
O terreno subiu, depois desceu outra vez, e a vegetação engrossou até os ramos deixarem de se poder evitar, batiam-lhes na cara, nos braços levantados para proteger os olhos, e Calem sentiu o sangue quente de um golpe na testa antes de sentir a dor dele.
Foi Tierno quem viu a luz primeiro.
— Ali! — sussurrou, com a voz partida a meio pelo esforço. — Aquilo não são holofotes.
Era mais fraca. Mais baixa. E não varria — ficava.
Calem abrandou, o corpo inteiro a protestar contra a ideia de parar antes de ter a certeza.
A luz vinha de trás de um tronco caído, firme, constante, o tipo de luz que uma pessoa faz de propósito para ser vista por quem sabe o que procura e invisível para quem não sabe.
— Trevor! — disse Calem, e o nome saiu-lhe como uma pergunta e uma resposta ao mesmo tempo.
***
Foi a Flabébé que os viu primeiro.
Trevor sentiu o peso dela mudar no ombro antes de perceber porquê, o caule esticou-se na direção errada, para trás, para o caminho que já tinham deixado, e as pétalas abriram-se com aquele estalido mínimo de seiva que ele já sabia querer dizer alguém a chegar.
— Temos companhia — disse Serena, o Eevee ferido apertado contra o peito com um braço só, o outro pronto para o que fosse preciso.
Shauna levantou o Holo Caster apagado como se a luz dele ainda pudesse ajudar, lembrou-se que não podia, e baixou-o outra vez.
Foi Tierno quem saiu primeiro da escuridão, e o som que fez ao ver Trevor não foi palavra nenhuma — foi só ar, todo de uma vez, como quem larga um peso que carregava há uma hora sem saber o tamanho dele.
— Vocês estão— — começou Trevor, e não acabou, porque já estava a fazer a conta: dois corpos, de pé, a andar sem ajuda um do outro. Vivos. O resto podia esperar.
Calem chegou logo atrás, uma mão na testa a estancar um golpe que já tinha parado de sangrar sozinho, os olhos a passarem por Trevor, por Shauna, e a pararem em Serena com a desconfiança rápida e prática de quem soma pessoas desconhecidas como se somasse perigo.
— Você — disse ele.
Serena estava sentada contra o tronco de uma árvore caída, as pernas esticadas à sua frente. Não parecia cansada. Parecia aborrecida. Como se estivesse à espera deles há horas e só agora tivesse encontrado algo interessante para ver.
— Deschamps. — Ela nem se levantou. — O dia só podia piorar mesmo.
Tierno olhou para um e depois para o outro, e alguma coisa nele relaxou meio grau, o tipo de alívio pequeno que vem de reconhecer uma cara, mesmo uma cara hostil, no meio de uma noite sem nenhuma.
— O que você está fazendo aqui? — Calem perguntou, a voz já no tom de quem não vai gostar da resposta.
— O que VOCÊ está fazendo aqui? — Serena respondeu, e havia uma ligeira inclinação na cabeça dela, como se estivesse a avaliar uma nova espécie.
— Com os meus amigos? — Calem apontou para Trevor e Shauna com o queixo, o gesto curto, cortante. Não era do género dele dizer aquilo. Disse-o na mesma. — E você? Já que não tem amigos.
— Ouve aqui, seu—
Serena levantou-se. Fê-lo devagar, como se quisesse mostrar que não estava a reagir, que não se sentia ameaçada, mas Calem viu os dedos dela a contraírem-se ligeiramente, e sentiu uma satisfação mesquinha.
—Sabe, Deschamps — Serena deu dois passos na direção dele, o suficiente para que a distância entre eles se tornasse desconfortável — para alguém que passou a noite inteira a correr de guardas, você está muito confiante.
— E você, para alguém que parece que passou a noite inteira a esconder-se, está muito cheia de si.
Shauna olhou para Trevor com uma expressão de "isto vai demorar". Trevor, que ainda estava sentado no chão com a mochila nos joelhos, deu de ombros como quem diz "deixa estar".
— Não me escondo. — A voz de Serena subiu um tom, só um, mas foi o suficiente para quebrar o verniz de frieza. — Planeio. Há uma diferença.
— Planeia, sim. Planeia enquanto os outros fazem o trabalho por ti.
— Que trabalho? — Serena riu, e o som era seco, sem humor. — Você e o seu amigo— ela apontou para Tierno sem olhar— passaram a noite a tropeçar na escuridão enquanto EU tive que ajudar os seus outros dois ratinhos, caso contrário seriam apanhados.
— Ei! — Shauna disse, a voz a subir. — A gente tinha tudo sobre controlo.
— A gente não tinha tudo sobre controlo — Trevor murmurou, o tom cansado de quem não tem energia para fingir.
— É realmente...
Calem não deixou Shauna terminar. Os olhos estavam fixos em Serena, a raiva a subir-lhe pelo peito como uma maré.
— E você confunde isolamento com inteligência. Parabéns, você está sozinha. Isso não faz de você mais esperta. Faz de você mais fácil de ignorar.
— Ignorar? — A voz de Serena quebrou ligeiramente, e pela primeira vez Calem viu algo que não era controlo. Era raiva. Raiva genuína. — Eu passei dias a juntar peças que você nem sabia que existiam. E você chega aqui, com a sua Clefairy a brilhar como se fosse um herói de conto de fadas, e acha que sabe alguma coisa?
Serena deu mais um passo.
Agora estavam tão próximos que Calem conseguia ver os olhos dela — e a raiva ali era real. Não era fachada. Não era performance. Era cansada, funda, acumulada.
— O que você está para descobrir— ela continuou, a voz a baixar para um tom perigoso, controlado — eu já descobri há muito tempo, garoto. Se manca.
A palavra "garoto" entrou em Calem como uma faca.
— Não fale da minha Étoile.
— Porquê? — Serena sorriu, e o sorriso não era bonito. Era afiado. — Dói ouvir a verdade?
— Você não sabe nada sobre a minha Étoile.
— E você não sabe nada sobre a floresta— Serena inclinou a cabeça, o tom de desprezo a escorrer de cada palavra — mas isso não o impede de vir para cá, pois não?
Calem sentiu os dedos a fecharem-se em punho. A Étoile tremia contra o peito dele, e ele não sabia se era por causa da floresta, por causa da raiva, ou por causa dela. Provavelmente os três.
Tierno levantou-se devagar.
O movimento era lento, ponderado, como se cada articulação doesse. Mas quando ele falou, a voz era surpreendentemente calma.
— Vocês dois podem parar?
Calem e Serena viraram-se para ele ao mesmo tempo, como se tivessem esquecido que havia outras pessoas.
— Há homens armados a menos de quinhentos metros daqui — Tierno disse. A voz não tremia, mas a mão dele estava sobre a bolsa, e havia algo no olhar dele que os dois reconheceram: cansaço.
O silêncio que se seguiu era diferente do silêncio anterior. Não era tensão. Era vergonha.
Serena desviou o olhar primeiro. Foi um movimento rápido, quase imperceptível, mas Calem viu-a morder o lábio inferior, os dedos dela a descontraírem-se lentamente.
Calem fez o mesmo. Soltou o punho. Forçou os ombros a baixarem.
— Porque ela tem que vir com a gente?
***
Encontraram uma fenda vinte minutos depois, quando as pernas de todos já pediam paragem havia mais tempo do que qualquer um admitia.
Serena escolheu-a sem hesitar, uma reentrância no calcário, baixa, funda o suficiente para tapar cinco corpos e um Eevee a tremer, o tipo de sítio que só se conhece por já se ter escondido ali antes.
Lá fora, o zumbido dos extratores continuava, constante, e de vez em quando um feixe de luz varria a folhagem por cima da fenda e desaparecia sem os encontrar.
Trevor tirou os três volumes de dentro do casaco.
Ainda estavam quentes, o calor do próprio corpo dele a sair-lhes das capas, e pousou-os no chão de pedra com um cuidado que não tinha nada a ver com os livros e tudo a ver com o som que fariam se caíssem.
Ninguém falou durante os primeiros segundos.
Serena, encostada à parede curva da fenda, observava Trevor abrir o primeiro volume com a mesma atenção rápida e avaliadora com que tinha observado tudo a noite inteira, não curiosidade. Cálculo.
— Então — disse ela, por fim, o tom outra vez leve, outra vez a jogar. — Alguém vai perguntar-me como é que eu tinha isto, ou ficamos todos a fingir que os arquivos aparecem sozinhos nos bolsos das pessoas?
Trevor ergueu os olhos do volume.
— Não vamos fingir. — Passou o polegar pela lombada, abriu na página onde tinha parado antes, o dedo a seguir a mesma seta miúda que já reconhecera na biblioteca. — Isto é a sua letra. A mesma das margens que vi numa prateleira que alguém tinha limpo demasiado bem para ser hábito. Achei, na altura, que era da Juliette. Não era.
Serena não confirmou logo. Deixou o silêncio esticar-se, o tipo de pausa que ela parecia colecionar como quem coleciona vantagem.
— Fui eu — disse, por fim. — Há dois dias. Levei os volumes no mesmo dia que fui à biblioteca, de manhã bem cedo, muito antes de vocês sequer saberem que ela existia. Ninguém estava a vigiar aquela sala na altura. Foi só isso que bastou.
— E a equipa que estava a triturar arquivos quando lá fomos? — perguntou Trevor, devagar, a montar a conta enquanto a dizia.
— Está lá por minha causa. — Serena disse-o sem se desculpar, mas também sem o orgulho de antes. — Alguém deu pela falta tarde de mais para me apanhar, mas a tempo de mandar gente de fora limpar o resto antes que mais ninguém encontrasse o que eu encontrei. — Encolheu os ombros. — Danos estruturais, dizem. Ninguém questiona isso numa cidade meio rachada, MAS o motivo verdadeiro fui eu. Fui a faísca.
Trevor olhou para Calem, encostado à parede oposta com os braços cruzados. Ele olhava para ela com uma expressão que não era bem raiva, mas sim como se estivesse a reavaliar o tamanho de alguém que tinha decidido, cedo de mais, que já conhecia.
— Isso significa que a culpa da biblioteca ter sido destruída é tua — disse ele.
— Significa que a culpa é de quem decidiu destruir uma biblioteca inteira em vez de me denunciar. — A voz dela não subiu, mas ficou mais fria. — Eu só tirei papel de um sítio que já ninguém lia. Eles é que decidiram queimar a casa para apagar uma vela.
Ninguém teve resposta imediata para isso, e o silêncio que se seguiu tinha o peso de uma coisa que todos preferiam não examinar de perto agora.
— A FL Researchers — disse Tierno, mudando de direção antes que o silêncio se tornasse outra coisa. — Você conhece alguma coisa sobre eles? O
— Aham. — Serena tirou um dos cadernos de dentro do casaco, mais fino que os volumes, as bordas amassadas de ser dobrado e desdobrado vezes de mais. — Uma empresa de Lumiose. Financia a Dumont por baixo da mesa. Nenhum contrato público liga os dois nomes, nenhuma fatura, nada que um jornalista normal encontrasse a fazer perguntas na câmara municipal. — Abriu o caderno numa página específica, como quem já sabia exatamente onde ir. — Levei um dia a encontrar o nome. Só um dia.
— Isso é rápido — disse Shauna.
— É rápido demais. — Serena olhou para a própria letra na página, quase desconfiada dela própria. — Uma empresa que se esconde há tanto tempo por contratos de contenção não deixa o próprio nome tão fácil de achar assim, a menos que já não se importe tanto com ser encontrada ou que alguém quisesse que eu o encontrasse.
— Acha que foi guiada? — disse Trevor.
— Acho que não gosto de coincidências que trabalham a meu favor. — Fechou o caderno. — Nunca gostei.
Foi Shauna quem quebrou o silêncio seguinte, o dedo firme sobre uma página do segundo volume, um nome sublinhado três vezes por uma mão que não era a de Serena — mais antiga, mais tremida.
— Conseil des Anciens — leu, devagar.
Trevor virou-se tão depressa que bateu com o ombro na parede curva.
— Onde?
— Aqui. — Shauna virou o volume para ele poder ver. — E não é a primeira vez que aparece, lembra? Estava nos livros municipais também. Sem cargo. Sem morada. Como se todos já soubessem quem eram e não precisassem de escrever mais nada.
— Lembra da palavra que leste na pedra? — disse Trevor, quase para si próprio, os olhos a percorrer a página sem realmente a ler, a memória a puxar outra imagem por cima dela: calcário frio, letras gastas pela erosão de séculos. — Antes do poço. Custos.
— Guardião — disse Calem, devagar, como quem reencontra uma moeda no fundo do bolso. — Traduziu do latim. Era a única palavra separada do resto da inscrição.
— Exatamente. — Trevor bateu com o dedo na página, no nome sublinhado três vezes. — Custos guarda alguma coisa. Não diz o quê, só diz que há um guardião. E aqui temos um nome que se repete há séculos, sem cargo, sem morada, como se todos já soubessem quem eram. Talvez seja o mesmo tipo de coisa. Um protege o nome. O outro é o nome.
Calem endireitou-se.
— Acha que são a mesma coisa?
— Não sei o suficiente para achar nada com certeza. — Trevor fechou o volume devagar, o dedo ainda a marcar a página. — mas um nome que aparece nos registos municipais e também gravado numa pedra com quase quatrocentos anos não é coincidência. É continuidade. Alguém, ou alguma coisa, chamada assim, esteve aqui antes da cidade e continuou depois dela.
Lá fora, um feixe de luz varreu a folhagem por cima da fenda, parou um segundo a mais do que qualquer um gostaria, e seguiu em frente. Todos ficaram imóveis até o som dos passos se afastar, e só depois Trevor se atreveu a respirar fundo outra vez.
— Precisamos de saber o que isto é — disse Calem, a voz baixa mas urgente. — Não daqui a uma semana. Agora. Antes que eles nos encontrem, ou antes que aquilo lá no poço acorde de vez.
— "Aquilo" — repetiu Serena, a palavra a saltar-lhe da boca com uma pontinha de desprezo. — Já decidiram o que é sem terem visto nada além de um buraco escuro e um pouco de líquido esquisito?
— Estamos a tentar decidir.— disse Shauna.
— Então temos que decidir depressa, porque eu já ouvi essa história antes, e nunca acaba bem para quem chega tarde à teoria certa.
Foi Tierno, encostado ao canto mais afastado da fenda com os joelhos contra o peito, quem falou a seguir, e a voz saiu-lhe mais baixa do que o normal, quase incómoda com o próprio som.
— A minha avó falava de uma coisa assim.
Todos se viraram para ele.
Ele pareceu arrepender-se de ter aberto a boca, mas continuou, os dedos a apertarem devagar sobre a pokébola.
— Não uma história de ninar. Aquelas à mesa, sabe? Quando as crianças já deviam estar a dormir e não estão. — Engoliu em seco. — Ela dizia que há uma coisa no meio da floresta funda, mais antiga do que a cidade, que nunca se mostra a ninguém, mas que sabe sempre quando alguém entra fundo de mais. Dizia que não é má. Só não gosta de visitas. E que, das poucas vezes em que decidiu mostrar que reparou, ninguém voltou para contar como era.
Calaram-se, Serena revirou os olhos.
— Nunca liguei — disse Tierno, quase a pedir desculpa pelo próprio silêncio que tinha criado. — Era só coisa de avó. Toda a gente tem uma.
— A Viola disse o contrário — disse Trevor, devagar, como quem pesa duas coisas na mão para ver qual é mais pesada. — Disse que gente não desaparece por causa de árvores. Só por causa de homens.
— A Viola pode estar enganada — disse Calem.
— Ou a estar a mentir — disse Serena.
— Ou as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo — disse Shauna, atropelada, como quem tinha estado à espera de um intervalo para a encaixar. — Pode haver uma coisa perigosa no meio da floresta, pode mesmo, e ao mesmo tempo homens a usar o medo dela, ou nem é medo, se calhar é só ganância, para esconder o que andam a fazer lá dentro, e isso não se cancela, uma coisa não tira a outra, as duas cabem.
Ninguém discordou.
— Território — disse Calem, a palavra a sair devagar, como se estivesse a testar o peso dela antes de a soltar de vez. — Raízes que atacam quem pisa onde não deve. Um guardião zangado com o que estão a fazer-lhe. Encaixa com tudo o que já vimos.
— O que já sabemos que ataca assim? — disse Trevor, devagar, mais para si próprio do que para os outros, o tom de quem está a fazer o mesmo exercício que fazia antes de uma batalha: eliminar hipóteses uma a uma. — Raízes que se movem sozinhas. Que só atacam depois de o pé pisar, nunca antes. Isso não é fúria cega. É reação. Território a defender-se.
— Pode ser só a floresta mesmo— disse Shauna, os dedos a torcerem a barra do casaco sem ela reparar. — Sem Pokémon nenhum atrás disso, nem precisa de haver, pode ser só isso, crescimento descontrolado, a energia da irrupção a mexer nas raízes como mexeu no ribeiro, como mexeu nas árvores todas, em nós.
— Não. — Trevor abanou a cabeça devagar. — Raízes descontroladas crescem. Não escolhem. Não esperam o pé pisar para depois atacar. Isso é comportamento. Alguma coisa está a decidir quando e onde.
— Um Exeggutor não faria isso — disse Calem, quase para riscar a hipótese em voz alta. — É lento de mais, e não tem nada a ver com raízes subterrâneas. É um pokémon da costa de Kalos também... Um Sudowoodo é pedra, não madeira viva, e não temos nenhum sinal disso. — Parou, os dedos a contarem contra a perna, o mesmo tique que usava a cronometrar em batalha como Viola mencionara. — Fica pouca coisa que faça o que vimos: mover raízes à distância, reagir a intrusos, e ainda por cima ser velho o suficiente para ter uma pedra com o nome dele há quatrocentos anos.
— Diz o resto do que sabes— disse Serena, os braços cruzados, mas os olhos fixos nele agora sem o desprezo de antes.
— Um Trevenant não move só as próprias raízes. Move a floresta à volta dele, como se o corpo dele fosse maior do que o que se vê. — Trevor disse, olhando para Calem. — E a lenda que sempre se conta sobre eles é sempre a mesma, em toda a Kalos: guardam um lugar. Não atacam por atacar. Atacam quem entra fundo de mais no que é deles.
O silêncio que se seguiu não era hesitação. Era o som de a peça a assentar.
— "Custos" — disse Tierno, devagar. — Guardião. Não é só um título bonito numa pedra. Pode ser literal.
— E a raiva encaixa — disse Shauna. — As brocas. Os tambores. Alguém a perfurar o território de uma coisa que já era território há mais tempo do que a cidade existe. Se é um guardião, e estão a arrancar-lhe o chão debaixo dos pés, claro que ele reage, claro que reage, eu reagia.
— E o boato da tua avó — disse Trevor a Tierno, sem crueldade nenhuma na voz, só a montar a última peça. — Uma coisa que não gosta de visitas, mas que não é descrita como má. Isso não é descrição de monstro. É descrição de guardião incomodado.
Tierno olhou para o chão, como se ainda estivesse a decidir se gostava de ter contribuído para aquilo.
— A minha avó nunca disse o nome — murmurou. — Só disse que era grande. E paciente. E que a paciência dela tinha limite.
— Um Trevenant — disse Shauna, e desta vez o nome não caiu do nada — caiu como a última peça de um mosaico que o grupo inteiro tinha acabado de montar, cada um a encaixar um canto diferente.
— E essas empresas estão a explorá-lo de alguma maneira — disse Serena, os dedos ainda no volume fechado, a última peça a assentar por cima das outras. — Energia, minério, sei lá o quê. Algo que vale dinheiro suficiente para pagar aquele equipamento todo, aqueles tambores com etiqueta e tudo e o Marchais está metido nisso, a encobrir, a chantagear quem descobre. A Viola primeiro. A biblioteca depois. Nós, se formos apanhados.
Ninguém disse que estava errado.
— Faz sentido — disse Calem , por fim, e não olhou para ninguém quando o disse.
Trevor reparou. Guardou também, ao lado do resto que ainda não tinha função.
— Então o que fazemos com isso? — perguntou Tierno, a voz ainda pequena, mas mais firme do que antes.
— Provamos — disse Calem. — Encontramos alguma coisa que ligue a FL Researchers diretamente ao Marchais, voltar lá para tirar algumas fotografias, coisa que não dê para ele negar, nem para a Viola ter de continuar a proteger sozinha.
— E o Trevenant? — perguntou Shauna. — Se está mesmo lá em baixo, zangado, o que é que fazemos com isso?
— Nada. — Calem disse a palavra depressa de mais para ser reflexão, e corrigiu-se logo a seguir, mais devagar. — Quero dizer: não vamos incomodá-lo mais do que já está. Se a teoria estiver certa, ele não é o problema. É a vítima. O problema é quem está a perfurar o território dele.
Trevor olhou para ele, algo a mexer-se-lhe atrás dos olhos, uma memória a tentar encaixar-se no lugar certo.
— Os extratores — disse, devagar. — Onde é que ficam exatamente?
Tierno parou.
— Consigo levar-nos lá. — A voz dele mudou de registo, o cansaço a dar lugar a alguma coisa mais afiada, mais decidida. — Contei os passos sem querer, como ritmo. É o que faço quando estou nervoso. Vinte e cinco desde o tronco caído até ao primeiro contentor, depois mais uns cinquenta até à fila dos extratores. Viramos duas vezes à esquerda depois da última clareira que atravessámos.
— Isso é útil de mais para ser coincidência — disse Serena, quase impressionada apesar de si própria.
— Não é dom. É hábito. — disse risonho.
— Então vamos agora — disse Trevor. — Vamos saber onde procurar a prova. Um documento. Uma etiqueta com mais do que um logótipo. Alguma coisa que ligue o nome ao Marchais, não só à Dumont.
— E se formos apanhados? — perguntou Tierno, a voz a tremer só o suficiente para se notar.
— Já fomos quase apanhados a noite toda — disse Shauna. — A diferença agora é que sabemos o que estamos a fazer lá, em vez de estarmos só a fugir de uma coisa que não percebemos.
— Isso não é o mesmo que dizer que é seguro. — alguém disse.
— Não é — concordou Calem. — Mas é o mesmo que dizer que vale a pena.
Trevor guardou os volumes de volta ao casaco, um a um, o peso deles outra vez contra o peito, ao lado do tubo e da fotografia.
A Flabébé, ainda no ombro, mudou de posição.
— Ela concorda — disse Trevor, baixo, mais para si do que para os outros
— Então vamos antes que alguém mude de ideias — disse Serena, já a levantar-se, o Eevee a ajustar-se-lhe ao colo com aquele sincronismo que não se treina.
Saíram da fenda um a um, na mesma ordem inversa com que tinham entrado,
Lá fora, o zumbido dos extratores continuava, constante, mais perto a cada passo que davam.
Trevor sentiu o tubo aquecer-lhe outra vez o bolso, o mesmo calor de antes, como se alguma coisa lá dentro soubesse para onde estavam a ir e não tivesse a certeza se queria chegar.










